Ambiente virtual pode ser grande aliado na união entre mães e filhos

Exercer a maternidade e ainda conciliar o papel de mulher, de profissional e de amiga é um desafio a ser superado dia a dia. Nessa jornada particular, o ambiente virtual pode ser um ótimo aliado para viver o mundo real em sua plenitude, seja nas relações sociais, seja na convivência com os filhos

por Renata Rusky 04/06/2017 07:00
Ana Rayssa/Esp. CB/D.A.Press
Ana Paula Leite e as filhas Ana Beatriz, Maria Eduarda e Ana Luiza: grupo de mães criado por ela tem ajudado centenas de mulheres a se relacionarem socialmente (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A.Press)

Quando alguém se torna mãe, é comum os amigos se afastarem um pouco – ou muito. Muitas vezes, ela se vê solitária, seja porque os colegas não têm filhos, seja porque está tão envolvida com a cria que os assuntos giram quase somente em torno dela. Durante a licença-maternidade, enquanto todos vão trabalhar, ela fica em casa e não sobra muita energia para eventos sociais.

Graças à tecnologia, porém, mães na mesma situação estão se aproximando e se acolhendo. “A procura pelo apoio em grupos na internet vem muito da carência e da insegurança, principalmente quando a mulher é mãe de primeira viagem. Elas lidam com conflitos e têm apoio de outras mães que vivem as mesmas coisas. As mulheres encontram uma maneira fácil de colocar para fora suas frustrações”, pondera a psicóloga clínica Graziele Machado.

Grupos virtuais também despertam a veia empreendedora de muita mulher. Os grupos nas redes sociais as incentivam a se movimentar, trabalhar e ganhar dinheiro. Vendem roupas usadas de seus pequenos; comercializam produtos importados, trazidos de viagens; abrem a própria empresa. “Muitas encontraram no grupo oportunidades de negócios. Ali mesmo elas se capacitam e, hoje, muitas vivem com a renda 100% do grupo. A moderação também organiza diversos eventos e ações voltados para o fortalecimento desse elo”, explica Ana Paula Leite, criadora do Mães Amigas de Águas Claras. É o caso do Expo Mães Amigas, já em sua 19ª edição.

Outro ponto positivo da proximidade promovida pelo meio digital é o contato com os pais dos colegas de classe dos filhos. É moda em todas as escolas a criação de grupos para que os pais se ajudem na organização da agenda das crianças. Se um aluno perdeu aula ou se esqueceu de anotar algo na agenda, fica mais fácil entrar em contato com alguém para checar se há tarefa de casa. A comunicação ficou menos formal: se antes a mãe ou o pai ligaria para aquela pessoa com quem tem mais intimidade, agora, quem vai responder à mensagem talvez não seja a mais próxima de quem perguntou, mas a que pôde fazê-lo antes. Há também quem fique mais próximo da família por conta das tecnologias e quem compartilhe com os filhos histórias de superação por conta da internet.

Mas o meio digital também tem suas ciladas. Monitorar a relação dos filhos com a internet é uma questão que ocupa e preocupa muitas mamães. Assim, segundo Graziele Machado, entender os limites do mundo virtual com o real se torna essencial para evitar desequilíbrio nas relações e prejuízo social.

MÃES AMIGAS

A administradora Ana Paula Leite, de 33 anos, tem três filhas e o perfil no Facebook lotado de amigos. Ela criou um grupo de mães amigas na rede social e, hoje, é quase uma celebridade em Águas Claras, no Distrito Federal. Criado em junho de 2012, o grupo conta com 58 mil membros, uma fanpage com 46 mil seguidores e um Instagram com 14 mil.

O objetivo era conhecer gente nova, trocar dicas, fazer amizades. “Eu tinha recém-chegado a Águas Claras e sentia essa dificuldade, por ser uma cidade vertical e eu sempre ter morado em casa”, relembra. Tomou uma proporção que ela não imaginava, mas que, de seu ponto de vista, foi maravilhoso.

Sempre conectada, ela responde e-mail rapidamente. No WhatsApp, é ainda mais ágil. A atividade digital é conciliada com o trabalho fora e dentro de casa (ela não tem empregada doméstica) e com a criação de Maria Eduarda, de 11 anos, Beatriz, de 9, e Luiza, de 5. Como a maioria das mães, os papéis são múltiplos.

Para Ana Paula, a união das mães é indispensável. “Não é uma tarefa fácil, faço mil coisas ao mesmo tempo e não consigo me desligar. Tenho ideias o tempo todo e, por dia, devo receber umas 500 mensagens do WhatsApp. Na verdade, checo a todo instante o celular e, quando estou ensinando a tarefa de casa ou vendo um filme, tento me desligar”, relata.

“As mães precisam dar as mãos. Precisamos desse apoio mútuo. Unidas, tudo flui melhor e com mais leveza”, afirma. Sugestão de pediatra, recomendação de babás e empregadas domésticas, indicação de serviços para festas, corrente de oração. Elas se ajudam em tudo. “Trocamos dicas diárias sobre educação, manias, problemas de saúde (só é proibido indicar medicamento). Falamos sobre aleitamento materno, vacinas, epidemias e sobre lazer, cultura, restaurantes preparados para nos receber com os filhos”, cita.

