Marcio Atalla: a atividade física ajuda a combater muitos dos males modernos

O estilo de vida é determinado pelo que uma pessoa faz na maior parte dos dias. E a conclusão é que o brasileiro está cada vez mais sedentário, o que afeta a saúde e o bem-estar

por Lilian Monteiro 02/02/2017 20:17

Arquivo Pessoal
"A cada dois minutos uma pessoa morre vítima do sedentarismo, que já é um problema de saúde pública" (foto: Arquivo Pessoal)
“No final da década de 1980, o brasileiro andava cerca de 10 mil passos diariamente e tinha uma alimentação 70% in natura. Nada de celulares, elevadores, controle remoto e escada rolante por todo lado. O meio ambiente levava para o movimento. Atualmente, ele caminha muito menos e tem 70% da alimentação baseada em produtos industrializados. O brasileiro deixou de gastar 350 calorias por dia, isso é cerca de uma hora na esteira da academia.” Esse panorama é traçado por Marcio Atalla, professor de educação física com especialização em treinamento de alto rendimento e pós-graduação em nutrição pela Universidade de São Paulo (USP).

Um dos profissionais da Casa do BemStar, espaço elaborado para atender às particularidades de cada um com uma equipe multidisciplinar formada por educadores físicos, fisioterapeutas, nutricionistas e médicos do esporte, Marcio Atalla alerta que, além de o corpo sofrer, começa a cobrar um preço grande por parar de movimentar-se, um custo alto. “Estudo feito nos EUA aponta que cinco doenças em decorrência do sedentarismo custam US$ 68 bilhões ao ano. Ou seja, é todo o orçamento de São Paulo, que é de US$ 55 bilhões. A cada dois minutos uma pessoa morre vítima do sedentarismo, que já é um problema de saúde pública. Prova disso é que nos EUA se gastam US$ 11 mil ao ano por habitante e mesmo assim a expectativa de vida caiu.”

Marcio Atalla diz que o Brasil segue no mesmo caminho e uma hora a conta não fecha porque, além da questão da saúde, tem ainda a Previdência, gastos com o envelhecimento e os aposentados. “Em 2030, um terço da população brasileira será acima de 60 anos. Se ela não chegar produtiva, sem tanto custo, a conta da saúde não vai fechar. E se nada for feito, será um caos”, alerta.

No fim da década de 1980, cerca de 13% das pessoas tinham sobrepeso no Brasil. Hoje, são mais de 50%. “Somente 5% da população brasileira está matriculada em academia e a frequência é mais baixa ainda no país. No fim, menos de meio por cento se mexem, porque o movimento do dia a dia já era. É muito grande o número de pessoas abandonando a academia. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 80% da população brasileira é pouca ativa ou sedentária”, destaca Marcio Atalla.

Marcio Atalla reafirma que a atividade física ajuda a combater muitos dos males modernos. Mas ele observa que muitas pessoas, erradamente, confundem sobrepeso e obesidade como culpa da alimentação. Antigamente, só tinha pão branco, nada de dietas, nenhum terror com a lactose e as pessoas não eram “gordas” porque caminhavam mais, se movimentavam. Hoje, elas pararam e aí fica difícil perder calorias. A alimentação é superimportante alinhada com o estilo de vida. Estudo na Inglaterra comprova que é melhor ter sobrepeso sendo ativo do que magro e sedentário.

Ele cita políticas de sucesso das cidades de Copenhague e Amsterdã, na Holanda, que foram planejadas para a mobilidade e hoje têm mais bicicletas do que carros, contribuindo para a qualidade de vida da população. “O melhor movimento é aquele que conseguimos incorporar no dia a dia, como trabalhar mais tempo em pé, acumular passos (10 mil por dia), subir escadas e andar de bicicleta em trajetos diários. No caso do Brasil, é preciso pensar em um sistema que premia as pessoas. Por si só será difícil, porque a primeira preocupação do brasileiro é cobrar das autoridades obras em hospitais e médicos, e não dá contrapartida. Mas a via é de mão dupla, cada um é responsável pela sua saúde, tem de se cuidar.”

MORTES E CRIANÇAS Marcio Atalla conta que crianças ficam cinco horas por dia, conforme a OMS, na frente de uma tela, sendo que o ideal recomendado pela entidade é de duas a três horas. “Elas não brincam mais, aliás, só 22% brincam uma hora por dia. Atividade física é positiva para a cognição, aumenta a produção de novos neurônios e ajuda para uma maior oxigenação do sangue, contribuindo para o aprendizado e atividades do dia a dia. Tenho um amigo construtor que revelou gastar 70% com a´área de lazer e espaço fitness em prédios e condomínios, mas só 6% a usam. E se pensarmos na população menos favorecida, tudo é mais difícil. Mas sempre há saída, como caminhar mais, trocar o elevador pela escada, enfim, encontrar alternativas”, diz.

Com cenário cada vez mais preocupante, Marcio Atalla enfatiza que apenas 35% da população brasileira pratica atividade física três vezes por semana, sendo que o ideal é 30 minutos por dia e cinco vezes por semana. A falta de exercícios mata todos os anos cerca de cinco milhões de pessoas no mundo, número equivalente ao de mortes por tabagismo e maior do que pela obesidade.

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