Internet é atraente, mas pode ser perigosa e ter riscos para usuários, principalmente jovens

A rede, que chegou a ser considerada parque de diversões para crianças e local de encontro para adolescentes, exige acompanhamento presencial e diálogo como forma de proteger e educar esse público

por Jessica de Almeida Carlos Altman 07/08/2017 13:47

O aplicativo do momento tem nome de deserto - Sarahah. A proposta dele, nada inovadora, é a de poder, anonimamente, avaliar, comentar e, até mesmo, mandar cantadas entre os usuários da nova rede social. As temperaturas podem se elevar aos extremos em comentários picantes, mas podem ser congelantes em forma de bullying virtual. Campeão de downloads nas lojas da App Store e do Google Play no último fim de semana, o Sarahah virou febre entre os jovens e ligou o alerta. Quais os riscos que alguém pode estar correndo ou tudo não passa de uma brincadeira?

A discussão foi intensificada nesta última semana, depois do polêmico aplicativo criado por um desenvolvedor da Arábia Saudita, Zain al-Abidin Tawfiq, o que explica o nome - “Sarahah” é uma palavra árabe que remete a “franqueza” e a “honestidade”. Tawfiq acreditava que as pessoas deveriam ser mais honestas na comunicação no ambiente de trabalho. O Sarahah tem o objetivo de incentivar essa honestidade, ao permitir o envio de mensagens anônimas.

O certo é que, até pouco tempo, outros aplicativos tiveram a mesma intenção e funcionalidade e foram banidos em muitos países. Quem não se lembra dos polêmicos apps Lulu e Secret? O primeiro, criado em 2013, usado pelas mulheres para avaliar a beleza masculina, foi interrompido depois de ações na Justiça. O Secret, aplicativo que permitia que pessoas publicassem ‘segredos’ sem se identificar, surgiu no Brasil em 2014, ficou no ar por 16 meses e alcançou 15 milhões de usuários. Gerou tanta ira das suas vítimas que a Justiça brasileira decidiu bani-lo do território nacional.

PREVENÇÃO

Um dos últimos livros lançados pelo sociólogo e escritor polonês Zygmunt Bauman, morto há sete meses, é a reflexão atual e necessária sobre a crise dos refugiados, Estranhos à nossa porta (Editora Zahar). Nele, Bauman propõe, entre outras notas, uma sugestão de diagnóstico sobre os mundos dentro e fora das telas de dispositivos móveis e computadores. Ele diz que a vantagem da alternativa on-line sobre a existência off-line está na promessa e na expectativa de se libertar de desconfortos e inconveniências que atormentam as pessoas, numa perspectiva de libertar-se das preocupações, afastá-las, jogá-las debaixo do tapete, tirá-las de vista. “Passar do mundo off-line para o on-line assemelha-se a entrar num mundo obediente à minha vontade, pronto e ansioso por concretizar meus desejos”, compartilha.

O pensamento de Bauman se justifica, basicamente, porque a internet é tão interessante e atrativa e porque chegou a ser considerada, devido às ferramentas e suas possibilidades, um parque de diversões para as crianças e um local de encontro para os adolescentes. Porém, à medida que aumenta o uso da tecnologia pelas crianças e adolescentes, também aumentam as preocupações sobre sua segurança on-line. Em termos de capacidade de dano, alguns pesquisadores apontam para o fato de que muitos dos riscos que jovens enfrentam na internet também estão presentes off-line. Assim como não é seguro fornecer dados, relatar os bens de uma família, o dia a dia de uma casa ou mesmo informações pessoais para estranhos, é prudente tomar as mesmas medidas na esfera virtual.

A pesquisa “Recomendações do Conselho da Organização de Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OCED)”, realizada na França em 2014, mostrou que as crianças, por exemplo, tendem a ver a interação on-line e off-line “como parte da mesma realidade” e têm mais confiança nas pessoas com as quais elas interagem do que os pais têm consciência. A afirmação serve de alerta para prevenir violações de direitos e crimes, que vão desde o abuso sexual e a pornografia infantojuvenil na web até sequestros.