Quando o pai de Ana Paula morreu, em um Dia das Mães, ela recebeu muita força das amigas digitais. Em 2014, graças ao grupo, realizou o sonho de se casar na igreja. Ela e mais seis mulheres. Todas já viviam com os companheiros, mas tinham o desejo não realizado de entrar na igreja de vestido de noiva e oficializar o matrimônio. “O casamento no religioso foi a realização de um sonho e ainda ganhei seis amigas para a vida”, emociona-se Ana Paula. Ela já vivia com o marido há cinco anos, mas por falta de recurso financeiro, os cuidados com três filhas e muitas obrigações eles não conseguiam arcar com os custos. Dividindo com outras mães e ainda com doações do grupo, ficou muito mais fácil.

Da solidão ao YouTube
Mãe e filha encontram no compartilhamento de vídeos uma forma de socialização e canal da garota bomba na internet


Filmar pequenos momentos dos filhos é algo comum entre as mamães. Foi compartilhando vídeos da pequena Rebecca com a família que Valesca Rangel, de 42 anos, mesmo sem imaginar, deu uma opção para que a filha escapasse da solidão e dos problemas vividos na escola. A menina, que nasceu na Noruega, ao chegar ao Brasil não foi bem recebida no colégio pelo jeito diferente de se vestir e pelo sotaque acentuado na hora de pronunciar algumas palavras. Quando se viu apenas com a mãe como amiga, Rebecca encontrou na câmera do computador um outro alguém para conversar nos momentos difíceis.

Carlos Vieira/CB/D.A Press
Com o apoio da mãe, Valesca Rangel, a pequena Rebecca superou problemas de relacionamento por meio da internet (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Assim, em maio do ano passado, Rebecca Rangel, de 9, criou um canal de vídeos no YouTube chamado “Rebecca AG”. De início, os vídeos eram feitos com as bonecas da menina. Aos poucos, o canal foi ganhando mais visualizações. Hoje, em uma nova escola e com mais de 5 mil inscritos em sua página de vlogs, a menina de olhar inocente, cabelo verde, piercing e riso frouxo mostrou para todos que é possível superar o bullying de maneira diferente. Em seus vídeos, a estudante aborda temas infantis e mostra um pouco do dia a dia. Mas a criatividade não para por aí: para ajudar pessoas a superarem problemas, Rebecca criou a hashtag #RebeccaAjudaVoce, na qual traz à tona assuntos sensíveis, como bullying e o jogo Baleia Azul.

Para Valesca, a forma que a filha encontrou de dar a volta por cima é especial. “Ela é uma menina muito sensível e sempre fomos muito amigas. Fico feliz em ver que ela transformou a tristeza em algo que realmente gosta de fazer”, comemora. Rebecca tem celular desde os 4 anos e, apesar das inseguranças com o mundo digital, a mãe acredita que proibir o uso não é a melhor opção. “Muita gente fala que internet não é lugar para criança, mas, sendo ou não, elas estão nesse mundo e o meu papel é orientá-la.”

Quem concorda com Valesca é a psicóloga Marcela Prata, especialista em direitos humanos, gestão de pessoas, psicodrama e neuropsicologia. Para ela, se até o terceiro ano de vida do filho os pais usam a internet como uma forma de obter controle, a partir dos 7, a web se torna um canal de comunicação. “Antigamente, usávamos diário e hoje vejo que os jovens usam a internet. É um canal muito explícito, no qual é papel do adulto mostrar que algo pode fugir da intenção da criança ou do que ela espera.”

A especialista acredita que a carga emocional que é usada impedindo o acesso das crianças ao mundo digital deveria ser transferida de forma que os pais pudessem oferecer aos filhos outras possibilidades de convivência social. “Tudo deve ser feito em equilíbrio. A internet não deve ser uma atividade única. Se uma criança está conectada, ela deve também ter tempo para brincar e interagir com outras crianças”, afirma.

MONITORAMENTO

A amizade entre mãe e filha, na opinião de Valesca, é o que deixa tudo mais leve. “Conversamos sobre tudo. Isso facilita a conscientização da Rebecca em relação a determinados assuntos.” Durante os vídeos, a administradora sempre está ao lado da filha e, mesmo como coadjuvante, escondidinha no canto do quarto, monitora os assuntos abordados e ajuda a pequena com ideias e observações. “Ela sempre me pede opinião, mas costuma fazer o que quer”, brinca. As redes sociais também não deixam de ser vistoriadas pela mãe, que se preocupa com a integridade da filha. “Tenho todas as senhas e contas dela logadas no meu celular. Fico atenta a qualquer atividade ou comentário estranho.”

A administradora trabalha de casa e, assim, pode gerenciar com mais facilidade o dia a dia da filha. Para a mãe, estar presente na vida da filha, além de ajudar na construção de sua personalidade, evita exposição e aproximação a coisas e pessoas negativas. “Educo e cuido da minha filha para que ela seja melhor do que eu. Tenho muito orgulho da criança que ela é.”

