Hip-hop dos anos 70 é o destaque da nova série do Netflix

Dirigida por Baz Luhrmann, 'The get down' mostra como jovens negros e pobres impulsionaram estilo musical na Nova York dos anos 70. Os seis primeiros episódios chegam nesta sexta no Netflix

por Estado de Minas 12/08/2016 08:00

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Netflix/Divulgação
A série é dirigida por Baz Luhrmann (foto: Netflix/Divulgação)
Faz um calor de filme de Spike Lee nos cafundós do Queens, e o australiano Baz Luhrmann, de blazer e calça de veludo, esparramado num sofá de couro preto, é a mais pura definição da palavra estrangeiro. O cenário é um dos principais sets de filmagem da série The get down, a mais cara produção da Netflix (em parceria com a Sony), estimada em US$ 120 milhões, cujos seis primeiros episódios estarão disponíveis para assinantes a partir de hoje. Em volta do homem pálido e grisalho de 53 anos, zanza, para lá e para cá, um elenco quase exclusivamente formado por atores negros, incluindo Jaden Smith, 18 anos, filho de Will, com um imenso aplique no cabelo e um vestido com temas africanos.

A sensação de algo fora do lugar traz à mente a reação dos que ouviram, há três anos, os primeiros rumores sobre o desejo do diretor indicado ao Oscar por Moulin Rouge: amor em vermelho (2001) de contar as origens do hip-hop na depauperada Nova York da segunda metade dos anos 1970. Algo como se Rob Marshall, de Chicago, resolvesse dissecar em vídeo as origens do samba.

“Pois lá de minha cidadezinha em Nova Gales do Sul, aos 15 anos, eu pensava: essa meninada está criando música do nada nas ruas do Bronx! Aqueles jovens inventaram o DJ moderno. Queria fazer um filme sobre aquele momento”, diz Luhrmann.

O diretor de Romeu + Julieta (1996) e O grande Gatsby (2013), e que, justiça seja feita, trabalhou em trilhas sonoras com pelo menos dois nomes centrais do hip-hop, Missy Elliott e Jay Z, deixou de lado a ambição de fazer mais um longa musicado e trocou Hollywood pelas telinhas (de TV, computadores e celulares). Mas logo jogaria por terra a ideia de dirigir apenas o piloto – algo comum em parcerias como as de Martin Scorsese com a HBO e David Fincher com a própria Netflix – para imprimir suas digitais em todos os 12 episódios da primeira temporada de The get down. Não há data fechada para a première da meia-dúzia restante, ainda em processo de finalização.

“Havia acabado de fazer Moulin Rouge, estava em um restaurante em Paris, e vi uma foto emoldurada de Jamel Shabazz com dois jovens da cena hip-hop. Aí voltei para o que já martelava em minha cabeça de adolescente na Austrália: mas como é que aqueles meninos sem dinheiro mudaram, cultural e socialmente, o mundo todo?”

The get down é a resposta – colorida, onírica, musical e decadente – à pergunta de seu criador. O título se refere tanto à gíria nova-iorquina usada para identificar eventos de música e dança quanto aos locais abandonados onde as culturas do rap e do grafite reinaram no South Bronx nos últimos dias da disco music.

O drama musical gira em torno de um grupo de jovens secundaristas desesperadamente interessados em poesia, música e dança, mas enfadados com a música de igreja e sem dinheiro para entrar nas discotecas da moda. Eles partem do gospel e da disco para, num período de três anos (1977 a 1979), criar uma nova música urbana. E isso em meio à explosão do tráfico de cocaína, à repressão da polícia e a coleções de vinis de segunda mão.

O elenco, à exceção de Smith (na pele do grafiteiro cool Dizzee), é de ilustres desconhecidos. Os protagonistas são os colegas de turma Ezekiel “Books” Figueroa (a revelação Justice Smith) e Mylene Cruz (a bela Herizen Guardiola). Ele ainda não sabe exatamente o que fazer de seu talento para a poesia. Ela sonha em se tornar rainha da disco.

AMOR Os dois vivem uma impossível história de amor e, ao lado de outros personagens fictícios, como Shaolin Fantástico, inspirado em Bruce Lee e vivido por Shameik Moore, irão se deparar com criaturas reais do universo cultural e político da época. No quebra-cabeças visual de Luhrmann, imagens de arquivo se encaixam a cenas filmadas nas ruas do bairro no ano passado.

Além das – caríssimas – filmagens no Bronx, a busca por autenticidade começou pela escolha do time envolvido. Lenda do rap, Nas entrou como produtor-associado e ainda compôs faixas para cada episódio. Há participações especiais de nomes como Rahiem, o DJ Kool Herc, Kurtis Blow e dos ases do grafite Crash e Daze.

O jornalista, escritor e diretor Nelson George, autor de livros como Hip-Hop America, prestou consultoria. E o responsável pela invenção do scratch e um dos pais reconhecidos do hip-hop, Grandmaster Flash, comandou workshops para a equipe, sempre acompanhado de seu velho toca-discos, enquanto coreografias dos primórdios do break e da disco eram ensaiadas à exaustão.

“É a primeira vez que a pedra fundamental do hip-hop será mostrada, tal como era, em imagens”, diz Flash, hoje com 58 anos. “Na época, não tínhamos os meios para tanto. Hoje, se pensa no gênero como um negócio bilionário, mas é importante voltar às raízes e à razão central daquela música, uma manifestação cultural de denúncia da exclusão social e de afirmação da cultura popular.”

Nelson George, fundamental na criação de diálogos condizentes com o contexto social e econômico da época, diz não ter dúvidas de que The get down estabelece uma ponte entre os anos duros de uma Nova York ainda repleta de guetos e a onda de protestos dos negros nos anos finais da era Obama, por conta da seguida violência da polícia.

“A mensagem social já se dá na ousadia de contarmos com um elenco exclusivamente negro para uma produção desse tamanho. Aliás, estou curioso para saber qual vai ser a reação no Brasil, um país com população negra muito maior do que a dos EUA. Será que não se poderia fazer algo parecido com as origens do samba, a Bahia, o Rio, para todos curtirem, ouvirem, dançarem e aprenderem, exatamente como ambicionamos fazer com o hip-hop aqui em The get down?”, conclui George. (Eduardo Graça, Agência Globo)


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Confira outras produções que abordam música e questões da comunidade negra americana

Think b.i.g.: Inspirada em letras do rappper Notorious B.I.G. (1972-1997), a série contará a história de jovens negros de Nova York que se sentem cidadãos de segunda classe, mesmo nos EUA da era Obama. Entre os subtemas, gravidez, desemprego e encarceramento juvenil. Estreia na TBS em 2017.

Luke cage: Protagonizada pelo super-herói negro da Marvel criado nos anos 1970, a série é cheia de clássicos do hip-hop. Seu idealizador, o jornalista Cheo Coker, diz que pensa cada episódio como a faixa de um disco. Um dos subtemas é a gentrificação. Na Netflix em 30 de setembro.

Insecure: A comédia, criada e estrelada pela atriz, escritora e youtubber Issa Rae, é pioneira ao centrar a narrativa num grupo de amigas negras, na faixa dos 30, vizinhas em South Los Angeles. Elas vivem às voltas com questões femininas universais, mas sob a perspectiva de quem está na base da pirâmide. Na HBO, em 9 de outubro.

The race card: A série explora imagens de violência policial e segregação contra negros nos EUA. Mix de talk show e road serie, a produção, com o ex-astro da NBA Charles Barkley, viaja pelo país e conversa sobre racismo e intolerância. Estreia na TNT em 2017.

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