Séries 'Justiça' e 'The night of' confirmam alto nível da teledramaturgia

Produções da Globo e da HBO trazem em comum seu ponto de partida: crimes violentos que mostram os efeitos devastadores dos atos nas vidas dos envolvidos

por Carlos Marcelo 09/09/2016 08:46

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Estevam Avellar/Globo
Kellen (Leandra Leal) e Mayara (Julia Dalavia) em 'Justiça' (foto: Estevam Avellar/Globo)
Maurício de Nassau, Duarte Coelho, Princesa Isabel, Boa Vista... As pontes do Recife são uma das marcas registradas da cidade, consolidaram o epíteto de "Veneza brasileira" para a capital pernambucana. Filmadas com elegância, as construções acima dos rios que cortam a metrópole contribuem para consolidar o conceito de conexão das histórias de Justiça, uma das produções mais comentadas das últimas semanas. A série escrita por Manuela Dias em exibição na Rede Globo faz por merecer a repercussão favorável, com elogios da crítica e do público. O mesmo ocorreu, em menor proporção no Brasil, com outra série produzida para a TV: The night of, da HBO. Ambas partem de crimes violentos para mostrar os efeitos devastadores dos atos nas vidas dos que se envolveram – ou foram envolvidos – em situações extremas e irreversíveis. Nas duas séries, a excelência técnica e a potência dramatúrgica seguem o mesmo princípio: os mortos assombram os vivos.

Na série brasileira, uma conexão fortíssima também se estabelece logo nos primeiros capítulos: a ponte entre a justiça e a vingança. Dente por dente, olho por olho, vida por vida; a lei de Talião, tantas vezes invocada no cotidiano nacional, é a força que inicialmente move alguns dos protagonistas. A necessidade de vingança atormenta inclusive quem deveria ser guiado pela razão: Elisa (Debora Bloch), professora de direito, que faz aulas de tiro para executar o plano de matar Vicente (Jesuíta Barbosa), o assassino de sua filha. Morte com morte se paga, parece acreditar Elisa, antes de desistir do intento e de se envolver emocionalmente com o assassino. “É o justo”, enfatiza a professora, ao acertar a pendência de um pagamento à empregada doméstica Fátima (Adriana Esteves, em mais uma atuação memorável). Buscar “o que é justo”, mesmo que para isso seja preciso ignorar as leis; eis um dos temas caros às tramas criadas e interligadas por Manuela Dias. “Eu quero justiça”, gritam as personagens; devastadas pela dor e desamparadas pelo Estado, na verdade elas estão gritando “eu quero vingança”. Eis um retrato do Brasil de 2016.

Vítimas e algozes

 

A descrença no sistema judiciário brasileiro faz com que muitos personagens demonstrem maior confiança na justiça divina do que na dos homens. “Deus é grande”, repete Fátima, utilizando a fé como tábua de salvação para sua vida, destruída por um agente da lei, o policial Douglas (Enrique Diaz). Também não por acaso, não há cenas de julgamento em Justiça. Os castigos aplicados surgem com as consequências dos crimes – tanto para as vítimas quanto para os algozes. Por isso, há mais ênfase na exposição da dificuldade de reinserção social dos que cumpriram pena ("Sair da cadeia é mais difícil que entrar", resume um dos personagens) do que em eventuais transformações ocorridas com estes personagens dentro da prisão.

Bullying virtual, racismo, eutanásia, corrupção também estão entre os temas da série. Às vezes de maneira sutil, às vezes de forma bem explícita, quando a mãe da jovem Rose (Jéssica Ellen) afirma que a filha foi tratada com rigor maior por ser “preta e pobre”. Ou com subtramas inseridas nas grandes tramas: depois de gravar e divulgar vídeo íntimo com uma colega, que entra em desespero e decide pelo suicídio, um universitário quase é linchado pelos colegas. É o justo? A série não mostra o julgamento, mas já sabemos a opinião de boa parte dos personagens. E dos espectadores. Basta acompanhar o noticiário – não podemos classificar como coincidência o fato de, no início da semana, jornais populares cariocas terem publicado a seguinte manchete: “Homem atropela duas irmãs e acaba linchado”. No Brasil, a realidade abraça e quase sufoca a ficção.

