Causas, tratamento e sintomas do ressecamento vaginal ainda são motivos de dúvidas para as brasileiras

88% das mulheres entrevistadas têm algum grau de desconhecimento sobre o problema: 20% das brasileiras não sabem o que é e 68% conhecem pouco do assunto

por Valéria Mendes 02/12/2016 15:00
O desconhecimento da mulher em relação à própria anatomia e como essa falta de intimidade com o próprio corpo interfere na vivência plena da sexualidade e no cuidado com a saúde é um assunto que, impulsionado pelo debate sobre igualdade de gênero, vem sendo objeto de pesquisas e se popularizado com as redes sociais. O tema foi, inclusive, abordado na série norte-americana de sucesso ‘Orange Is The New Black’ (OITNB), exibida no Brasil pela Netflix. A cena do episódio quatro da temporada dois intitulado ‘A Whole other Hole’ (que foi traduzido no Brasil por ‘O buraco é mais em cima’) tem tudo para se tornar um clássico por retratar com leveza e de forma bem-humorada, o tabu que ainda é a educação sexual das mulheres.



A trama de OITNB se desenrola dentro de uma prisão feminina nos Estados Unidos. Para além da experiência da reclusão em si, a série aborda questões do universo feminino. Na cena de ‘O buraco é mais em cima’, uma das personagens (Poussey, interpretada pela atriz Samira Wiley) chega ao refeitório da prisão e mostra às companheiras de cadeia a sua invenção: um apetrecho que a permitiria fazer xixi em pé e que tinha duas peças, um funil e um tubo. Quando questionada sobre a necessidade do funil por Taystee (vivida por Danielle Lee Brooks), Poussey responde que é por que o xixi não sai da vagina. As detentas, então, se surpreendem com a informação – elas acreditavam que a menstruação e o xixi saíam pelo mesmo lugar - e vão todas para o banheiro procurar o tal do buraco de onde sai a urina. No desenrolar da discussão, percebe-se que nem a própria Poussey, que ‘revelou’ a informação, sabia onde estava a uretra.

A ficção se sustenta na realidade. Pesquisa feita pelo IBOPE para entender o quê a brasileira conhece sobre ressecamento vaginal, causas e sintomas revelou que 88% das mulheres entrevistadas têm algum grau de desconhecimento sobre o problema: 20% das brasileiras não sabem o que é e 68% conhecem pouco do assunto. Entre as que já vivenciaram o problema (29% das entrevistadas), 40% disseram não ter procurado o médico por acharem que é normal e, portanto, sem necessidade de tratamento; 86% afirmam que o ginecologista nunca tocou no assunto de maneira espontânea nas consultas de rotina e 64% buscou informações sobre ressecamento vaginal em sites de busca.

Doutora em Ginecologia e Obstetrícia pela Universidade de São Paulo (USP), especialista em Sexualidade Humana, presidente da Comissão de Sexologia da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetricia (FEBRASGO) e coordenadora do Ambulatório de Estudos em Sexualidade Humana da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP, Lucia Alves Silva Lara afirma que o sexo é ainda um tabu e que não existem, no país, políticas públicas com programas direcionados para a educação sexual no Brasil. “No contexto da mulher adulta, a ausência de programas de educação sexual priva a mulher do conhecimento sobre a sua função sexual adequada e a relega às experiências sexuais fantasiosas, baseadas em mitos e em informações leigas. É conhecido que as disfunções sexuais aumentam com o progredir da idade sendo a redução do desejo sexual um dos principais motivos de procura por consultas com o ginecologista”, reforça a médica.

A pesquisa do IBOPE mostra ainda como o ressecamento vaginal impacta a qualidade de vida: 76% das mulheres que já vivenciaram o problema tiveram a vida amorosa afetada, 27% a vida social, 24% o trabalho e 22% a prática de atividade física. Ainda entre as mulheres que já tiveram ressecamento, os sintomas mais citados foram região da vagina ressecada (69%), dor durante o sexo (69%) e ardência na região (44%).

A pesquisa ouviu 1.007 brasileiras acima de 16 anos, com acesso à Internet, das classes A, B e C e de todas as regiões do país. Mais da metade das entrevistadas (57%) acreditam que qualquer mulher pode ter ressecamento vaginal. Entre as brasileiras com mais de 55 anos, no entanto, 56% consideram que o problema atinge apenas as mulheres mais velhas.