Para a especialista Marcela Prata, o acordo estabelecido entre Valesca e Rebecca é algo importante em situações como essa. “As relações precisam de equilíbrio. Uma mãe não deve proibir, mas também não pode deixar que a criança resolva tudo sozinha”, explica. A psicóloga alerta que, apesar de a relação das crianças com a internet ser benéfica, em certos momentos pode provocar isolamento social e gerar frustrações.

“Quando a criança se apega ao imaginário, ela pode se decepcionar facilmente com o mundo real. As frustrações podem ser potencializadas e acredito que essa geração não esteja tão preparada para isso.” Marcela recomenda que os pais influenciem os filhos a estabelecer vínculos concretos com o mundo em atividades familiares e brincadeiras no dia a dia – esportes, aula de dança, leitura, brincadeiras no parque.

O canal Rebecca AG ajudou a menina a superar o bullying e a se sentir mais confiante consigo mesma. Para ela, o apoio da mãe foi essencial no processo de superação. “Minha mãe sempre está comigo e me ajuda em tudo, até com ideias para o meu canal. Ela é minha melhor amiga. Antes, eu chorava porque só conversava com as minhas bonecas e com ela. Hoje não é mais assim.” O choro da menina de estilo descolado foi substituído pela felicidade em ser conhecida e aceita. “Eu me sinto famosa! Eu me lembro da época em que não tinha amigos e, agora, conheço muitas pessoas na internet. É muito legal”, diz.

Internet ligada, família unida
Redes sociais podem ser utilizadas para maior aproximação das pessoas, bem como acompanhar o dia a dia de filhos e netos nos posts e fotos e reencontrar antigos amigos

A saída dos filhos de casa, em alguns momentos, pode trazer consigo uma pitada de solidão. Não se deixar abalar e focar em outras atividades, segundo a psicóloga Marcela Prata, podem ser boas opções para driblar os momentos de tristeza e aproveitar atividades que não recebiam tanta atenção antigamente. Para a mãe e avó Fátima Ferreira, de 60 anos, a internet foi a solução para estar mais próxima da família, acompanhar o dia a dia dos netos nos posts e fotos e rever antigos amigos. Mesmo sem intimidade com as tecnologias, a servidora pública, com a ajuda da família, baixou aplicativos de redes sociais e aprendeu, aos poucos, como dedicar um tempo à atividade. Hoje, Fátima usa com frequência a internet e se sente próxima aos familiares por meio de grupos no WhatsApp.

Carlos Vieira/CB/D.A Press
Para Fátima Andrade, as redes sociais ajudaram a unir ainda mais a família: pesquisas diárias com o neto Lucas (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
“De início, achei que seria uma boa ter um Facebook para manter contato com a família e com os amigos da minha cidade natal, mas, com o tempo, percebi que era ótimo ver fotos e ler histórias dos meus netos.” Para a especialista, o uso das redes sociais é válido quando se consegue manter as relações também de forma social, ou seja, pessoalmente. “O ser humano é um ser social e é muito importante que a gente não deixe de ter contato com as pessoas. Às vezes, uma aula de ginástica ou uma ida ao parque podem ser boas opções, por exemplo”, explica. No caso dela, a internet ajudou a aproximar um pouco mais a família, que já era unida – os grupos de conversa fazem parecer que todos estão perto, mesmo com suas vidas corridas.

Mesmo assim, a avó não deixou de procurar atividades diferentes para ocupar o dia a dia. Além das aulas de teclado, Fátima divide seu tempo com um dos netos, Lucas Ferreira, de 9. O menino fica na casa da avó algumas vezes por semana e, além de ser uma ótima companhia, o garoto a auxilia no mundo digital. “Ele sabe de tudo e sempre está disposto a me ajudar a resolver ou encontrar caminhos no celular ou no computador. É engraçado”, comenta. Além de estar ainda mais próxima da família, Fátima viu na internet uma oportunidade de aprender e ajudar o neto com pesquisas e deveres de casa. “Pesquisamos muito juntos. A hora do dever de casa se torna uma coisa agradável porque somos muito curiosos. Sempre procuro novidades que eu possa mostrar para ele.”

PONTO DE EQUILÍBRIO

Após as atividades de casa, Fátima e Lucas costumam assistir aos vídeos favoritos do neto no YouTube e a jogar alguns jogos no celular. “Acho que é também uma forma de aproximação, mas nada além do que já somos acostumados. O Lucas é uma criança que gosta de brincar, de jogar bola. Não é apegado ao celular. Acho isso muito positivo e passamos a maior parte do tempo fazendo outras atividades juntos”, afirma.

Para Marcela, o ponto de equilíbrio com o uso das redes sociais é ter contato com pessoas distantes, mas, ao mesmo tempo, procurar apoio em quem está perto, uma vez que o mundo virtual não substitui o convívio em sociedade. É assim que a servidora pública faz: usa o computador sem excessos e prefere estar próxima da família nos almoços de fim de semana. “As redes sociais são apenas uma forma de estarmos próximos de pessoas com quem não podemos conviver todos os dias, mas nada substitui o contato e o amor que temos por cada um”, garante Fátima.

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