Assumidamente de tom documental, a dramaturgia de Manuela Dias foi traduzida em imagens de forma irrepreensível pelos diretores, o mineiro José Luiz Villamarim e o paraibano Walter Carvalho (a mesma dupla de outras séries bem-sucedidas, O canto da sereia e Amores roubados). O trabalho de ambos é absolutamente notável. Não apenas pelas decisões ousadas para os padrões da tevê nacional, como a utilização de longos planos-sequência, que engrandecem o trabalho dos atores e amplificam o conteúdo dramático. Mas pela incorporação de referências cinematográficas locais (há muito do cinema de Claudio Assis, por exemplo, no mundo despudorado de Kellen, defendida com garra por Leandra Leal ) e pela evolução em direção à simplicidade: menos rebuscamento na luz, menos cortes bruscos, menos enquadramentos deslumbrantes. Mais ênfase na dinâmica surgida por meio de palavras, ações e reações. Menos artifícios e mais impulsos, como explica Villamarim em entrevista abaixo.

A alternância do ponto de vista narrativo, recurso utilizado por Justiça, se torna especialmente pertinente fora da tela por contrariar tendência em voga no país: a de externar, individual ou coletivamente, opiniões ruidosas e desprovidas da possibilidade do contraditório. De forma reiterativa, prevalece a tentativa de exercer o monopólio da verdade, quase sempre acompanhada também pela reivindicação da exclusividade da virtude. Ao contrário das câmeras da série, que mostram os fatos de acordo com a visão de seus protagonistas, vivemos tempos de maniqueísmo. Nuances são solapadas por certezas e a dúvida passa a ser sinônimo de tibieza, não de cautela ou de ceticismo. Expulsos da realidade, os meios-tons encontram refúgio na ficção.

HBO/Divulgação
Naz (Riz Ahmed) e Jack Stone (John Turturro) em 'The night of' (foto: HBO/Divulgação)
Ambiguidade

Em The night of, série de oito episódios da HBO exibida recentemente aos domingos no lugar de Game of thrones e disponível no serviço de streaming Now, a palavra-chave é ambiguidade. O diretor Steven Zaillian (ganhador do Oscar pelo roteiro de A lista de Schindler) e o escritor Richard Price (autor de romances como Vida vadia, Clockers e um dos roteiristas da série The Wire) fizeram um trabalho brilhante na adaptação para os EUA de Criminal justice, exibido pela BBC entre 2008 e 2009. Se, na trama inglesa, um jovem branco é acusado de matar uma mulher negra, na versão norte-americana é a vez de um muçulmano, filho de imigrantes paquistaneses, ser preso em Nova York sob a acusação de assassinato de uma mulher branca. Os choques de culturas, aguçados pelo clima de paranoia norte-americana pós-11 de Setembro, são um dos ingredientes manejados com destreza pela experiente dupla de autores.

Como na produção brasileira escrita por Manuela Dias, contudo, mais importante do que expor a hostilidade das diferenças sociais é explorar ao máximo as consequências de uma ação irreversível. Sem entregar certezas sobre culpa e inocência como é de praxe no gênero policial, Zaillian e Price mostram como uma investigação pode ser direcionada para incriminar um suspeito e, em paralelo, esquadrinham as mudanças física e psicológica de um indiciado durante o período de detenção, à espera de julgamento. “É uma transformação trágica, o retrato de como uma prisão pode brutalizar os detentos, mesmo os que já são culpados, e torná-los ainda mais brutais”, apontou a crítica Alexis Okeowo em artigo publicado na New Yorker.

Amparada em excelentes atuações, The night of não descarta elementos típicos do gênero – suspeitos inesperados, violência prisional, tensão e reviravoltas durante o julgamento – mas ganha pontos pela dramaturgia complexa, que resulta em desfecho agridoce e nada óbvio, sem inocentar mocinhos nem punir vilões. Como os personagens de Justiça, os protagonistas de The night of são atormentados pelo mesmo desassossego descrito na letra de Revelação (dos irmãos piauienses Clodo e Clésio Ferreira, gravada por Fagner, outra escolha feliz na trilha da série nacional). Um sentimento ilhado, morto e amordaçado, que volta para incomodar. Sentimentos de pessoas portadoras de cicatrizes no corpo e na alma.

