Casa da Esquina discute a imigração e fragmentação do mundo em peça

Em cartaz no FIT-BH, 'O meu país é o que o mar não quer' enfatiza a força do testemunho e das histórias de gente comum

por Walter Sebastião 21/05/2016 08:00

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FIT/Divulgação
(foto: FIT/Divulgação)
A necessidade de trocar Portugal pelo Reino Unido devido ao desemprego e à falta de futuro gerada por um governo que adotou políticas de austeridade, sentida na pele pelo português Ricardo Correia, de 38 anos, colocou para ele o tema da imigração de professores, artistas, cientistas e médicos. O ator e diretor passou a coletar documentos, entrevistas e depoimentos para criar O meu país é o que o mar não quer, peça em cartaz hoje e amanhã, no CCBB, dentro da programação do Festival Internacional de Teatro Palco & Rua de BH (FIT-BH).
 
A montagem, que começa com a vivência dele, vai agregando outros relatos com diferentes pontos de vista sobre os imigrantes. “Quem constrói a narrativa é o espectador”, observa Correia. “É história contada por alguém que se dedicou a coletar provas de que há uma nova vaga de imigração acontecendo”, explica, chamando a atenção para a dimensão de testemunho, opção dramatúrgica que a montagem leva para o palco.
 
“Enfatizar histórias de vida é uma forma de recordar o que está sendo esquecido e também de lutar contra as grandes narrativas usadas pela mídia e pela política para amenizar os problemas”, diz Ricardo Correia. Ele faz parte do coletivo Casa de Esquina, criado em 2008. O grupo atua em diversas frentes: artes, economia, educação e filosofia, por exemplo.
 
O interesse da arte contemporânea por trabalhos que colocam em destaque histórias de vida, em vez de grandes textos da dramaturgia, tem motivo. “Estamos em uma sociedade confessional e vivemos numa época em que estamos interessados em ouvir narrativas que falam de todos nós. O testemunho é próximo de nós. Essa forma de contar cria empatia com a nossa vida”, analisa. Ele compara esse trabalho ao dos jornalistas, pois envolve pesquisa e elaboração. Porém, difere do jornalismo devido ao fato de a peça ganhar tratamento estético.
 
O desafio posto a quem faz teatro é chegar ao público. “Neste mundo global que se fragmentou demais, onde todos estão cada um por si no espaço virtual, não é simples reunir pessoas no espaço físico real, onde cada um olha de fato para o outro”, ironiza.

DITADURA

O pano de fundo comum a várias partes do mundo é a redução “cada vez maior” dos recursos para a arte e cultura, observa. “Isso faz com que os grupos tenham que ser cada vez menores para sobreviver. Tal ditadura econômica limita o que o teatro tem de bom: a reunião de pessoas, além do compartilhamento de ideias, vivências e pontos de vista de forma mais ampla e coletiva”, argumenta.
 
Ao explicar sua forma de trabalhar, Correia explica que valoriza a pluralidade de modos de fazer teatro. O primeiro pressuposto é trabalhar com o que está disponível. “Tem casa, faço espetáculo nela. Não tem? Vou para a rua”, resume.
Para ele, a importância de festivais como o FIT-BH é o fato de eles serem possibilidade de encontro, troca, diálogo e de também de confrontos. “Mais do que só estética, são diferentes modos de pensar a sociedade, a democracia. O teatro sempre fez isso, desde a Grécia Antiga”, conclui.

O MEU PAÍS É O QUE O MAR NÃO QUER
Com Cia. Casa da Esquina. Sábado, 21, e domingo, 22, às 20h. CCBB. Praça da Liberdade, 450, Funcionários. Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada).

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