Manter a saúde em dia, ter independência física e financeira são pilares para envelhecer bem

O tema envelhecimento vem sendo cada vez mais discutido e debatido e, por isso, caminhamos rumo à compreensão do que é a vida na terceira idade

por Valéria Mendes 01/01/2017 10:00
Rodrigo Clemente/EM/D.A Press
Aos 89 anos, Martha Barreto Lucena concluiu o curso de direito em 2016 e publicou um livro (foto: Rodrigo Clemente/EM/D.A Press)
Viver deveria se resumir a usar o tempo da maneira mais agradável possível. E para isso, não importa a idade. É possível se divertir e se sentir útil das mais diferentes formas. Há quem passe a juventude e a vida adulta a cumprir o que se espera de um homem e de uma mulher, casar, ter filhos, trabalhar, sustentar a família, viajar nas férias, garantir a aposentadoria.

Há quem consiga se libertar um pouco dessa fórmula e arriscar mais. Não se pode ignorar também a existência de pessoas que são obrigadas (ou se sentem assim) a trilhar uma trajetória predeterminada. Algumas vão conseguir recuperar seus sonhos na terceira idade. Outras não.

Pensar sobre a vida sempre nos levará a refletir sobre a importância do tempo presente, que é, de fato, a única coisa que se tem de verdade. Por isso mesmo, temer o envelhecimento parece bobagem já que ele é o futuro de quem conseguir chegar lá. “Todo mundo vai ser idoso, a não ser que morra antes”, provoca o presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia Regional Minas Gerais (SBGG-MG), o médico geriatra Rodrigo Ribeiro dos Santos.

Mesmo assim, a rejeição à velhice é uma realidade. Para o geriatra, essa sensação reside no fato de a sociedade só enxergar o envelhecimento pelo lado negativo. “A grande razão disso é associar o processo de envelhecimento com o surgimento de incapacidades e dependência. E isso aparece até de forma subliminar, na placa de trânsito que mostra o idoso curvado com uma bengala. Envelhecer é ficar incapaz. Essa é a conclusão que tiramos.”

O especialista garante, porém, que a maior parte da população idosa não é dependente. Que o diga Martha Barreto de Lucena, que já chegou aos 89 anos, e revela um segredo interessante: “Na verdade, a gente não percebe que está envelhecendo. São os outros que contam para a gente. Quando você está bem de saúde, o tempo não é motivo de preocupação. Mas, de repente, um menininho na rua que chamava a gente de ‘tia’, passa a nos chamar de ‘vó’”, brinca.

Para ela, se a pessoa têm ânsia de vida, vai envelhecer mais aos olhos dos outros do que pelo passar do tempo. Mãe de sete filhos, avó de 18 e bisa de 11, ela está aí para provar que nunca é tarde para conquistar o que se deseja, mesmo quando se é impedida pelos valores de uma época. “Meu sonho de mocinha era fazer o curso de direito”, revela. Em 2016, ela conseguiu.

Mesmo com exemplos que nos mostram que estar vivo, em qualquer idade, pode valer a pena, o envelhecimento é um mistério. “Nenhum de nós sabe como vamos chegar nessa fase da vida. E é essa dúvida, segundo a assistente social Ruth Myssior, coordenadora da Universidade Aberta ao Idoso da PUC Minas Contagem e especialista em gerontologia, que faz com que muitas pessoas tenham medo da velhice. “Só conhecemos o envelhecimento do outro, e uma sociedade que privilegia o novo, o belo e o jovem tem dificuldade em aceitar as questões que envolvem o envelhecimento”, diz.

Sobre o medo de ficar velha, Lucia Torres Vaz de Mello, de 81, tem um recado certeiro: “As rugas que tenho hoje é porque já tiveram muitos e muitos sorrisos nesse rosto”. Levantadora no time de vôlei da terceira idade do Sesc, unidade do Bairro Floresta, Região Leste de BH, ela espera chegar aos 103 anos. “Estamos aqui de passagem, não adianta ter medo, só nos resta aproveitar a vida”, aconselha sabiamente.