*Estagiária sob a supervisão da subeditora Elizabeth Colares

Espaços virtuais mais seguros
O uso saudável de ferramentas tecnológicas por parte de crianças e adolescentes deve vir acompanhado de orientação e assistência dos pais ou responsáveis

A internet é um ambiente democrático, movimentado e sem fronteiras, que oferece informação e comunicação de fácil alcance. É impossível falar de pesquisa escolar, por exemplo, que não comece pela internet. Mas o que era para ser uma ferramenta facilitadora, pode se tornar uma ameaça se a criança ou adolescente não tiver acompanhamento emocional e prático sobre o uso da tecnologia. “Há benefícios nesse espaço [o virtual]. As informações são trocadas rapidamente e é possível se conectar com o mundo todo, o que é positivo, sem dúvida. Mas nossos jovens usam a internet para se inteirar com seus pares. É importante tomar esse cuidado com conversa franca e sincera”, projeta Itamar Gonçalves, gerente de advocacy da Childhood Brasil, organização da sociedade civil de interesse público (Oscip) que trabalha para influenciar a agenda de proteção da infância e adolescência no país.

O advogado americano Ernie Allen, um dos maiores especialistas do mundo no combate a crimes de exploração infantil, diz que os pais subestimam os riscos da rede. Em entrevista à BBC, ele afirmou que “a internet mudou o mundo e isso é fantástico. Com ela, as crianças podem aprender, se divertir e entrar em contato com pessoas com os mesmos interesses. O lado negativo é a enorme exposição de menores de idade a imagens de conteúdo adulto, a comportamentos de agressão verbal e bullying, à pornografia, além da proliferação de crimes como roubo de identidade, uso inapropriado de dados pessoais, tráfico de armas, venda de drogas e redes de pedofilia”. Ou seja, grande parte dos perigos do mundo off-line estão no mundo on-line.

DESENHOS

“Pessoas com distúrbios psiquiátricos se sentem à vontade no ambiente virtual. Tudo o que as impede de agir no cotidiano some na internet. Essas pessoas ficam horas procurando, investigando, tentando encontrar vítimas, aquelas que se expõem demais.” Esse é o perigo visto por Flávia Salvador para não permitir que o filho, Pedro, de 5 anos, brinque com telefone ou tablets. Nem computador ela tem e seus cuidados são voltados principalmente para a imagem do filho. “Só publico fotos do Pedro no meu aniversário ou no Dia das Mães e disponibilizo apenas para amigos e depois fecho a visualização. Assusta pensar que qualquer pessoa pode baixar fotos e colocar em um site de pornografia infantil, mesmo que seja uma imagem inocente, como uma criança fazendo um castelinho de areia na praia, usando biquíni ou sunga. Um pedófilo não vê uma criança brincando, vê um corpo a ser desejado. Por isso evito”, defende a artista plástica.

Pedro ainda não navega sozinho em redes sociais, mas em sites como o YouTube. “De maneira geral, ele asiste ao que colocamos para ele e lhe apresento desenhos da minha infância, coisas que já conheço. Se são desenhos que não conheço, vejo o desenho antes para depois deixá-lo assistir.”

DEDICAÇÃO

“Os pais estão deixando os filhos terem celular muito cedo, sem se preocupar com a maturidade para usar esse dispositivo. Eles [os pais] devem saber se o filho está preparado para isso, dar as devidas orientações e falar sobre os perigos daquilo, como o que fazer se um estranho começar a conversar com ele.” A observação é de Cristina Sleiman, coordenadora do Instituto iStart, atuante na capacitação de professores e alunos diante dos desafios do uso crescente da tecnologia dentro e fora da sala de aula, e do que chamam de sociedade digital. Ela alerta: “É comum o filho conversar com estranhos que querem marcar encontros e não contar, pois nem tudo eles contam. Aí é que mora o perigo”.

Juarez Rodrigues/EM/D.A Press
Janusa Silvério, psicóloga, com as filhas Bianca, de 15 anos, e Renata, de 11 (foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)

A solução parece simples: impedir que crianças e adolescentes tenham celulares, tablets e notebooks, ou lançar mão de filtros e softwares para monitoramento. Mas o acompanhamento presencial e o diálogo são as formas mais eficazes e, portanto, indispensáveis na proteção e educação. “Quando dedicamos tempo de qualidade aos nossos filhos, quando nos importamos com o que eles pensam, seus amigos, a qual série estão assistindo, as pessoas que eles seguem na internet, impedimos um pouco que o Google responda por nós suas dúvidas sobre sexualidade, amor, depressão e adolescência. Quando dedicamos o nosso ser aos nossos filhos, eles sentem confiança em nos direcionar suas dúvidas e deixam o Google para questões mais didáticas e de lazer”, recomenda Janusa Silvério, psicóloga, mãe de duas adolescentes, Bianca, de 15 anos, e Renata, de 11.