Lucia Alves Silva Lara, explica, no entanto, que o ressecamento vaginal é frequente no pós-parto e pode acontecer também em razão do uso de medicamentos. “O ressecamento vaginal pode ocorrer em algumas situações clínicas que cursam com a redução do hormônio feminino chamado estrogênio, mas é muito mais comum no climatério e, em especial, na peri e pós-menopausa. Existem, porém, situações que podem levar mulheres jovens a apresentar ressecamento vaginal. Um exemplo são as puérperas que amamentam e apresentam quatro vezes mais risco de sentir dor nas relações sexuais devido ao ressecamento vaginal. A falência ovariana prematura (menopausa precoce), quimioterapia, radioterapia, redução do desejo sexual, dificuldade de excitação durante a relação sexual também são condições que levam ao ressecamento vaginal”, salienta.

O ressecamento vaginal ocorre quando a lubrificação da vagina é pouca ou ausente e pode provocar sensação de irritação ou queimação, coceira, diminuição da elasticidade da vagina e dor durante a relação sexual.

O tratamento clássico é a terapia hormonal à base de estrogênio, com a aplicação do medicamento na vagina. “Os lubrificantes melhoram o desconforto nas relações sexuais, mas nem sempre são suficientes para melhorar a dor na relação sexual em razão do ressecamento. Outra opção disponível no mercado brasileiro é o ácido poliacrílico para uso intravaginal. Esse composto deve ser colocado dentro da vagina a cada três dias formando um filme protetor sobre a mucosa vaginal para prevenir a dor na relação sexual”, diz. Nenhum medicamento pode ser usado sem o diagnóstico e a prescrição de um especialista.

Se não tratado, o ressecamento vaginal pode ocasionar traumas na vagina durante o ato sexual e aumentar o risco de infecções vaginais, urinárias e os sintomas de prurido (coceira) e queimação, muito desagradáveis para a mulher e que comprometem a qualidade de vida interferindo na rotina, no sono e no desempenho das atividades diárias.

Sexo e qualidade de vida
A Organização Mundial de Saúde (OMS) coloca a sexualidade como um dos pilares da qualidade de vida de todo indivíduo e a função sexual é um componente da expressão da sexualidade de toda pessoa. “Freud postulou que o ser que não desenvolve plenamente a sua sexualidade não é um ser completo e estará exposto a alterações emocionais e maior risco de desenvolver doenças mentais. Hoje, as evidências científicas indicam que a vivência sexual saudável é primordial para o bem-estar do indivíduo e fundamental para a longevidade das relações afetivas”, reforça Lucia Alves Silva Lara.

Sendo assim, segundo a especialista, é essencial que a pessoa vivencie o aspecto prazeroso do sexo, para além de sua finalidade reprodutiva. “A mulher tem dificuldade em se tocar e explorar a própria genitália. Algumas técnicas que envolve o tratamento de mulheres que não conseguem ter orgasmos durante a relação sexual é justamente a exploração da genitália e a masturbação. A mulher que não tem intimidade com o próprio corpo e com sua genitália pode ser privada do prazer sexual”, afirma.

Uma das formas de mudar esse cenário é pela educação sexual. A médica reforça que, ao contrário do que se pensa, a educação sexual nas escolas, comprovadamente, fortifica a menina para que ela postergue a primeira relação sexual e tenha uma vivência sexual saudável. “Há fortes evidências na literatura científica de que a educação sexual nas escolas, quanto mais cedo for instituída, aumenta a eficácia em termos de prevenção da iniciação sexual precoce e de comportamento sexual de risco”, atesta.

De acordo com Lucia Alves Silva Lara, as meninas que iniciam as relações sexuais com menos de 16 anos estão mais sujeitas a arrependimentos, a distorção da autoimagem, baixa autoestima, maior ingestão de álcool, depressão e gravidez não planejada. “Assistimos com espanto as notícias de que os temas sexualidade e gênero podem não mais serem discutidos nas escolas. Enquanto isso, adolescentes iniciam suas relações sexuais cada vez mais cedo e de forma arriscada, com implicações importantes para a saúde geral, privados que estão de uma adequada educação sexual que poderia norteá-los para uma vivência sexual saudável”, observa.

PÓS-PARTO
Estima-se que 70% das mulheres que estão amamentando possam sentir a vagina ressecada. Especialista em saúde da mulher, a fisioterapeuta Sabrina Baracho explica que o ressecamento vaginal no pós-parto tem relação com a produção da prolactina, um dos hormônios responsáveis pela produção do leite materno, que também atua na diminuição do estrogênio. No caso das puérperas, o tratamento medicamentoso com estrogênio é controverso e a abordagem vai variar de médico para médico. Na grande maioria dos casos, a indicação será o uso de lubrificante.

