Anúncio de atleta alerta para a importância do autoexame para verificar câncer

Revelação de jogador de futebol, o meia Ederson, do Flamengo, chama a atenção para o tumor nos testículos, um tipo raro de câncer, mas facilmente curável se detectado no início

por Joana Gontijo 26/07/2017 13:54
Reprodução/Internet/wikiHow
(foto: Reprodução/Internet/wikiHow)

O anúncio feito ontem por um jogador de futebol chamou a atenção para um tipo raro de câncer. O meia Ederson, do Flamengo, revelou em entrevista coletiva que sofre com um tumor no testículo. O atleta foi afastado da rotina no clube para começar o tratamento e não tem previsão de voltar aos gramados. A descoberta aconteceu por acaso, após um exame antidoping, que flagrou Ederson com um aumento de HCG, substância permitida até um certo nível - o hormônio, que fica elevado quando a mulher está grávida, pode ser sinal da doença no homem. O departamento médico do Flamengo investigou o mal até chegar ao diagnóstico. O jogador será submetido a cirurgia na próxima segunda-feira e prosseguirá os cuidados com o apoio da equipe.

Casos parecidos já há algum tempo alertam para a questão, envolvendo atletas do futebol e de outras modalidades, que superaram a doença e são uma inspiração para Ederson em sua nova luta: no futebol, Arjen Robben (Bayern de Munique), Yeray Álvarez (Athletic Bilbao), Douglas Friedrich (goleiro do Avaí), Jonas Gutierrez (Independiente), Jebbe Sand (aposentado), Magrão (ex-Palmeiras, aposentado); no basquete, Nenê Hilário; no ciclismo, Lance Armstrong; no vôlei de praia, Jake Gibb; e no beisebol, Mike Lowell.

A percepção da enfermidade acontece quase sem querer, daí a importância do autoexame (veja quadro). “Os homens têm que apalpar os testículos. Se aparecer um nódulo ou uma tumoração, têm que procurar o médico”, diz Carlos Corradi, presidente da Sociedade Brasileira de Urologia.

O tumor corresponde a 5% da totalidade de casos de câncer entre pessoas do sexo masculino, tem baixo nível de mortalidade e é facilmente curado quando detectado no início, conforme o Instituto Nacional de Câncer (Inca). Mas, para Corradi, a situação é preocupante pela maior ocorrência em homens em idade produtiva, entre 15 e 50 anos. “Ele ocorre na juventude, com pico máximo entre 17 e 34 anos.”

Inclusive, é na fase produtiva, segundo o Inca, que existe o risco de o câncer ser confundido, ou até mesmo mascarado, por orquiepididimites (inflamação dos testículos e dos epidídimos, canais localizados atrás do testículo, que coletam e carregam o esperma), geralmente transmitidas sexualmente. Distinto do método para diagnosticar o tumor de mama, o exame dos testículos nunca tem como resultado falsos negativos, ou seja, parecer que tem um tumor e não ter, já que eles são mais fáceis de apalpar.

Soraia Piva/EM/D.A Press
(foto: Soraia Piva/EM/D.A Press)

Quando detectado o tumor é retirado e o testículo é substituído por uma prótese de silicone. Geralmente, o outro compensa a falta do que foi extraído. Em menos de 1% dos casos, o câncer de testículos é bilateral. Fisicamente, o homem não fica com nenhum problema que o diferencie dos demais. Corradi frisa ainda que a pessoa que fica sem um testículo não se torna impotente e não perde a fertilidade.

INDOLOR

Luiz Flávio Coutinho, oncologista da Oncocentro BH, esclarece que, diferentemente do câncer de mama, para o de testículo não existe um programa de rastreamento preconizado. Mesmo com o autoexame, não há uma frequência determinada. O sinal mais significativo da doença é o nódulo ou o inchaço no testículo, alerta. De acordo com o médico, 60% dos nódulos são indolores e 40% são seguidos de dor na região do períneo.

Soraia Piva/EM/D.A Press
(foto: Soraia Piva/EM/D.A Press)

É fundamental que se saiba que o diagnóstico precoce fornece uma chance de cura de 99,5%. O fator de risco mais comum é a criptorquidia, quando, na infância, a descida dos testículos não ocorrem normalmente para a bolsa escrotal. O Inca cita também o histórico familiar desse tumor e lesões e traumas nesta parte do corpo. O tratamento varia segundo a fase em que o transtorno é detectado. “Faz-se uma cirurgia chamada orquiectomia. Em estágios mais avançados, pode ser necessário também recorrer à quimioterapia ou à radioterapia”, detalha o especialista.

Sobre a possibilidade de infertilidade, Luiz Flávio explica que ter a doença já é um fator limitante. “Se o homem for fértil, congelamos os sêmens antes de iniciar o tratamento”, diz. Para ele, se a pessoa perceber qualquer nódulo deve procurar um urologista. O diagnóstico é feito com ultrassom do testículo. “Não se faz biópsia, vai direto pra cirurgia”, explica.

Na música

No ano passado, o rapper Taboo, integrante da banda norte-americana Black Eyed Peas, revelou sua luta contra um câncer de testículo, descoberto em 2014. Taboo conta que descobriu a doença, que estava no estágio 2, após um show quando sentiu fortes dores no corpo. O artista de 42 anos passou por tratamento e seu câncer foi declarado em remissão um ano depois. A luta contra a doença inspirou o cantor a compor a música The fight. O dinheiro arrecadado com o single foi doado à Sociedade Americana contra o Câncer, onde foi nomeado embaixador em maio de 2016.

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