Cientistas buscam identificar áreas do cérebro humano ligadas à monogamia

O experimento foi feito em ratazanas-da-pradaria, um dos poucos animais monogâmicos que "namoram"

por Vilhena Soares 04/06/2017 17:51

As ratazanas-da-pradaria são um dos poucos mamíferos que têm um único parceiro. Monogamia é prática pouco comum no reino animal. Daí a curiosidade de cientistas norte-americanos em entender por que esses roedores se comportam desse jeito. A resposta pode estar no cérebro. A partir da análise da atividade neural desses bichos enquanto eles formavam vínculos, investigadores detectaram atividades mais acentuadas no córtex pré-frontal e no núcleo accumbens, ambos ligados ao prazer. Os achados, publicados na última edição da revista Nature, confirmam suspeitas quanto à criação de laços sociais e poderão ser usados na área médica.


Por mais de 20 anos, os autores do estudo se debruçam sobre a neuroquímica e a neuroanatomia para entender a dinâmica entre casais. Nessa busca, resolveram analisar a atividade cerebral de roedores enquanto eles se relacionavam. “Saber onde essas substâncias químicas atuam no cérebro não nos diz como elas afetam a atividade cerebral durante as interações, momento a momento. Queríamos aproveitar os recentes avanços na neuroengenharia e utilizá-los para observar os grupos de neurônios quando eles estão se comunicando”, conta Robert Liu, professor associado da Universidade de Emory, nos Estados Unidos, e um dos participantes da pesquisa.

Apenas 5% dos mamíferos, incluindo os humanos e as ratazanas-da-pradaria, são monogâmicos. “Ao contrário dos ratos, quando as ratazanas-da- pradaria se familiarizam com outro membro de sua espécie, formam um vínculo de casal, gostam de passar mais tempo com o parceiro, em um comportamento chamado de ‘encolhimento’, que é semelhante às carícias dos seres humanos”, explica o investigador. As observações ocorreram enquanto as ratazanas interagiam socialmente até formar um vínculo com um parceiro. “Usando uma analogia com os seres humanos, observamos o comportamento cerebral enquanto ‘namoravam’”, compara Liu.

Os cientistas descobriram que os animais que se ligavam mais cedo a seus parceiros apresentavam maior atividade no córtex pré-frontal e nos neurônios presentes no núcleo accumbens, áreas envolvidas em respostas comportamentais de recompensa, relacionadas a atividades prazerosas, como os vícios. Para reforçar o achado, os pesquisadores utilizaram uma técnica de estimulação por meio da luz para ativar os neurônios presentes nas regiões estudadas e observaram que, após a interferência, os animais se uniram mais rápido. “Essa estimulação fez com que o vínculo ocorresse de forma mais ágil. Ao ativar essas áreas de recompensa, vimos que, por exemplo, quando a fêmea estava perto do macho, ela agia mais afetuosamente em relação a ele”, detalha o autor.

Para os autores, a estimulação do córtex pré-frontal e do núcleo accumbens podem ter otimizado, nos roedores, a percepção de características de seu parceiro, desencadeando o comportamento mais afetuoso. “Nós acreditamos que esse controle do sistema de recompensa faz com que a codificação neural das características do parceiro (odores e sons) se torne mais acentuada.”

A equipe ressalta ainda que, em humanos, a ligação das áreas neurais estudadas e o vínculo emocional também é estudado. “Em estudos anteriores, essas áreas foram ativadas quando homens olhavam para fotos de pessoas com quem sentiam afeto ou quando as mães observavam imagens de seus bebês”, ressalta o autor. “Acreditamos que os aspectos de nossos resultados se generalizam para os seres humanos e outras espécies. Há evidências de que as características de nossos entes queridos — o rosto, o cheiro e a voz, por exemplo — se ligam ao sistema de recompensa do nosso cérebro por meio da comunicação entre as áreas que processam informações sociais. Nossos estudos são os primeiros passos na identificação dos princípios gerais pelos quais isso emerge.”

Aplicações

Gilberto Xavier, neurocientista do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), destaca que o trabalho aprofunda os estudos que ligam o córtex pré-frontal e o núcleo accumbens à atração. “Podemos dizer que a ciência não dá pulos, podem surgir coisas novas e abordagens mais originais, mas todas usam como base estudos anteriores. Já sabíamos da atuação dessas áreas como atuantes no sistema de recompensa, mas o que eles fizeram foi mostrar como essa ligação ocorre dinamicamente”, diz o especialista, que não participou do estudo.

Xavier ressalta que explicar como ocorre a ligação amorosa rende discussões ricas, já que ela está ligada a necessidades biológicas do homem. “A criação de vínculo é necessária para que ocorra a sobrevivência da espécie. Costumo até brincar com a minha filha que o beijo nada mais é que um teste de compatibilidade, é uma espécie de avaliação, que mostra como a pessoa pode ser um parceiro em potencial”, argumenta. “Acredito que estamos começando a entender melhor como funciona o sistema nervoso humano e, consequentemente, aprendemos sobre temas considerados como mitos anteriormente, como o amor.”

O neurocientista indica novos caminhos que esse conhecimento pode abrir. “Não me surpreenderia se, futuramente, entendermos por que as relações também acabam. Do ponto de vista biológico, sabemos que quanto maior a diversidade de combinações genéticas, maior a nossa chance de sobreviver. Isso pode explicar por que relações amorosas em que as pessoas tiveram filhos terminam depois de alguns anos. Talvez, a pessoa não perca a atração. Para ela, seria apenas interessante biologicamente ter outro parceiro”, opina.

Os autores do estudo também indicam futuras aplicações da descoberta, mas na área médica. “Acreditamos que poderemos usar essas informações para ajudar pessoas com deficiências na capacidade de formar relacionamentos sociais, como no autismo e na esquizofrenia”, exemplifica Liu. “Estamos também estudando como a ocitocina, que é conhecida por criar vínculos entre pais e filhos e também casais, facilita a comunicação entre essas áreas cerebrais estudadas”, adianta o autor.

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