Estreia peça mineira sobre o terror infligido aos pacientes do hospital psiquiátrico de Barbacena

Crueldade é a marca do mundo contemporâneo, adverte o diretor do espetáculo, Luiz Paixão

por Gustavo Werneck 20/05/2016 10:50

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LEANDRO COURI/EM/D.A PRESS
(foto: LEANDRO COURI/EM/D.A PRESS)
Braços, pernas, cabeças e mãos se entrelaçam com suavidade e, num movimento de solidária proteção, vão se fechando até ganhar a forma de casulo, de ventre materno ou de escudo – o palco é livre, cada um vê o que imagina. Depois, os corpos se desembaraçam, soltando-se como se fosse o desabrochar de uma flor e mudam de posição com o mesmo cuidado e carinho, um acolhendo o outro, até compor novamente o cobertor de peles humanas, tecido com a lã do afeto e as linhas do sofrimento. A cena da peça Nos porões da loucura, que estreia hoje no Sesc Palladium, em Belo Horizonte, mostra os horrores de um hospital psiquiátrico mineiro no século passado. Mostra também maneiras de sobrevivência: durante o inverno rigoroso, pacientes encontravam no calor do outro um jeito de suportar as baixas temperaturas e o abandono.

Escrita e dirigida por Luiz Paixão, a peça é baseada no livro homônimo do jornalista Hiram Firmino, que, em 1979, publicou durante 10 dias seguidos, no Estado de Minas, a série de reportagens “Nos porões da loucura”, vencedora do Prêmio Esso. “Não se pode falar em adaptação da obra, pois ela é inadaptável, tem informações muito objetivas”, explica Paixão. A situação dos internos no inverno tocou-lhe particularmente e, assim, mereceu um belo momento no palco. “A crueldade e a perversidade não conheciam limites. Os pacientes ficavam no pátio, eram obrigados a tomar banho gelado à noite, morriam de frio. Chorei diariamente nos ensaios”, revela. Nove atores se revezam nos papéis de internos, médicos, políticos e funcionários do antigo hospital-colônia de Barbacena, na Região Central de Minas Gerais.

A partir dos dados contidos no livro, o dramaturgo foi construindo histórias, criando cenas e trazendo à luz da arte os labirintos da degradação de homens e mulheres confinados no hospital, fundado em 1903, considerado verdadeiro “campo de concentração” pelos métodos aplicados. A luta antimanicomial nem passava pela cabeça das autoridades. “Esse é assunto é extremamente atual, fala a este mundo contemporâneo imerso em individualismo e na insanidade dos conflitos, como ocorre na Síria. Fala também ao universo tão egoísta do cidadão mergulhado nas redes sociais, preocupado apenas em mandar mensagens no WhatsApp, sem olhar ao redor. A peça passa pela generosidade, solidariedade e beleza humana de encontrar uma solução”, afirma Paixão.

FERIDA

Há mais de um ano, o diretor, que completa quatro décadas de teatro em 2017, vem trabalhando o texto – os últimos quatro meses foram dedicados aos ensaios. “Queremos pôr o dedo na ferida, mostrar a indiferença da sociedade para muitas questões, inclusive o processo de desumanização em que vivemos. A luta antimanicomial está cada vez mais ameaçada. É necessário resistir. Manicômio não é solução para resolver o sofrimento mental”, defende. Ele vai apresentar a peça também no Instituto Raul Soares, na capital.

Na cena de abertura, percebe-se que, muito mais do que histórias, o espetáculo retrata sentimentos. São os olhos de espanto do homem, a delicada inocência da jovem cega, o mundo totalmente à parte da mulher e a dor do abandono de outro homem, todos reagindo de formas variadas às agressões. A iconografia se baseia em fotos dos internos. “Estudos mostram que 75% deles não tinham problemas mentais. Foram parar ali por questões políticas, brigas familiares e aspectos morais, entre outros. Tentamos aproximar as pessoas dos personagens, criando distanciamento para a compreensão do jogo cênico”, afirma o diretor.

Os figurinos assinados pelo estilista Ronaldo Fraga – uniformes azuis com marcas brancas – permitem que os atores, dependendo da luz, transformem-se em detentos, médicos e  funcionários. O elenco reúne Alberto Tinim, Anaís Della Croci, Antônio Rodrigues, Carlos Henrique Silva, Nanda Freitas, Luiz Gomide, Marco Túlio Zerlotini, Mariana Bizzotto e Meibe Rodrigues. O espetáculo tem cenário de Décio Noviello, trilha sonora de Marcus Viana, preparação corporal de Joaquim Elias e cenotécnica de Felício Alves.

RESPEITO

No âmbito da interpretação, a equipe tomou o cuidado “de não cair na emoção melodramática ou na crítica leviana e irresponsável”, afirma Paixão. Discutir tema tão delicado exigiu bastante cuidado, e, sobretudo, respeito absoluto à memória dos que ali morreram e dos pacientes vivos. “Em meus quase 40 anos de teatro, nunca me cobrei tanto como agora. Cobrança estética, política e ideológica. O Estado não cumpriu sua responsabilidade com essas pessoas. Agora, cabe a nós, artistas, cuidar para que essa história não seja esquecida. Que ela não se repita jamais. Nossa responsabilidade é enorme e dela não fugimos”, observa.

O dramaturgo buscou subsídios em trabalhos acadêmicos, no livro Holocausto brasileiro, de Daniela Arbex, e na experiência de profissionais do Instituto Raul Soares, da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig). “Todos ali abraçaram o projeto, compreendendo a importância de discutir, no âmbito do teatro, um dos mais graves e terríveis eventos da nossa história. Barbacena é o ponto de partida para discutir não só o tratamento de portadores, mas discutir também os cruéis métodos de degradação do ser humano”, conclui Luiz Paixão.

EM denunciou a barbárie
“Ninguém será submetido à tortura nem a tratamento ou castigo cruel, desumano e degradante.” O artigo 5º da Declaração Universal dos Direitos Humanos é a epígrafe das reportagens do jornalista Hiram Firmino, com fotos de Jane Faria, publicadas no Estado de Minas de 18 a 27 de setembro de 1979. A série vencedora do Prêmio Esso de Jornalismo mostra “o inferno de pessoas vivas” na instituição psiquiátrica de Barbacena e nos hospitais Galba Veloso e Raul Soares, em Belo Horizonte.

Com cerca de 60 mil mortos desde sua fundação, em 1903, o hospital-colônia de Barbacena registrou inúmeros casos de negligência, abandono, crueldade e indiferença. A história retratada na série migrou das páginas do jornal para o livro Nos porões da loucura, cuja terceira edição está sendo preparada.

Em 1979, o cineasta mineiro Helvécio Ratton lançou o documentário Em nome da razão. As chocantes imagens do horror em Barbacena – no EM e no cinema – reforçaram a luta do movimento antimanicomial, que modificou o atendimento a portadores de sofrimento mental no país.

NOS PORÕES DA LOUCURA
Sesc Palladium. Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro. De hoje a domingo, às 20h; terça-feira (24/5), às 20h. Entrada franca mediante retirada antecipada de ingressos.

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