 

Walter Carvalho/Divulgação
José Luiz Villamarim, diretor artístico de 'Justiça' (foto: Walter Carvalho/Divulgação)
Entrevista José Luiz Villamarim

 

Você é o responsável pela direção artística de Justiça. Qual o conceito visual da série?
Achei que poderia e deveria ousar mais na maneira de filmar. Sem maquiagem, sem 'bengala', sem trilha sonora para ressaltar o que está sendo mostrado. Tentei ser o mais simples possível. Muitos figurinos são repetidos, por exemplo. Também não mexi nas cores das locações. Não fiz nenhum retoque no Holiday. Tudo para aumentar a potência dos dramas, trazer para dentro da tela a vida como ela é. Mas tomar a decisão de seguir o caminho da simplicidade não foi fácil. Foi uma luta.

Por que Justiça no Brasil de 2016?

Acho que é absolutamente necessário repensar e discutir o que está se passando do nosso lado. Os temas que estão na série estão no nosso cotidiano. Mas sem panfletar, apenas mostrando os assuntos que a gente faz questão de discutir. O olhar inteligente da Manuela (Manuela Dias, autora da série) sobre o que está acontecendo é direcionado ao caráter humano.

Por que Recife?
Acho que, no Nordeste, as contradições brasileiras se mostram mais fortes. Há um edifício mais antigo como o Holiday perto de edifícios novos e luxuosos na praia de Boa Viagem. A geografia também favorece o tom da melancolia que está na história. Recife é uma cidade horizontal. E a gente tem que estar atento ao que está sendo produzido em Pernambuco: Cláudio Assis, Gabriel Mascaro, Kleber Mendonça... O som ao redor foi uma referência.

Desde a cena inicial do primeiro capítulo, chamam a atenção os longos planos-sequência, recurso pouco utilizado na TV. Qual o motivo da escolha?
Walter Carvalho (diretor de fotografia de Justiça) costuma dizer que o caráter ético do plano se perdeu. É isso que tento resgatar com os planos-sequência: eles integram o conceito artístico da série. Com o plano-sequência, todos ficam mais concentrados no set. Fica mais fácil atingir a catarse, o momento epifânico. Para isso, é essencial acreditar no trabalho dos atores. E também podemos incorporar ao plano tudo que acontece no set. Mesmo se houver perda de foco, por exemplo, a gente pode colocar isso para dentro da cena. A ideia é respeitar o plano até o limite.

Por que a montagem da série não segue o princípio de cortes rápidos tão característicos de produções nacionais?
O mundo de hoje gera excessos o tempo inteiro. O ritmo é frenético. Nós estamos estragados pelo excesso de informação. Acho que não se precisa reiterar tanto, com os diálogos repetindo o que já está na ação. É bom conseguir escutar e prestar atenção. Parar um pouco, escutar o outro. Escutar inclusive o silêncio.

Como foi o trabalho com os atores em relação ao sotaque pernambucano, um dos mais marcantes do país?
Fiz um trabalho específico, mas sem exagero. Tento respeitar as diferenças. Eu, por exemplo, sou mineiro, tenho meu jeito de falar. A minha mãe também, a minha família... O que não gosto é de ver todo mundo falando do mesmo jeito, criando uma só música. Isso me incomoda.

E a decisão de recorrer a canções, como Hallelujah (Leonard Cohen, na voz de Rufus Wainwright) e Pedaço de mim (Chico Buarque), em momentos-chave da narrativa?
A ideia é utilizar a música como memória afetiva dos personagens. Mas, na verdade, preciso das músicas para mim, faz parte do meu método de trabalho. Logo no início, tento descobrir as canções que têm relação com aquela história. Quando eu as acho, fica tudo mais fácil, passo a usar as músicas inclusive no set. Os atores que não gostam desse método passam a gostar (risos).

Você rodou recentemente em Cataguases o longa-metragem Redemoinho, adaptação de romance de Luiz Ruffato. Quais as semelhanças e diferenças do trabalho no cinema e na TV?
Justiça é uma série fechada, eu já tinha na mão todos os capítulos escritos antes de começar a filmar. Nesse sentido, é um trabalho bem mais próximo do cinema. O curioso é que, por causa da urgência, na TV se mexe muito menos do que no cinema, que tem três fases muito distintas: a do roteiro, da direção e da montagem. A montagem de um longa é um processo à parte. O que me incomoda é quando falam que a televisão, quando é benfeita, "parece cinema". Existe televisão benfeita e malfeita, existe cinema benfeito e malfeito.

É possível cometer injustiças com a imagem?
Sim. Pela manipulação, por exemplo. A imagem pode ser manipulada. Eu busco o contrário. Busco a verdade nas interpretações e na criação.

 

 

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