No pós-parto, a mulher pode sentir ainda a diminuição do desejo sexual em razão de estar voltada para o cuidado com o bebê. Assim, a retomada da vida sexual tende a ser um desafio para os casais. Fatores pessoais – para além da baixa de estrogênio – podem atrapalhar essa retomada e, nesses casos, a fisioterapia pode ajudar.

Sabrina Baracho explica que o medo da dor é comum em mulheres que viveram a experiência do parto normal e também pelas que passaram pela cesariana. “É um ciclo, o ressacamento causado pela redução do estrogênio provoca dor na relação sexual, a dor trava a musculatura, a tensão muscular provoca mais dor, que diminui o desejo e, consequentemente, a lubrificação”, observa.

Por isso, é um consenso internacional que toda mulher passe por um fisioterapeuta após o parto para a avaliação da musculatura do assoalho pélvico. “A fisioterapia atua na reabilitação da musculatura do assoalho pélvico para que a mulher aprenda a relaxar e controlar os músculos do períneo”, explica Sabrina Baracho. Segundo ela, assim como existem massagens que atuam em pontos dolorosos do corpo, é possível aliviar a dor do períneo também com massagens manuais.

A pesquisa ‘Vagidrat & Saúde da Mulher - As Brasileiras e o Ressecamento Vaginal’ foi  encomendada pela Teva Farmacêutica.


Lina Rocha, jornalista, 42 anos

Em abril de 2015 a jornalista Lina Rocha recebeu o diagnóstico de câncer de mama. Sua filha mais nova, Laura, estava com quatro anos à época. Ela também é mãe de Lucas, 14. Em junho daquele ano, foi submetida à cirurgia para retirada do tumor no seio esquerdo. “Não foi mastectomia, passei pela cirurgia conservadora em que apenas o tumor é retirado”, conta. Em seguida, começaram as sessões de quimioterapia que afetou não apenas o desejo sexual, mas que provocou o ressecamento vaginal. “A doença em si já havia afetado a minha vida sexual, o número de relações sexuais diminuiu e minha libido caiu. Quando começou a quimioterapia e veio o ressacamento, piorou. Esse encontro com meu marido que poderia ser um momento relaxante e prazeroso, não era. O ressecamento dificulta a penetração, machuca. Não conseguia chegar ao orgasmo”, relata. O marido, Júnior Guimarães, se mostrou companheiro e Lina se emociona ao lembrar das palavras dele: “Vou te dar o tempo que for preciso, o mais importante é o tratamento e a sua cura”.

Em dezembro, a jornalista já tinha finalizado a quimioterapia e a radioterapia e começou a tomar bloqueador de hormônios (tamoxifeno), algo que vai perdurar de cinco a dez anos, a depender da reação do organismo. “Essa medicação não provoca em mim o ressecamento vaginal, mas já fui avisada que esse é um dos efeitos comuns da menopausa. Desde que recebi o diagnóstico de câncer de mama, aprendi a viver um dia de cada vez. Não gasto energia me preocupando com o que pode acontecer no futuro. A menopausa virá e quando ela aparecer, vou falar e pensar sobre ressecamento vaginal”, diz.

Lina Rocha explica que esse tipo de disfunção sexual não afeta apenas o sexo, mas que interfere na qualidade de vida porque a vagina fica muito sensível. “Usar um absorvente íntimo incomoda, usar o papel higiênico machuca. A gente sente o ressecamento o tempo inteiro. Considerando apenas os aspectos físicos, não posso dizer que essa foi a parte mais difícil porque o maior desafio é a alimentação. Precisar se alimentar bem em um momento que falta apetite é penoso”, relata. 

Para a jornalista, apesar de o sexo ser importante na vida de qualquer pessoa e também para fortalecer o vínculo dos relacionamentos, ela sente que ela e o marido ficaram muito unidos e focados no tratamento e na cura da doença.



A presidente da Comissão de Sexologia da Febrasgo, Lucia Alves Silva Lara explica que a lubrificação é um transudato (líquido viscoso) que surge na parede vaginal para lubrificar a vagina quando a mulher está excitada. Durante a excitação, aumenta o aporte de sangue para os vasos sanguíneos da parede vaginal aumentando a pressão sanguínea intracapilar. Com isso, ocorre o escoamento do transudato para o canal vaginal. A quantidade de lubrificação depende da anatomia da mulher em relação à quantidade de vasos e à resistência do meio extracelular que permite a passagem das gotículas desse transudato. “Mesmo que algumas mulheres tenham mais lubrificação, não será em quantidade excessiva a ponto de sair em ‘jatos’ pela vagina”, diz.

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