Espetáculos do FIT-BH rompem estereótipos e ampliam debate sobre transexualidade

Dois espetáculos na programação discutem sobre o tema polêmico para a sociedade contemporânea

por Carolina Braga 18/05/2016 08:07

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Nathalia Mallo/Divulgação
Jo Clifford é referência no teatro escocês com mais de 80 peças escritas (foto: Nathalia Mallo/Divulgação)
O que é ser resiliente? É essa a pergunta-chave que o Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de Belo Horizonte (FIT-BH) pretende responder a partir de sexta-feira, quando 70 atrações ocuparão diversos espaços da cidade. Temas delicados que sacodem o debate contemporâneo aparecem na grade. Um brasileiro e um escocês, em especial, prometem mais radicalidade na proposta da curadoria.

Em The gospel according to Jesus, queen of heaven, a escocesa Jo Clifford apresenta um Jesus transgênero. Kassandra, da trupe catarinense La Vaca Companhia de Artes Cênicas, transforma o público em confidente de uma travesti e performer em uma boate de striptease. Ambos os personagens demonstram alta capacidade de se superar e se recuperar de adversidades.

Dramaturga com mais de 80 peças no currículo, Clifford é nome de peso nas artes cênicas de Edimburgo. Tem 65 anos e é a primeira autora declaradamente transgênero a ter um texto de teatro montado no West End, o circuito comercial de Londres. Sua companhia, a Queen Jesus Plays, se dedica a levar ao palco reflexões sobre a sociedade de hoje.

Jo Clifford é colaboradora frequente do British Council no Brasil – que inclusive viabiliza a parceria com o FIT –, mas será a primeira vez que apresenta no país o polêmico The gospel according to Jesus, queen of heaven. A peça mostra Jesus como uma mulher vivendo em 2016. O interesse pelo tema surgiu de um questionamento pessoal. “Por que a igreja cristã é tradicionalmente tão intolerante com as pessoas como eu?”, pergunta a atriz.

Em busca da resposta, começou a estudar o Novo testamento. Redescobriu as histórias da Bíblia que ouvia quando criança. Comoveu-se com a sabedoria, o amor e a compaixão de Cristo. “Tornou-se absolutamente claro que ele não discriminaria pessoas como eu. Nesse sentido, é uma peça religiosa. Mas não de uma forma convencional”, informa.

O espetáculo, dirigido por Susan Worsfold, vai ocupar a sala das colunas do Museu Mineiro nos dias 21, 22 e 23 de maio, sempre às 21h. Os ingressos estão esgotados. A estreia, em 2009, foi dentro de uma igreja em Glasgow. Desde então, Jo enfrenta resistência. Mesmo sendo hoje uma das nações mais tolerantes em relação a orientações de gênero, a artista diz que não é simples ser trans na Escócia. “É difícil – em qualquer lugar – descobrir a si mesmo e viver abertamente como uma pessoa trans. É preciso muita força e resistência.”

Jo Clifford diz que não tem pretensão de ser ameaça a ninguém. “Às vezes, sem querer, é o que sou. Mas quero desafiar o preconceito em todas as suas formas.” É ativista ligada a questões de gênero desde 1995. Na época, ainda era John. Como não conhecia atores transexuais para serem arautos de suas ideias, passou escrever peças para que ele mesmo executasse. “Tive uma sensação de que me ajudaria a recuperar de meu próprio medo e vergonha. Foi o que ocorreu.”

Foi casado por 33 anos com uma mulher forte, feminista, com quem teve duas filhas. Foi uma decisão do casal compartilhar todos os cuidados. Cada um foi pai e mãe. “Tentei viver como um homem por muitos e muitos anos. Durante esse tempo, estava muito assustada e envergonhada da mulher dentro de mim. O amor da minha esposa e minhas filhas me ajudou a superar esse medo e vergonha”, conta. Sua mulher morreu 10 anos antes de Jo Clifford ser capaz de viver plenamente como mulher.

