Com o objetivo de prevenir abuso sexual infantil, livro para crianças será lançado em BH nesta quinta

Intitulado 'A mão boa e a mão boba', a obra das estreantes na literatura infanto-juvenil Renata Emrich e Erica Ianni quer incentivar pais e mães a conversarem com seus filhos e filhas sobre esse tema que ainda é um tabu para grande parte das famílias

por Valéria Mendes 01/12/2016 13:30

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Temas incômodos não devem ser interditados às crianças. É preciso conversar sobre morte, doença, tristeza e violência. Meninos e meninas também têm direito a dialogar sobre sexo, sexualidade e gênero. A escuta deve ser atenta e livre de preconceitos com a linguagem adequada à compreensão de cada faixa etária e o espaço deve estar sempre aberto para o diálogo e o acolhimento. Enxergar a curiosidade da criança com naturalidade é um caminho para fortalecer a relação de confiança entre pais, mães, filhos e filhas. Prevenir os abusos sexuais na infância é tarefa de todos e informação é um importante passo. Portanto, por mais que seja incômodo e difícil, é preciso falar sobre pedofilia.

Para os adultos, é necessário saber que 70% das vítimas de estupro no Brasil são crianças e adolescentes, de acordo com levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Além disso, os números mostram que 24,1% dos agressores de crianças são os próprios pais ou padrastos e 32,2% são amigos ou conhecidos da vítima. Já as crianças, precisam saber a diferença entre carinho e abuso sexual e ter a certeza de que podem falar que serão ouvidas.

A literatura tem sido uma grande aliada para abordar temas 'proibidos' com crianças. Com esse enfoque, a publicitária e atriz Renata Emrich, 33 anos, e a designer gráfico Erica Ianni, 34 anos, lançam em Belo Horizonte nesta quinta-feira, 1º de dezembro, o livro infanto-juvenil ‘A mão boa e a mão boba’, ambas estreantes na literatura infanto-juvenil. O evento, que é aberto ao público, acontece a partir das 18h30 na Asa de Papel Café & Arte (Rua Piauí, 631, Santa Efigênia).

O livro narra situações em que uma criança vive experiências de uma ‘mão boba’ que quer tocar seu corpo em troca de presentes. Na primeira vez, ela consegue fugir, mas a ‘mão boa’ que aparece para saber o motivo que a deixou triste não dá muita atenção ao choro, atitude que faz com que a personagem infantil seja vítima de nova investida.

A narrativa é construída em poesia e, propositadamente, a criança da história não tem gênero definido. O objetivo é destacar que meninos também são vítimas de estupros. As ilustrações servem de suporte gráfico para demarcar e envolver o leitor e a leitora nas situações em que a criança está na companhia da ‘mão boa’ ou os momentos em que está sob ameaça da ‘mão boba’.

Em alguns momentos, para o adulto, é difícil seguir a leitura pela previsão do que vai acontecer. Apesar de o livro ter classificação etária livre, é bom que as famílias leiam antes de compartilhar a história com as crianças para ter certeza de que o conteúdo está adequado para seu filho ou sua filha e também para se prepararem para as perguntas que possam surgir. Algumas mensagens estão implícitas e as crianças podem ter dúvida sobre o desenrolar de alguma situação.

Psicanalista, psicopedagoga, neurocientista e especialista em educação, Cristina Silveira diz que o livro é mais indicado para crianças acima de 5 anos em razão do uso da metáfora ‘mão boba’. “Algumas crianças podem ficar confusas e não interpretar exatamente o que significa tal expressão. Crianças acima de 5 anos poderão entender, mas é prudente que a leitura seja acompanhada por adultos para sanar toda e qualquer confusão a respeito”, diz.   
 
O livro
A autora, Renata Emrich, diz que a ideia do projeto surgiu depois que foi convidada a participar, na capital mineira, de um evento de combate à pedofilia organizado por mães do ‘Padecendo no Paraíso’, projeto idealizado pela arquiteta Bebel Soares. Como atriz, ela encenou para crianças e suas famílias uma situação em que uma garota era vítima de uma tentativa de abuso sexual. A cena foi representada na primeira e segunda edição do ‘Nós – Prevenção e Combate ao abuso sexual infantil’, nome do seminário. “O livro surgiu dessa cena, a pedido de mães e pais que me procuraram depois dessas apresentações afirmando que a obra ajudaria as famílias a abordarem o assunto dentro de casa”, conta.

Renata tem dois enteados e diz que se envolveu com a causa depois que a filha de uma grande amiga foi vítima de abuso sexual. “Depois de todo o sofrimento, ela dizia que o combate ao abuso sexual infantil seria a causa da vida dela, para que nenhuma outra criança passasse por esse trauma. Foi ela que me convidou para fazer a cena sobre o tema”, relata.

A autora conta que as reações das crianças foram as mais diversas: as que identificaram a ‘mão boa’ com a figura da mãe, as que relataram ter vivido situação semelhante após assistir à cena e algumas que não entenderam muito bem a mensagem. “Acredito que o livro é um instrumento interessante para as famílias que acham difícil abordar o assunto com seus filhos e filhas”, afirma. Mesmo antes do lançamento, Renata Emrich diz que já tem tido retorno positivo das famílias.

