Alerta aos pais: índice de recaída no crack é maior entre adolescentes

Estudo brasileiro mostra que o índice de recaída é maior entre os adolescentes. Um mês após o tratamento, 65% voltam a consumir o subproduto da cocaína

por Paloma Oliveto 29/04/2017 07:47
Dos 23 anos de Erilton de Araújo Godoi, cinco foram passados na cadeia. Tudo por causa do crack, droga que o acompanhou durante uma década. “A gente se torna doente. Se torna até escravo. Aí, não quer saber de mais nada”, diz o jovem. Há três meses, ele está abstinente. Por vontade própria, pediu para ser abrigado em uma comunidade terapêutica.

“Foi só quando cheguei bem ao fundo do poço. Eu já estava dormindo na rua. Vi um amigo meu ser morto ao meu lado.” A força de vontade e a certeza de que vai conseguir deixar o vício para trás são grandes, mas ele sabe que o desafio também não é pequeno. Esta não é a primeira vez que Erilton tenta ficar longe do crack.

Segundo o Instituto Nacional de Abuso de Drogas dos Estados Unidos, a taxa de relapso de dependentes químicos varia, no geral, de 40% a 60%. Por causa da natureza aditiva da cocaína, da qual a pedra é um subproduto, as estatísticas internacionais indicam que a reincidência, nesses casos, é maior.

No Brasil, onde existem 370 mil usuários de cocaína fumada, de acordo com a Fundação Oswaldo Cruz, um grupo de pesquisadores investigou o índice de recaída entre um grupo sobre o qual ainda há poucos dados: os adolescentes. Em um estudo publicado na revista Journal of Addictive Diseases, eles reportam que, um mês depois da alta, 65,9% dos pacientes voltaram a consumir o crack. Passados três meses desde o fim do tratamento, o percentual era ainda maior: 86,4%.

O estudo foi conduzido com 89 jovens de 12 a 17 anos de ambos os sexos, internos nas alas de adolescentes de dois hospitais psiquiátricos públicos de Porto Alegre. Essas instituições não cuidam apenas de usuários de drogas, e a abordagem de tratamento baseou-se na Terapia Motivacional de Prevenção de Relapso.

No início da pesquisa, eles foram entrevistados pelo principal autor do artigo, o psiquiatra da infância e adolescência Ronaldo Lopes Rosa, membro colaborador do Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas (CPAD). A partir de um questionário de 27 perguntas, foi possível identificar, entre outras coisas, o nível de adição dos jovens. Os pacientes foram acompanhados pelos pesquisadores um e três meses depois da alta.

A psiquiatra Helena Moura, especialista em dependência química e coautora do artigo, explica que o estudo procurou entender os motivos por trás dos altos índices de relapso, que foram iguais, independentemente da classe social dos jovens. Para ela, um deles é o curto prazo de tratamento.

“Em média, foram 20 dias de internação. É muito pouco”, observa. Outro fator bastante associado à recaída, como esperavam os pesquisadores, teve a ver com o grau de dependência. Quanto mais tempo de adição, maior o risco de o adolescente reincidir. Segundo a médica, isso evidencia a necessidade de se pensar estratégias de prevenção do relapso específicas para essa população.

Cérebro remodelando A psicóloga Michelle Rodrigues, especialista em formação em saúde mental e dependência química e membro da Academia Goiana de Psicanálise, concorda com essa demanda. Ela lembra que, dos 12 aos 24 anos, o adolescente e o jovem estão em uma fase de remodelação do cérebro, o que explica as atitudes impulsivas, rebeldes e depressivas.

“Ele pensa e se sente como um adulto, mas, constantemente, se comporta como uma criança. A causa dessa instabilidade é de ordem neurobiológica, seu cérebro está passando por transformações. Se ocorrer entrada de substâncias psicoativas que alterem a mente e o humor, o desenvolvimento poderá ser afetado”, diz.

Uma das especificidades do tratamento do adolescente adito é a necessidade do envolvimento familiar, incluindo a participação em terapias de grupo. O que, no caso do crack, pode ser algo incompatível. “Muitas vezes, o usuário de crack vem de um ambiente familiar desestruturado.

