Infância é importante fase para consolidar e entender alguns conceitos

Cabe aos pais abordarem temas tabus de uma forma natural e lúdica

por Selecione 03/04/2017 15:36
Carlos Vieira/CB/D.A Press
O pequeno João Luiz, de 5 anos, se mostra muito interessado por temas como machismo. O debate é sempre estimulado pela mãe, Aline Moreira (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

Quando a criança vê algo que lhe é pouco familiar, logo estranha. O questionamento vem a seguir: “Mas pode um homem namorar outro homem?”. Os pais, muitas vezes, acreditam que os filhos pequenos ainda não estão preparados para entender temas considerados mais espinhosos e preferem se calar. Porém, perdem aí a chance de explicar aos pequenos sobre a diversidade do mundo e algumas questões, como machismo, feminismo, orientação sexual, racismo e violência familiar.

No dia a dia, as crianças são expostas a diferentes realidades. Noções aprendidas na infância são consolidadas na adolescência. Assim, abordar tais assuntos na primeira etapa da vida pode contribuir para compreender as diferenças entre as pessoas, prevenindo, assim, os preconceitos e formando pessoas mais respeitosas.

A auxiliar de contabilidade Aline Moreira, de 26 anos, é mãe de João Luiz, de 5. Para ela, sempre foi essencial conversar abertamente sobre temas diversos com o menino. Machismo, por exemplo, é um deles. “Gosto muito de falar sobre essa questão. Sempre explico a importância de tratar bem as mulheres, por exemplo. Um dos meus maiores medos é que a sociedade o corrompa e ele se torne um homem machista ou com preconceitos.”

Apesar da pouca idade, João se mostra muito curioso e interessado nos bate-papos que envolvem as questões sociais. Segundo a mãe, isso ocorre devido à naturalidade com que os temas são tratados dentro de casa. Do jeitinho dele, o pequeno entende a mensagem: “Meu avô não é machista. Ele respeita a minha avó, não bate e não briga com ela”, considera.

Aline também se atenta a tópicos que envolvam preconceito e ensina que o respeito ao outro vem em primeiro lugar. “Há pouco tempo, o João chegou em casa com um tema interessante. Ele me perguntou por que a amiguinha dele era ‘marrom’.” Com o auxílio de imagens, a mãe mostrou ao filho que nem todos são iguais e que não há problema algum nisso. Todos podem ser amigos, independentemente da raça. Para Aline, é importante saber esclarecer tudo de maneira simples e didática. “Infelizmente, é difícil achar livros que expliquem de forma clara para a idade dele, mas acho ótimo quando acho algum”, completa a mãe.

FERRAMENTA DIDÁTICA


A psicóloga de crianças e adolescentes Adriana Amaral esclarece que os livros infantis podem ser utilizados como recursos para introduzir e discutir esses assuntos. “Além de ser uma ferramenta didática e lúdica de ensinar às crianças, a leitura de livros voltados para questões sociais pode ser uma forma de mostrar que qualquer assunto pode ser conversado sem punição e que existe uma relação de confiança ali”, comenta a especialista em análise comportamental. Ela acrescenta que pais que favorecem um diálogo aberto e não punitivo dentro de casa estão, além de educando os filhos, abrindo espaço para ensinar o que é respeito às diferenças.

Pietra, de 6, também já entende bastante sobre as noções de respeito. A mãe e assistente social Gabriela Galvão, de 22, acredita que os desdobramentos do machismo, do racismo e da falta de feminismo na sociedade são perversos. Para conquistar um mundo melhor, a mudança deve ser feita dentro de casa, ainda na infância. Por isso, Gabriela faz questão de ensinar a filha a aceitar o diferente e a entender, por exemplo, que não há problema de uma pessoa gostar de mulher e de homem. “No caso do machismo, explico sempre para a Pietra que não existe coisa de menino e coisa de menina. Ela pode brincar do que quiser e ressalto que não existe julgar outra garota por um determinado comportamento só por ela ser garota.”

Para a mãe, a maior dificuldade se encontra fora de casa, uma vez que nem todos criam os filhos com os mesmos ideais. Certa vez, Pietra questionou a mãe quanto ao comportamento de uma mulher dançando funk por achar aquilo “feio”. Gabriela não recrimina os pensamentos da filha, apenas tenta induzi-la ao próprio questionamento: “Entendi que ela estava associando aquilo a um moralismo de comportamento e expliquei que existem diferentes ritmos de músicas. Perguntei se ela gostava de dançar e ela disse que sim. Falei que as pessoas podem dançar do jeito que quiserem e que não se deve julgar a mulher só por causa daquilo.” É assim, aos poucos, que os paradigmas são quebrados na cabeça de Pietra. “Não é sempre tão fácil quanto parece”, brinca a mãe.

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Gabriela faz questão de ensinar à filha, Pietra, que é importante aceitar as diferenças (foto: CB/D,A Press)

Gabriela concorda que os livros são uma ótima forma de apresentar o diferente às crianças, mas acredita que eles são minoria no mercado. Assim, ela recorre a conversas didáticas e a qualquer outro meio que ajude a filha a compreender certos assuntos. “Sempre que vejo algo saindo dos padrões, tento mostrar a ela o quanto aquilo é legal. Achei o máximo o último filme da Disney, Moana, pois retrata a história de uma princesa sem príncipe. Nele, a mulher pode ser valente e conquistar, por si só, o que quiser.”

OPORTUNIDADES


A terapeuta e analista comportamental infantil Ana Rita Coutinho esclarece que, quando dizemos que precisamos “tratar” esses assuntos com os filhos, não significa sentá-los na cadeira e falar formalmente. A melhor forma de fazer isso pode ser em uma oportunidade ingênua ou até mesmo durante uma brincadeira. “Muitos pais, por exemplo, não aceitam que o filho brinque de casinha. Isso já é uma ideia de machismo que está sendo transmitida de forma muito mais velada do que formal. Acredito que é nesse ponto que os pais devem pensar na forma como estão lidando com os filhos.”

Falar sobre algumas questões polêmicas não precisa ser tarefa difícil. Existem alguns materiais disponíveis que ajudam na compreensão da criança. Livros que tratam de orientação sexual ou bonecas negras, por exemplo, podem ajudar nesse entendimento. “A gente só precisa pensar qual material é adequado para o nível de desenvolvimento daquela criança”, explica Ana Rita. “Com relação a machismo e feminismo, é muito mais permitir que a criança brinque com o que quiser, não ter restrição.” O pensamento deve ser que, da mesma forma que ensinamos as crianças a serem responsáveis e honestas, podemos também introduzir o feminismo, machismo e orientação sexual, por exemplo. São assuntos que, quando tratados com naturalidade, são aceitos da mesma forma.

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