Zika causa glaucoma em bebê

Criança de três meses nasce em Salvador com doença visual que pode levar à cegueira. Caso inédito descoberto por cientistas brasileiros reforça a necessidade de intervenções imediatas contra o vírus

por Carmen Souza 03/12/2016 09:00
João Carlos Lacerda / Divulgação
Enfermidade é caracterizada pelo aumento da pressão intraocular, que provoca danos irreversíveis ao nervo óptico (foto: João Carlos Lacerda / Divulgação )
A infecção que, há mais de um ano, traz novos cuidados à rotina dos brasileiros também não para de alterar práticas médicas e científicas. Complicações atreladas ao vírus zika são detectadas regularmente, desafiando e impressionando especialistas pelos estragos provocados em filhos de mulheres infectadas principalmente no início da gestação. A nova ameaça está relacionada à habilidade visual. Segundo um estudo publicado ontem na revista Ophthalmology, da Academia Americana de Oftalmologia, o micro-organismo pode provocar o glaucoma congênito, doença responsável por, em média, 20% dos casos de cegueira infantil.

“Já se sabia dos impactos do  vírus zika na retina, mas é a primeira vez que detectamos um problema na parte da frente dos olhos. Percebemos outras alterações que podem levar à cegueira e divulgaremos nos próximos meses, mas decidimos alertar sobre o glaucoma até pela urgência da intervenção”, diz Rubens Belfort Jr., professor do Departamento de Oftalmologia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM/Unifesp) e integrante do estudo. A pesquisa também contou com a participação de estudiosos do Hospital Roberto Santos (Bahia), da Universidade de Yale (Estados Unidos) e dos laboratórios da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e do Instituto Evandro Chagas.

A equipe de pesquisadores estuda, desde dezembro, os efeitos da síndrome da zika congênita em crianças do Recife e da Bahia. O caso de glaucoma congênito foi detectado em um bebê de 3 meses nascido em Salvador, com sorologia positiva para o vírus zika e negativa para dengue. A criança tinha um aumento do globo ocular direito associado à fotofobia, uma forte sensibilidade à luz, um dos sintomas mais característicos do glaucoma. Também apresentava lacrimejamento persistente, outro sinal da doença.

Exames oftalmológicos cravaram o diagnóstico: havia um aumento do diâmetro da córnea do olho direito, que tinha uma pressão intraocular de 30 mmHg, mais que o dobro da aferida no olho esquerdo (14 mmHg), com características dentro dos padrões de normalidade. A córnea do olho com problema também tinha um aspecto azulado, complicação popularmente chamada de olhos de jabuticaba. Isso ocorre devido ao edema provocado pelo aumento da pressão intraocular, dando a impressão de que a córnea aumentou de tamanho, dificultando a observação da pupila e da íris.

Novas práticas
O bebê foi submetido à cirurgia para tratar o glaucoma congênito no olho direito, a trabeculectomia, e teve a pressão normalizada, além de melhora na fotofobia e no lacrimejamento e redução do edema na córnea.  “O estudo serve principalmente de alerta para as equipes médicas, que devem passar a considerar também o glaucoma congênito nos casos de grávidas infectadas pelo zika”,  reforça Belfort Jr. “Por ser uma doença de alto potencial de perda visual irreversível, é de extrema importância que todos os profissionais estejam atentos, com diagnóstico rápido e cirurgia, muitas vezes, imediata.”

O pesquisador também reforça a importância de se considerar essa complicação mesmo em casos em que os efeitos mais evidentes do zika não são evidentes. “Observamos crianças que têm o vírus zika, não apresentam as consequências neurológicas, mas correm o risco de ter o glaucoma”, justifica. O bebê relatado no estudo também tinha complicações cerebrais: microcefalia (crânio com o tamanho menor do que o normal), desenvolvimento incompleto do corpo caloso (parte do cérebro que liga os hemisférios esquerdo e direito) e lisencefalia (falta de sulcos e reentrâncias no órgão).

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Quantidade de casos confirmados de gestantes infectadas pelo vírus zika no país, entre 3 de janeiro e 17 de setembro, segundo o Ministério da Saúde


Ajuda nas pesquisas
Um trabalho desenvolvido na Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos, pode ajudar nas investigações científicas para o entendimento e o enfrentamento ao zika. A equipe comandada por Jianfu Che criou um modelo de rato que imita com muita similaridade as anormalidades cerebrais provocadas pelo vírus em seres humanos, facilitando, por exemplo, o entendimento de como as células nervosas são atacadas pelo micro-organismo e reagem a ele.  Detalhes do trabalho foram divulgados na última edição da revista Development.

O modelo foi criado pela injeção do vírus zika, isolado no México de um mosquito infectado, no cérebro de embriões de ratos.

Assim, a equipe conseguiu observar os efeitos do patógeno tanto na gestação quanto depois do nascimento dos roedores. Uma das constatações é de que a infecção pelo zika leva à formação de vasos sanguíneos anormais no cérebro, deixando a barreira que o protege meio permeável.

É justamente essa membrana, chamada barreira hematoencefálica, que evita que órgão seja invadido por vírus e outras ameaças. “Além da ruptura de células progenitoras neurais, que é uma causa clássica da microcefalia humana, observamos a morte maciça de células neuronais em nosso modelo de camundongo”, disse, em comunicado, Chen. “Isso, combinado com a interrupção do sistema vascular e da barreira hematoencefálica, resulta em microcefalia e extensa lesão cerebral.”




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