Depoimento
Catarina*, 34 anos, é a amiga de Renata. Mãe de uma garotinha de 8 anos que foi vítima de abuso sexual do próprio pai – já condenado a 45 anos de prisão em todas as instâncias, mas ainda livre -, ela ressalta que é impossível preparar as crianças para a maldade do mundo sem conversa e informação. Essa jornada de envolvimento à prevenção de abuso infantil começou em 2012, ano em que ela descobriu que a filha tinha sido violentada sexualmente desde bebê até os 4 anos. “Me envolver com o tema foi a minha cura. Colocar esse assunto em pauta, a minha terapia”, relata.

Ela, que já organizou e participou de quatro eventos de prevenção ao abuso sexual infantil, está muito feliz que mais um livro chegue ao mercado para tratar desse tema. “As pessoas não conversam sobre pedofilia, mas acontece muito. Depois do que aconteceu com minha filha, várias amigas vieram me contar suas histórias. A prevenção ao abuso sexual infantil é uma corrente de dor e solidariedade”, diz.

Catarina, que é professora, aborda o tema em sala de aula com seus alunos e alunas e afirma que existem ótimos materiais disponíveis. Ela cita, como exemplo, o livro O segredo de Tartanina, escrito por três psicólogas, Alessandra Rocha Santos Silva, Sheila Maria Prado Soma e Cristina Fukumori Watarai (saiba mais aqui)  como um título a ser trabalhado na escola. “Essa semente (da prevenção) tem que ser plantada em todos os lugares”, defende.

Para ela, é imprescindível que toda criança tenha consciência de que o corpo é dela e que não está acessível a nenhum adulto. “Se a gente dá informação, estamos dando oportunidade para a criança pedir ajuda em situação de abuso e opressão”, diz.

Paulo Filgueiras/EM/D.A Press
"A intenção é que a criança tome cuidado e esteja atenta e não que ela deixe de ter contato com as pessoas e se torne isolada e insegura nas relações sociais com os adultos" - Cristina Silveira, psicanalista, psicopedagoga e neurocientista (foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press)
Como falar sobre abuso sexual
A psicopedagoga Cristina Silveira reforça que as crianças devem, desde cedo, serem orientadas acerca dos perigos que as cercam. Dentre eles, a pedofilia. “Os pais e as mães são os adultos nos quais as crianças confiam e devem ser eles - ou os responsáveis próximos, bem como os professores -, a orientá-las. A grande questão é como fazer essa prevenção sem invadir a criança, exagerando nas orientações ou deixando de dizer o que é necessário para protegê-las dos abusadores”, pondera.

No caso de crianças pequenas, entre 3 e 4 anos, a especialista diz que o mais acertado é a linguagem simples, sem metáforas, acompanhada de demonstração dos atos e dos locais onde os seus corpos nunca devem ser tocados. “Crianças pequenas são mais concretas e entenderão bem uma linguagem direta, sem rodeios, mas cuidadosa. Se a opção for contar uma história sobre a pedofilia, o mais indicado é que deve ter um enredo curto, com imagens mais ricas e detalhadas, sem metáforas”, afirma.

Já com crianças acima de 5 anos, quando o assunto for tratado pessoalmente pela família, a linguagem também deve ser direta e respeitosa. “Deve-se observar o limite da criança para saber se ela está interpretando adequadamente a mensagem que se quer transmitir. A intenção é que a criança tome cuidado e esteja atenta e não que ela deixe de ter contato com as pessoas e se torne isolada e insegura nas relações sociais com os adultos”, pondera.

Se a opção for usar um livro ou uma metáfora para abordar o assunto, deve-se ter o cuidado com histórias complicadas, repetitivas, com palavras de duplo sentido que podem confundir a criança. “Preferencialmente a história deve ser lida junto com um adulto, que poderá ir explicando e tirando as dúvidas que surjam”, sugere.   

Desenhos
A ilustradora Erica Ianni diz que tentou, através do desenho, trazer leveza para o assunto e traduzir em imagens o sentimento da criança que vive as duas situações: da ‘mão boa’ e da ‘mão boba’. Ela, que é mãe de um menino, Davi, de 3 anos, revela que, no início do trabalho, ficou bem incomodada com o tema. “Mas é um assunto que precisa ser conversado e que não devemos ficar deixando para amanhã. Eu mesma já tinha pensado em como abordaria o tema com meu filho”, confessa.


SEM TABU Iniciativas com o objetivo de prevenir e enfrentar a violência sexual contra meninos e meninas têm ganhando vida de várias formas. No ano passado, a Rede Marista de Solidariedade lançou uma série de vídeos dentro da campanha 'Defenda-se'. Para quem ainda não viu, vale a pena assistir com as crianças. Clique aqui e sabia mais sobre a campanha.





Lançamento do livro ‘A mão boa e mão boba’
Preço: R$ 30,00
Quinta-feira, 1º de dezembro, 18h30
Evento aberto ao público
Asa de Papel Café & Arte (Rua Piauí, 631, Santa Efigênia)

*O nome foi trocado a pedido da entrevistada para que a identidade da filha seja protegida, como é direito de toda criança e adolescente vítima de abuso sexual.

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