Infelizmente, ainda tem aquela postura de ‘cria aí e me devolve todo arrumadinho’”, diz Helena Moura. “O adolescente recebe alta, mas os conflitos não foram resolvidos. Falta afeto, não há incentivo, a família o chama de marginal e bandido. Aí, ele prefere estar na rua do que dentro de casa”, diz.

“A família e sua inserção no tratamento do membro usuário de drogas é essencial e faz todo o diferencial nesse processo”, defende a psicóloga Michelle Rodrigues, que atua em um centro terapêutico em Anápolis (GO).

A profissional é autora de um artigo baseado em sua experiência de atendimento a essa população no qual mostra os resultados positivos da terapia familiar como parte do tratamento e, ao mesmo tempo, a dificuldade que os parentes têm de aderir.

Presidente da comunidade terapêutica Desafio Jovem, de Brasília, Lindemberg Resende Boechat conta que, mesmo oferecendo terapia familiar, muitos não sabem como se comportar com o dependente químico em recuperação.

Depois de cinco meses na comunidade, os jovens têm autorização de passar o fim de semana em casa. O tratamento dura, no mínimo, nove meses. “A família tem de estar pronta para recebê-los. Uma vez, um pai fez uma festa regada a uísque para comemorar a chegada do filho”, exemplifica.

PALAVRA DE ESPECIALISTA: Ronaldo Lopes Rosa, psiquiatra da infância e adolescência e principal autor do artigo

Novas estratégias

Os principais resultados do estudo mostraram que os dependentes que estavam usando a droga há mais tempo tiveram maiores taxas de recaída no primeiro mês (no terceiro mês não houve mensuração, porque quase 90% recaíram) e os que ficaram mais tempo internados tiveram menores taxas. Esses dados poderiam ser levados em consideração nas abordagens aos usuários da droga, ou seja, maior tempo longe do crack e tratamento mais intensivo no primeiro mês após a alta aos usuários com uso há mais tempo poderiam diminuir as taxas de recaída. Diante do conhecimento de que essa população é de difícil acesso e resistente a qualquer abordagem, novas estratégias se tornam necessárias para a diminuição das taxas de recaída, de cronicidade e de morte.

Pra esquecer o mundo


Depoimento - Erilton de Araújo Godoi, 23 anos, dependente em recuperação


Hugo Gonçalves/Esp. CB/D.A Press
Erilton de Araújo Godoi, 23 anos, dependente em recuperação (foto: Hugo Gonçalves/Esp. CB/D.A Press)

“Eu usei crack pela primeira vez com 13 anos, mas fui usar mesmo, de verdade, com 14. A turma com quem eu andava desde pequeno foi se envolvendo, fumando maconha, cheirando, depois acabou todo mundo caindo no crack. Uns se recuperaram, outros recaíram. Todo problema que eu tinha eu usava o crack. Brigava com a família ou com a namorada, usava a droga. O crack me fazia esquecer do mundo. Com 18 anos, fui preso por roubo, roubava para comprar crack, mas nunca fiz nada armado. Quando fui pra cadeia, falei que não ia usar mais. Fiquei uns três meses limpo depois que saí, mas tive a recaída. No finalzinho da minha pena, minha mãe faleceu. Aí, desandei. Voltei a usar droga, acabei voltando para a cadeia. Desandei pesado, de chegar ao fundo do poço. Vendi tudo que tinha dentro de casa e, quando não tinha mais nada, roubei um celular para comprar a droga e fui preso.

Saí da cadeia dia 6 de dezembro do ano passado. Dia 3 de janeiro, tive outra recaída. Minha família já não estava mais me dando atenção, eu estava sozinho. Quando minha irmã que mora em Anápolis soube que eu estava morando na rua, foi me ver e perguntou se eu queria mudar. Aí falei que ia para uma casa de recuperação se ela me arrumasse. Minha irmã que mora em Brasília me trouxe para cá (na Comunidade Terapêutica Desafio Jovem). No começo, eu pedia para ir embora, mas acabei decidindo entregar minha vida para Deus. Vou mudar minha vida. As pessoas que eu pensei que tinha perdido estão do meu lado. Só meu pai ainda não falou comigo, mas, quando fizer cinco meses, eu vou visitá-lo, pedir perdão e agradecer por tudo o que ele me fez.”