NOVA ÓTICA Para Ruth Myssior, que há 24 anos atua nessa área, o envelhecimento é um tema que vem sendo cada vez mais discutido e debatido e, por isso, caminhamos rumo à compreensão consciente e respeitosa do que é a vida na terceira idade. A Política Nacional do Idoso, de 1994, e aprovação do Estatuto do Idoso, em 2003, têm papel fundamental nessa mudança de perspectiva por fazerem com que as questões do envelhecimento sejam encaradas sob uma nova ótica. “Esse novo olhar melhora o tratamento que é dado aos idosos. Hoje, as pessoas já trazem para si a possibilidade do envelhecimento criativo, do envelhecer com saúde, do estabelecimento de novas relações sociais nessa fase da vida”, pontua.

A especialista diz que são os próprios idosos têm protagonizado essa mudança cultural no país. “Aqueles que têm visão diferenciada do envelhecer levam essas informações para o seu meio social e essa voz é multiplicada.” Mas não é tudo “uma maravilha”, palavras dela. Ainda temos desafios a superar enquanto sociedade e país: a rejeição às pessoas mais velhas existe, o desrespeito, a violência, o abuso e os maus-tratos. A diferença é que hoje existe a possibilidade – em razão de políticas públicas específicas voltadas a essa parcela da população que cresce cada vez mais – de punição, fiscalização e mudança social.

Assim, o Bem Viver deste domingo, convida leitores e leitoras a refletirem sobre como gostariam de ser tratados. “Tratar bem os idosos é lutar pelos nossos direitos no futuro”, lembra o geriatra Rodrigo Ribeiro dos Santos. Com o envelhecimento da população, instituições de longa permanência serão cada vez mais necessárias e é preciso encarar esse tabu que associa a decisão a abandono

Casas de repouso

Já somos quase 25 milhões de pessoas acima de 60 anos no Brasil, ou 12,1% da população. Esse número vai se aproximar dos 30 milhões daqui a quatro anos, em 2020. E as projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é de que 33,7% da população do país em 2060 terá ultrapassado a sexta década da vida: 73 milhões de nós chegaremos à terceira idade. E mais do que alcançar a longevidade, o desejo de todos é qualidade de vida.

Presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia Regional Minas Gerais (SBGG-MG), o geriatra Rodrigo Ribeiro dos Santos diz que o caminho a se trilhar para ultrapassar a barreira dos 65 anos com saúde tem receita objetiva respaldada em evidências científicas sólidas. Mas a aplicação prática dessa receita no dia a dia não é tão fácil. Segundo ele, até 75, o que vai determinar a forma como cada um de nós envelhece são os nossos hábitos e o meio em que a gente vive. A partir dessa idade, a influência genética passa ter mais relevância em como o nosso corpo e a nossa mente vão reagir ao passar dos anos. “A pessoa que quer alcançar grandes faixas etárias – chegar aos 80 anos independente – tem que fazer o para casa”, sintetiza.

O que a ciência tem mostrado e comprovado é que esse para casa começa quando ainda estamos na barriga da mãe. “Os hábitos da gestante vão influenciar a vida de todo ser humano e as condições socioeconômicas da infância contribuem muito para a forma como nós vamos envelhecer”, diz o médico.

E as lições de hábitos saudáveis, que começam quando ainda nem somos os donos de nossas próprias vidas, devem prevalecer os 75 já que, depois disso, é a genética que deverá mandar no nosso ‘destino’. “Temos o fator individual que influencia, mas é importantíssimo que, enquanto sociedade, todo ser humano tenha condições sociais de uma vida digna. Se a semente não é plantada desde a infância estamos semeando velhice com mais dependência e mais cara em termos de investimento público”, explica Rodrigo Ribeiro dos Santos.

Enquanto sociedade, o para casa consiste em investir na saúde das gestantes e das crianças, em condições sanitárias e em educação, fator que também influencia o modo que cada pessoa vai envelhecer. Já enquanto indivíduo, são dois os pilares de maior evidência científica: atividade física e alimentação saudável.


APOSENTADORIA E o envelhecer com independência inclui também a questão da Previdência Social. Com as mudanças sendo gestadas para equilibrar o imenso déficit no INSS, a necessidade de se planejar ao longo da vida tornou-se fundamental para o brasileiro. Seja uma poupança, uma previdência privada, um patrimônio que possa garantir uma velhice com qualidade de vida e a tão sonhada independência financeira, é importante que as pessoas se conscientizem de que não dá para esperar apenas a aposentadoria do INSS.