Abertura para dialogar

Beto Novaes/EM/D.A Press
Mariah, de 6 anos, só usa o celular para assistir a vídeos com acompanhamento da mãe, a fotógrafa Ana Coutinho (foto: Beto Novaes/EM/D.A Press)
A fotógrafa Ana Coutinho só permite que a filha Mariah, de 6 anos, use o celular para assistir a vídeos com acompanhamento. Para ela, o ideal não é banir o uso do aparato tecnológico, mas estar presente e orientar no que for preciso. “Recentemente, ela ganhou um computador sem acesso à internet. Foi uma das premissas para deixar que ela tenha um eletrônico só dela. Temos alguns CDs de jogos educativos que estimulam a memória, escrita, leitura, historinhas. É o que permitimos.” Mas o uso do celular é acompanhado de perto. “Deixo a Mariah mexer no meu celular apenas ao meu lado, pois assim ouço tudo o que ela está vendo, dou palpite, peço pra ela mudar. É impossível ela pegar no meu celular e ir pro quatro dela. Tudo pode ocorrer se, por algum motivo, um estranho tentar contato. Ele pode falar desde Peppa Pig até pedir para mostrar o bumbum”, amedronta-se.

Para Itamar Gonçalves, da Childhood Brasil, a autoproteção precisa ser trabalhada e pode começar com o processo de mostrar o que são partes íntimas, nomeá-las, quem pode tocá-las e quando. Em se tratando de internet, o mapeamento das possibilidades funciona parecido. “O primeiro passo é pactuar com os filhos quais espaços virtuais podem ser frequentados, quais são os horários e, principalmente, se surgir algo, que a criança ou adolescente saiba que pode confiar em fazer o relato”, sugere, lembrando que pessoas mal-intencionadas trabalham com a forma de segredo, em que existe um pacto feito com a criança para que ela mantenha o silêncio, ou por meio de ameaças.

MATURIDADE

O filho precisa saber que pode contar com os pais. E a facilidade em relatar possíveis violências cometidas na rede tem início também na forma como a família lida com a questão da sexualidade e sexo. “Há diferença entre um e outro. Quando falamos de sexo, já se pressupõe maturidade dessa pessoa para escolher parceiros, se relacionar com outros. Sexualidade está no campo de desejo, principalmente na puberdade. Na adolescência, esse desejo aparece bem intensamente, por isso a importância dessa conversa em casa”, recomenda Gonçalves.

O cérebro de um adolescente está em fase de amadurecimento e a última parte desse amadurecimento cerebral ocorre no lobo frontal, relacionado com as tomadas de decisões, controle dos impulsos, processamento do pensamento. “Enquanto esse cérebro está nesse processo, enquanto seu filho não se tornou um adulto, nosso papel é ser mediador, o ‘regulador externo’ dessas emoções que estão afloradas e não deixar nossos filhos à mercê da internet”, opina Janusa Silvério.

*Estagiária sob a supervisão da subeditora Elizabeth Colares

Escola e família devem agir em conjunto
O ambiente escolar também deve ser de reflexão e promoção de algumas noções de cuidado e proteção no uso da tecnologia, amplamente inserida nas salas de aula

Arquivo Pessoal
Cristina Sleiman, coordenadora do Instituto iStart (foto: Arquivo Pessoal)
O combate às violações de direitos humanos cometidas contra crianças e adolescentes em espaços virtuais é um papel global, inclusive da escola, por ser o ambiente em que eles se familiarizam. “Além da missão educacional, o educando passa parte do tempo na escola. Ela pode desenvolver ações e projetos de incentivo e identificar líderes jovens que possam atingir os demais”, propõe Cristina Sleiman, coordenadora do Instituto iStart, atuante na capacitação de professores e alunos diante dos desafios do uso crescente da tecnologia, dentro e fora da sala de aula.

O papel dos educadores é fundamental, pois eles funcionam, como disse Sleiman, não só como missionários educacionais, mas disseminadores de informações, reflexões e debates sobre o tema. Felipe Ramos, coordenador de comunicação do Colégio Arnaldo, ministra pequenas palestras sobre a internet e os possíveis riscos que crianças e jovens correm em diversas situações, como usar aplicativos para dizer onde está ou determinados tipos de fotos e vídeos que podem viralizar (verbo usado para designar os conteúdos que ganham repercussão inesperada na web) e causar constrangimentos e violências.

