Boas recordações ajudam a enfrentar doenças causadas pela solidão

Estudo canadense mostra que, ao se lembrarem de pessoas queridas, os solitários reduzem o risco de serem acometidos pelo antropomorfismo, o hábito de atribuir características humanas a objetos e animais

por Vilhena Soares 23/11/2016 13:25

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Na psicologia, sensibilização imaginária é quando você pensa em algo específico para mudar a forma de encarar algum problema
Recordar é viver, diz o ditado que tenta justificar a nostalgia. Segundo um estudo canadense, esse costume humano também pode ajudar a evitar uma das consequências mais delicadas da solidão: o antropomorfismo — a postura de atribuir características físicas a animais e objetos inanimados como forma de amenizar o sofrimento. Os cientistas chegaram à conclusão após experimento com 178 voluntários e acreditam que o trabalho, divulgado nesta semana, na revista Psychological Science, ajude no desenvolvimento de novas intervenções médicas.

A recorrência do sentimento de solidão foi uma das principais motivações para o trabalho científico, segundo Jennifer Bartz, autora principal do estudo e pesquisadora da Universidade McGill. “A maioria de nós, em algum momento ou outro, experimentará desconexão, solidão e isolamento. Esses sentimentos podem ser duradouros ou devido a circunstâncias temporárias, como ser transferido para um emprego ou uma escola. Mas a desconexão social é uma experiência pela qual estamos todos vulneráveis”, detalhou, em comunicado à imprensa.

Os pesquisadores utilizaram como base um estudo feito em 2008 mostrando que pessoas solitárias tentam diminuir a angústia ao antropomorfizar objetos inanimados ou animais. Com base nessa investigação, buscaram observar se sentimentos de conexão social poderiam tornar os indivíduos menos propensos a esse comportamento. Para isso, conduziram um experimento on-line com 178 voluntários  que responderam a um questionário com questões sobre ansiedade, apego, solidão, autoestima e necessidade de pertencimento.

Na segunda etapa, parte dos voluntários teve que pensar em alguém que era importante, uma pessoa considerada confiável, e imaginar como seria estar com esse indivíduo. O grupo também teve que escrever frases sobre esses pensamentos. Segundo os pesquisadores, a tarefa é um exercício de indução de sentimentos de conexão social. A outra parcela dos voluntários realizou o mesmo exercício, mas apenas com uma diferença: tinha que pensar em um conhecido.

Após as tarefas, os pesquisadores apresentaram a todos os voluntários descrições de quatro objetos e pediram aos participantes que avaliassem os itens em dimensões sociais e não sociais. Aqueles que pensaram e escreveram sobre alguém de quem eram próximos foram menos propensos a antropomorfizar os objetos do que os que pensaram apenas em um conhecido. Os investigadores acreditam que esse resultado reforça o valor dos relacionamentos interpessoais em relação à solidão. “Nós pensamos que esse trabalho realça realmente como o sentimento de conexão social é importante. Ele nos lembra do valor dos relacionamentos próximos quando alguém se sente desconectado socialmente”, explicou Bartz.

Intervenção
A equipe acredita que os resultados podem ajudar a tratar pessoas que sofrem dessa consequência exacerbada da solidão. “Embora o antropomorfismo seja uma das maneiras mais criativas de as pessoas tentarem satisfazer suas necessidades, é difícil ter um relacionamento com um objeto inanimado. A dependência de uma estratégia compensatória poderia permitir que pessoas desconectadas atrasassem passos mais arriscados, mas potencialmente mais gratificantes, de ter novos relacionamentos com pessoas reais (…) Esses resultados destacam uma estratégia simples que poderia ajudar as pessoas solitárias na estrada para a reconexão social”, defendem os autores no artigo.

Gilberto Godoy, psicólogo da Clínica Brasília e vice-presidente do Conselho Regional de Psicologia do Distrito Federal, reforça que o antropomorfismo é um sintoma de problema psicológico que precisa de atenção. “Uma moça me procurou tempos atrás e me disse que enfrentava problemas com uma rolha. Ela havia perdido o marido e esse objeto estava presente no primeiro encontro deles. Quando a rolha sumiu, ela se sentiu desesperada. Esse é um exemplo de como as pessoas podem se apegar a um objeto com medo de enfrentar uma despedida, por exemplo. Era um mecanismo de fuga. Sempre digo que duas das piores coisas para o ser humano é arriscar e dar adeus”, detalha.

O psicólogo também acredita que os resultados do estudo poderão ser usados como um ponto a favor nos tratamentos médicos. “As relações mais saudáveis que temos são as de afeto. Claro que existem as turbulentas, mas as que nos geram um conforto emocional, quando temos proteção afetiva, podem nos fazer muito bem ao serem relembradas. Já existem técnica na psicologia usadas de forma semelhante, o que chamamos de sensibilização imaginária, quando você pensa em algo específico para mudar a forma de encarar algum problema”, explica.

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