Como um país que está envelhecendo, precisamos amadurecer alguns conceitos que já não se adequam mais à nossa realidade. Um deles é o preconceito e o tabu que envolvem a institucionalização de idosos. Culturalmente e socialmente, as famílias brasileiras que colocam seus parentes em instituições de longa permanência – não se usa mais a palavra asilo justamente pelo caráter pejorativo que ela carrega – ainda são vistas como insensíveis.

Fato é que cada vez será mais difícil que cada idoso ou que cada idosa seja cuidado pelos próprios familiares, já que as famílias têm diminuído. Outro ponto a ser considerado é que, quanto mais dependente um idoso for, mais importante para ele é receber um cuidado multidisciplinar de profissionais da área de saúde. Algo que, individualmente, tem um custo muito elevado. Além disso, as instituições voltadas para essa faixa etária ajudam a diminuir o risco de o idoso não ser vítima de maus-tratos, violência psicológica ou física.

O médico geriatra Rodrigo Ribeiro dos Santos afirma que cada vez temos mais exemplos de que é possível viver bem em instituições de longa permanência no país. “Não estamos no nível dos países do Hemisfério Norte em que as demandas individuais são contempladas no que se diz respeito à dignidade – como, por exemplo, o respeito às culturas e às crenças de cada um. Mas Belo Horizonte avançou muito nos últimos anos. As instituições não oferecem apenas cama e comida. A vigilância é grande e é preciso cumprir a exigência de equipes multiprofissionais. Em alguns casos, a instituição é a melhor solução para o paciente idoso muito dependente.

Pensando individualmente, o ideal é que os idosos fiquem o maior tempo possível em suas casas, no seu ambiente. Mas não é uma regra para todos. Algumas famílias estão preparadas e conseguem dar esse cuidado ao idoso dependente, outras conseguem até um certo grau de dependência, mas em alguns casos que a demanda do idoso se torna tão complexa, a instituição de longa permanência é a melhor opção”, avalia.

Referência em Belo Horizonte
Leandro Couri/EM/D.A Press
A Cidade Ozanam é uma referência de instituição pública de longa permanência com capacidade para 90 idosos com mais de 65 anos, mas a preferência é para pessoas em situação de vulnerabilidade social (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)


Na capital mineira, o geriatra Rodrigo Ribeiro dos Santos diz que a Cidade Ozanam é uma referência de instituição pública de longa permanência. Ele e outros colegas do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) fazem trabalho voluntário no local. Instituição filantrópica com capacidade para 90 idosos com mais de 65 anos, a preferência é para pessoas em situação de vulnerabilidade social. Atualmente, segundo o presidente da instituição, Noel de Araújo, 82 vagas estão ocupadas. “Temos um corpo clínico de voluntários completo e uma estrutura física bem elaborada”, diz.

Lá, os idosos podem receber visitas diárias e sair desde que estejam acompanhados por algum responsável, já que estão na condição de curatelados. Programas como o Vida Ativa, com ginástica voltada para idosos duas vezes por semana, o Educação de Jovens e Adultos (EJA), que inclui a alfabetização, oficinas de trabalhos manuais como pintura e desenho, atividades de lazer como bingo e dança de salão, passeios coletivos pela cidade, quem está à frente da Cidade Ozanam garante que “todo dia tem alguma coisa para fazer”.

Os quartos não são individuais e existem cômodos com duas camas, com quatro e a enfermaria, onde estão as pessoas acamadas, e podem comportar até 12 pessoas. Mulheres dormem com mulheres e homens com homens. Não existe, atualmente, nenhuma situação de casal, mas Noel Araújo garante que é possível, nesses casos, que eles fiquem juntos em um mesmo quarto.
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Maria de Lourdes Melgaço, de 80 anos, e Antônia Barbosa, de 78, dividem um quarto há sete anos. As duas foram para a Cidade Ozanam por decisão própria (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

