Pesquisadores americanos começam a desvendar o mistério por trás das alergias

Presença de seis células de defesa no corpo serve de indicador da ocorrência de reações alérgicas, segundo estudo com 114 voluntários. Descoberta poderá melhorar o diagnóstico e o tratamento de um problema que afeta 40% da população mundial

por Vilhena Soares 10/08/2017 12:42
Ilustração/Valdo Virgo/CB/D.A Press
(foto: Ilustração/Valdo Virgo/CB/D.A Press)

A alergia é um problema de saúde muito comum, que impacta a qualidade de vida de um número grande de pessoas. Sabe-se que se trata de uma resposta imune inadequada do corpo a substâncias inofensivas, como pólen e ácaros, mas as moléculas responsáveis por essa disfunção não são completamente conhecidas. Por meio de uma técnica de análise avançada, investigadores americanos começam a desvendar esse mistério. Eles identificaram células imunes presentes apenas em alérgicos. A descoberta, publicada na revista Science Translational Medicine, pode ajudar a avaliar a eficácia dos tratamentos de alergia.

Segundo os cientistas, células imunes chamadas TH2 - que protegem o corpo de parasitas, bactérias ou vírus - podem desencadear alergias. Em laboratório, eles buscaram distinguir quais delas causavam a irritação e quais eram responsáveis apenas pela proteção. “Usamos uma abordagem única, chamada coloração com tetrâmero MHCII, para visualizar e perfilar células-T específicas de alérgenos diretamente no sangue do paciente. Com essa técnica, agora estamos observando detalhes do sistema imunológico que nunca haviam sido vistos”, conta Erik Wambre, autor do estudo e membro do Instituto de Pesquisa Benaroya, nos Estados Unidos.

A equipe identificou seis células TH2 em 80 pessoas alérgicas - essas estruturas não foram encontradas nos 34 participantes do experimento que não tinham alergias. “Como um jogo de sete erros, observamos a variação na expressão dessas células que estão relacionadas às alergias mais comuns - a amendoim, a pólen de grama, a pólen de árvores, a mofo, a pelo de gato e a ácaros presentes na poeira. Resumindo, encontramos um subconjunto de células TH2 que está presente em pessoas com alergias, mas quase totalmente ausente naquelas que não têm essas intolerâncias”, detalha o autor.

O grupo de células imunes recebeu o nome de TH2A, com a junção da letra “A” para alergia. Os pesquisadores destacam que essas moléculas se diferenciam de outras células imunes porque produzem uma sinalização inflamatória. “Nossos dados revelaram diferenças funcionais fundamentais entre as células TH2A e as TH2 convencionais, como a produção de citocinas incomuns e o uso de uma via distinta que está relacionada a reações ao alérgeno”, complementa Wambre.

Para reforçar a constatação, os pesquisadores realizaram um ensaio clínico em que monitoraram pacientes submetidos a tratamentos experimentais para alergia a amendoim. Foi identificada uma relação direta entre a dessensibilização ao alimento e a diminuição da frequência de células TH2A nos participantes.

Novo foco

De acordo com os autores, as células imunes relacionadas à alergia poderão ser usadas como biomarcadores clínicos, para avaliar a eficácia de tratamentos. “Detectar células TH2A será fundamental na nossa compreensão da doença alérgica. Essa é uma descoberta importante, porque, agora, elas serão um ponto focal em pesquisas e podem melhorar o diagnóstico, o monitoramento e o tratamento de alergias. Esse achado também abre as portas para novas terapias que poderão atingir esse inimigo”, ressalta Wambre, indicando, em seguida, novos desafios da pesquisa. “Agora, precisamos entender por que alguns indivíduos possuem essas moléculas e como pará-las.”

Maria Cândida Rizzo, coordenadora do Departamento Científico de Rinite da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia, também acredita que a pesquisa possa contribuir para melhorar tratamentos. “O fato de se obterem esses marcadores é importante para uma melhor compreensão dos fenômenos alérgicos. É importante também para o acompanhamento de pacientes em imunoterapia, uma vez que será possível a mensuração, de modo objetivo, de uma modificação da resposta imunológica com o tratamento. Podemos imaginar ainda que, futuramente, será possível atuar diretamente nesses grupos de linfócitos (células de defesa) e não apenas em seus mediadores, como se faz à luz dos conhecimentos atuais.”

Incidência global

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 40% da população global tem algum tipo de alergia. A instituição também acredita que, até o fim do século, metade da população sofrerá com alguma forma dessa complicação. No Brasil, segundo a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), cerca de 30% da população enfrenta o problema, desencadeado por reações respiratórias, a medicamentos e a alimentos.

Palavra de especialista
David J. Cousins, imunologista e pesquisador da Universidade de Leicester, no Reino Unido

Mais um campo a explorar

“Apesar da pesquisa intensiva, ainda não compreendemos completamente por que alguns indivíduos desenvolvem intolerância a elementos como poeira e pólen, por exemplo. Ter uma doença alérgica aumenta a probabilidade de desenvolvimento de outras enfermidades alérgicas durante a vida da pessoa, a chamada marcha atópica. Ao mostrar um subconjunto de células imunes específicas que podem desencadear esse problema, temos um novo campo a ser explorado por farmacêuticas, que já realizam testes com medicamentos e podem incorporar esses achados em suas análises. Apesar do uso de adrenalina, que tem ajudado muitos países no tratamento desse problema de saúde, impedindo que ele cause consequências graves aos pacientes, muito ainda pode ser feito para auxiliar quem sofre com alergias.”

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