IMPORTANTE

O cuidado não é só para instruir estudantes. Os conteúdos postados na página do Facebook do colégio, por exemplo, também são pensados sob o viés da segurança. “Mesmo que haja exercícios na piscina ou com mangueira não publico, para não expor alunos. Ou atividades longe de BH, que evitamos reportar imediatamente para não informar pessoas mal-intencionadas. Esses são os cuidados que já temos e, com isso, montei uma palestra, nada muito complexo, mas lembrando que as redes sociais expõem como em praça pública”, relata Ramos. “Na primeira vez em que falei para adolescentes do primeiro ano, na faixa dos 14, 15 anos, pensei: ‘Vou falar tudo o que eles já sabem’, achei que não seria interessante e fui surpreendido porque adolescentes são, de fato, inocentes. Há coisas básicas que eles não sabem”, como fazer check-in em festas. Segundo o especialista, muitos alunos disseram: “Verdade, eu sempre faço isso”, quando o exemplo foi mencionado.

Beto Magalhães/EM/D.A Press
Felipe Ramos, coordenador de comunicação do Colégio Arnaldo, diz que ensina coisas básicas em suas palestras, que os adolescentes não sabem (foto: Beto Magalhães/EM/D.A Press)

Para fortalecer o trabalho de cuidar, escola e família devem agir em conjunto. O Colégio Arnaldo pretende, futuramente, ministrar palestras para os pais, uma conversa com eles, para que eles se mantenham nas redes.

Uso responsável

O mês de julho trouxe aos cinemas a nova série de filmes do iStart, que alerta para o uso responsável da internet. São quatro episódios com temáticas diferentes (nudes, bullying, assédio de estranhos e ofensas nos grupos do WhatsApp), que alertam sobre como comportamentos inadequados ou de risco no ambiente on-line podem gerar consequências sérias para a vida dos jovens e das famílias. O objetivo é desmistificar a ideia de que a internet é uma terra sem lei e destacar que os atos nos espaços digitais podem resultar em consequências bem reais, desde uma advertência ou suspensão no âmbito escolar a indenizações. As novas produções, feitas no formato de animação pelo cartunista Jean Galvão e pela produtora RPM, são exibidas antes de uma grade de filmes voltados para o público infantojuvenil da rede Cinemark. A intenção é conseguir chamar a atenção de toda a família sobre os riscos dos excessos da liberdade no uso das novas tecnologias, e sobre como é importante a participação de pais, educadores e de todos os usuários para a construção de um ambiente digital mais ético e seguro.

Dicas aos pais

Com o aumento significativo da presença de crianças e adolescentes na rede, todos precisam estar atentos e ter alguns cuidados. Filtros e outros softwares de segurança podem ajudar, mas o acompanhamento presencial e o diálogo são as formas mais eficazes e, portanto, indispensáveis de proteção:

» Pesquise, leia, aprenda mais sobre a internet, conheça como funciona e suas possibilidades de uso. Navegue sozinho e junto com seus filhos

» Limite o tempo de utilização da internet pelas crianças e adolescentes

» Saiba por quais sites eles navegam e que comunidades virtuais integram

» Peça para ler o que eles divulgam em seus blogs, comunidades e salas de bate-papo

» Instrua-os a não divulgar dados pessoais, como nome, endereço, telefone, fotografias, escola e e-mail em locais públicos da internet

» Mantenha o computador numa área comum da casa e com a tela visível

» Caso encontre algum material violento ou ofensivo durante a navegação, explique aos seus filhos o que pretende fazer sobre o fato

» Coloque-se sempre à disposição para ajudar caso eles se sintam em perigo, mesmo se não dominar a tecnologia

» Opte por programas que filtram e bloqueiam sites. Pesquise para encontrar um que se ajuste às regras previamente estabelecidas e acordadas com seus filhos

» Os programas ajudam, mas nunca podem substituir o acompanhamento dos pais. Diálogo e confiança ainda são as melhores tecnologias de segurança

» Sempre que vir alguma coisa errada, denuncie por meio do site www.denuncie.org.br

Fonte: Organização Childhood Brasil

Sarahah

A proposta do aplicativo, de origem árabe, é a de poder, anonimamente, avaliar, comentar e, até mesmo, mandar cantadas entre os usuários da nova rede social. O que é pior, podem se apoderar de seu perfil e mandar mensagens em seu nome, sem que ao menos você saiba.

*Estagiária sob a supervisão da subeditora Elizabeth Colares

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