AMIZADE CONSTRUÍDA Maria de Lourdes Melgaço, de 80 anos, e Antônia Barbosa, de 78, dividem um quarto há sete anos. A primeira está na Cidade Ozanam há 8 anos e a segunda, há 9. Ambas foram para lá por decisão própria e elas parecem se dar muito bem, como fazem questão de dizer, mas têm opiniões bem diferentes da vivência na instituição. Cada uma traz consigo uma história de vida diferente, mas com algumas similaridades, é verdade. Nenhuma delas têm filhos, mas a primeira foi casada e a outra “namorou bastante”. Enquanto Maria de Lourdes tem vários sobrinhos, irmãos, irmãs e enteados que a visitam frequentemente, a levam para passear e a todos os eventos familiares possíveis, a família de Antônia morreu toda. Ela, que morava em “uma roça próxima a Minas Novas”, foi trazida para Belo Horizonte para ser empregada doméstica até que se aposentou, adoeceu e chegou à Cidade Ozanam. Por isso, segundo ela, não tem ninguém para visitá-la além da antiga patroa. Maria de Lourdes diz que não: “Meus sobrinhos visitam sempre a Antônia”, ela faz questão de lembrar à amiga que sorri e consente com a cabeça.

Leandro Couri/EM/D.A.Press
(foto: Leandro Couri/EM/D.A.Press)

Conceição Catarina Treves, de 68, também chegou à Cidade Ozanam por vontade própria. Da sua antiga casa alugada ela levou sua cômoda, o frigobar e o som. Ela divide o quarto com mais três mulheres e é a única que tem móveis próprios. A parte de cima da cômoda está repleta de prêmios que ela já ganhou no bingo. Não tem espaço para mais nada, mas ela sempre dá um jeitinho. “Eu sempre ganho”, ela diz acompanhada de uma gargalhada. “Sou muito sortuda”, completa. Como dá para imaginar, o bingo é a atividade preferida de Conceição.

Fazer algo na vida

Divulgação
(foto: Divulgação)
“Continuo não gostando de velhos neste novo ano. Do arrastar dos pés por trás dos andadores, da impaciência fora de propósito, do eterno reclamar, dos biscoitinhos com chá, dos gemidos e dos lamentos. Eu mesmo tenho oitenta e três anos e três meses.” Esse é o primeiro parágrafo do livro Tentativas de fazer algo na vida (R$ 49,90), escrito pelo holandês Hendrik Groen (trata-se de um pseudônimo) durante o ano de 2013 e publicado no Brasil pela editora Planeta. Best-seller internacional, a obra é considerada imperdível para quem se interessa pela temática.

Hendrik vive em uma instituição pública de longa permanência ao norte de Amsterdã e decide escrever um diário para, segundo ele, não “acabar numa espiral de depressão”. Com duração de um ano – porque o autor espera não morrer antes disso –, a ideia do autor é que passagens divertidas do livro deverão ser lidas em seu funeral para que as pessoas presentes conheçam “o verdadeiro Hendrik”. A tarefa caberá ao amigo Evert Duiker. Mas algo preocupa Hendrik: “e se Evert morrer antes de mim?”.

Com texto fácil e envolvente, Hendrik consegue dar leveza e extrair humor das situações mais desconcertantes vividas por ele e os companheiros e companheiras de instituição. Ele também não tem pudor em revelar as angústias e tristezas de um homem velho com a capacidade criativa intacta, mas que o corpo já não funciona tão bem: “Começo a gotejar cada vez mais. Cuecas brancas são muito boas para destacar manchas amarelas. Cuecas amarelas seriam mais práticas. Morro de vergonha das moças da lavanderia. Então, o que faço agora é esfregar à mão as piores manchas antes de mandar lavar”.

Em uma passagem da obra, Hendrik confessa que às vezes relê o diário e tem achado “um tanto melancólico até agora”. E ele próprio faz a ressalva: “Também há pessoas interessantes aqui, sabe?”. Uma delas é a recém-chegada Eefje Chama, com quem ele e Evert se juntam em uma história de grande amizade. “É assim que deve ser: continuar vivendo e fazendo as coisas que lhe dão prazer”, acredita Hendrik. Algo vai interromper essa amizade o que nos leva a refletir sobre a importância de valorizar o presente.

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