Técnica permite correção genética contra a infertilidade de homens

Uso de células-tronco possibilita que ratos inférteis tenham filhotes sadios e com capacidade reprodutiva. Pesquisadores britânicos trabalham para que o procedimento possa ser usado em humanos

por Vilhena Soares 29/08/2017 17:19
Reprodução/Internet/Fórum Netxplica
(foto: Reprodução/Internet/Fórum Netxplica)

O uso de células-tronco tem sido cada vez mais estudado e explorado na medicina. Elas já são uma opção de tratamento para o transplante de medula e na recuperação de queimaduras, por exemplo. Também poderão ser a resposta para a infertilidade genética masculina, segundo cientistas britânicos. Eles fizeram com que as células retiradas de roedores inférteis se transformassem em espermatozoide saudável, que deu origem a filhotes também sadios. Segundo os autores, o estudo abre caminho para o desenvolvimento de novos tratamentos de síndromes que prejudicam a capacidade reprodutiva de muitos homens.

Na determinação do sexo biológico, normalmente, as mulheres têm dois cromossomos X (XX) e os homens, um X e um Y (XY). Mas aproximadamente um a cada 500 homens nasce com um X ou Y extra (Leia Para saber mais). A presença adicional de um dos cromossomos (trissomia) pode interromper a formação do espermatozoide. “Ter o número correto de cromossomos é vital para o desenvolvimento e a saúde. A trissomia afeta cerca de 0,1% da população humana e está associada à infertilidade”, ressaltam os autores do trabalho, divulgado há duas semanas na edição da revista Science.

Os investigadores buscaram uma maneira de remover o cromossomo sexual extra. Inicialmente, retiraram pedaços de tecido da orelha de camundongos com trissomia (XXY e XYY) e os cultivaram em laboratório. Em seguida, coletaram fibroblastos (células do tecido conjuntivo) da amostra em cultivo no laboratório e os transformaram em células-tronco. Nesse processo, algumas células perderam o cromossomo sexual extra.

Por meio de substâncias químicas, os cientistas conseguiram “orientar” as células-tronco a se tornarem células com potencial de se transformar em espermatozoide. Elas foram, então, injetadas nos testículos de um rato saudável e seguiram o esperado. Em uma última etapa, os cientistas colheram os espermatozoides maduros e utilizaram o material na técnica usual de reprodução assistida. O método mostrou-se eficiente: nasceram filhotes do roedor infértil saudáveis e com capacidade reprodutiva.

“Nossa abordagem nos permitiu criar descendentes de camundongos estéreis XXY e XYY. Seria interessante ver se a mesma abordagem poderia ser usada, um dia, como tratamento de fertilidade para homens com três cromossomos sexuais”, ressalta, em comunicado, Takayuki Hirota, um dos autores do estudo e pesquisador do Instituto Francis Crick, no Reino Unido.

Além do sucesso com os roedores, os pesquisadores realizaram um experimento preliminar em que descobriram que células-tronco produzidas a partir de fibroblastos de homens com a síndrome de Klinefelter também perderam o cromossomo sexual extra. No entanto, os investigadores destacam que muitas pesquisas são necessárias antes que essa abordagem possa ser usada em seres humanos.

Limitações

“Atualmente, não temos como fazer espermatozoide fora do corpo. Nas nossas experiências com ratos, também tivemos que injetar as células com potencial para se tornar espermatozoides nos testículos, a fim de ajudá-los a finalizar o seu desenvolvimento, mas descobrimos que isso causou tumores em alguns dos receptores das cobaias”, diz James Turner, autor principal do estudo e pesquisador do Instituto Francis Crick. “Portanto, descobrir uma maneira de produzir espermatozoide maduro em um tubo de ensaio é o obstáculo que precisa ser vencido antes mesmo de considerarmos o uso dessa técnica em humanos.”

Para Mauro Bibancos, urologista e especialista em andrologia e reprodução humana do Grupo Huntington, em São Paulo, a pesquisa mostra um tipo de abordagem que tem sido bastante explorada na área genética. “Temos visto uma onda de estudos que priorizam a correção genética, o que é diferente de antigamente, quando só tínhamos o rastreamento. Essa é uma mudança que se mostra bastante benéfica, mas temos que esperar para ver se vai dar certo”, pondera.

No caso do uso dessa técnica em humanos, o mais importante, segundo o médico, é observar se a criança gerada por intermédio desse método nasceu saudável. “Para fazer esses testes, também temos que lembrar que a questão ética vai surgir. Temos dificuldade de fazer pesquisas em embriões porque elas podem causar problemas maiores. Por isso, acredito que muito ainda precisa ser pesquisado.”

Segundo Bibancos, se chegar às clínicas, o método proposto pelos britânicos pode ter como principal vantagem o fato de ser uma opção de tratamento de um problema com possibilidades de intervenções restritas. “O gene não pode ser mudado, é algo que já está ‘escrito’ no DNA, não temos medicamentos que revertam essa situação. Somente em uma das síndromes citadas no estudo, a de Klinefelter, existe uma esperança de se encontrarem espermatozoides. Esse cenário faria dessa técnica uma possibilidade nova dentro dessa área”, contextualiza.

Saiba mais


Duas síndromes A síndrome de Klinefelter ocorre como resultado de um erro genético aleatório após a concepção, onde é registrado um cromossomo X extra. Homens que nascem com esse problema podem ter baixos níveis de testosterona e massa muscular, pelos faciais e corporais reduzidos. A maioria dos portadores produz pouco ou nenhum esperma, tendo a reposição de testosterona como uma das opções de tratamento. Já a síndrome XYY, também conhecida como síndrome de Jacobs, caracteriza-se pela presença extra de um cromossomo Y. As chances de infertilidade, nesse caso, são menores, havendo menos chance de os descendentes sofrerem com a doença. Características de homens com essa síndrome incluem o crescimento acelerado na infância e estatura muito elevada.

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