Para a atriz, o amor tem que ser a base de toda arte. Como alguém que sempre sofreu intolerância e preconceito, levar esta mensagem às pessoas sempre foi uma preocupação. Fazer com que outras pessoas superem os próprios preconceitos é uma forma de tornar o mundo um lugar melhor para se viver. Clifford reconhece que muita gente se sente ameaçada pelos níveis crescentes de aceitação dos homossexuais. “Por isso estamos vivendo uma forte reação. Mas isso vai diminuir ao longo do tempo. A história está do nosso lado”, garante.

PAPEL DA ARTE

Jo Clifford tem acompanhado de longe as movimentações no cenário político brasileiro. Segundo ela, não é por acaso que os países que sofrem com altos níveis de transfobia são também muito misóginos e muito machistas. A artista faz coro com os protestos contra o fim dos ministérios das Mulheres e da Cultura. “A plena participação das mulheres em todos os níveis da sociedade e um florescente setor cultural são fundamentalmente importantes para o bem-estar de todos. Para o bem-estar emocional, o bem-estar humano, a capacidade de compreender e celebrar a identidade de um país, e a prosperidade econômica também. Artistas importam para a sociedade e temos o dever de tentar fazer tudo o que pudermos para tornar o mundo um lugar melhor”.

Cristiano Prism
Criação da La Vaca Cia de Artes Cênicas, de Florianópolis, 'Kassandra' será encenada dentro de uma boate de striptease (foto: Cristiano Prism)


CONFIDÊNCIAS EM ESPAÇO ALTERNATIVO

O fato de o espetáculo Kassandra ser apresentado em uma casa de striptease já chama a atenção. Mas a escolha por um espaço de diversão para adultos é elemento dramatúrgico na montagem do grupo La Vaca, de Florianópolis, em cartaz no Fit-BH nos dias 24, 25 e 26 de maio. O texto do uruguaio Sérgio Blanco é uma leitura bastante particular do mito da princesa de Troia que transformou o corpo e se tornou uma guerreira do sexo.

“O texto parte do mito, mas mostra uma personagem completamente diferente. Tem muita referência pop. Vejo a Kassandra como uma contadora de histórias”, define Milena Moraes, intérprete da personagem. O espetáculo estreou em 2012. É uma indicação do texto que seja falado em inglês rudimentar, com muito sotaque. Uma representação de que aquela mulher, em certo sentido, é sem lugar no mundo.

A escolha do inglês é porque Kassandra é representada como uma refugiada de guerra. “É uma referência às mulheres que vão fazer a vida na Europa e precisam se virar com o idioma”, conta Milena. Os espectadores, que inclusive podem beber e comer durante a peça, são transformados em clientes. Para eles, a personagem diz: “I’m not a boy. I’m not a girl. I am Kassandra”. (“Não sou um homem, não sou uma mulher, sou Kassandra”, em tradução livre).

Para Milena, como artista, procura se aproximar de temas que tenham relevância social. Há mais uma necessidade de falar do que o cumprimento de uma função. “As abordagens contemporâneas são interessantes. Quando as pessoas pensam na transgeneridade, a partir de uma pessoa que tem história, é diferente de julgar a partir da travesti que não se conhece. O preconceito é menor”, acredita.

A La Vaca foi fundada em 2008 por Milena e o diretor Renato Turnes. Tem quatro peças no repertório, todas abordando de temas contemporâneos. Uz, também em cartaz no FIT, fala sobre fanatismo religioso. “É uma comédia rasgada sobre uma família evangélica. Falamos sobre homossexualidade, violência de gênero. Uma família que vai se destruindo”, revela Milena.


The gospel according to Jesus, queen of heaven, com Queen Jesus Plays (Escócia)
21, 22 e 23/5, às 21h
Museu Mineiro – Sala das Colunas.
Av. João Pinheiro, 342, Centro, (31) 3277-6335.


Kassandra, com La Vaca Cia. de Artes
Cênicas (Florianópolis-SC)
24, 25 e 26/5, às 21h
Sayonara Night Club. Rua dos Aimorés, 6,
Funcionários, (31) 3277-6335.

Fit-BH
De 20 a 29 de maio. Programação:
www.fitbh.com.br. Ingressos:
R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

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