Especialistas dizem quanto tempo as crianças podem ficar no computador

Academia Americana de Pediatras lança recomendações para garantir o bem-estar físico e psicológico de jovens que acessam a internet; dos 2 aos 5 anos, por exemplo, o uso de dispositivos eletrônicos deve se limitar a uma hora por dia

por Correio Braziliense 27/10/2016 16:10

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Jorge Silva / Reuters
Não é recomendável que crianças de menos de dois anos tenham acesso a dispositivos móveis (foto: Jorge Silva / Reuters)
Em boa parte do mundo, crianças e adolescentes passam cada vez mais tempo conectados. Segundo estudo do Comitê Gestor da Internet no Brasil, por exemplo, 80% da população do país entre 9 e 17 anos utilizam a rede, sendo que 66% deles navegam por ela diariamente (Leia Para saber mais). O uso exagerado das mídias, porém, pode trazer uma série de problemas para o desenvolvimento dos jovens, como obesidade e insônia. Preocupada com esses impactos, a Academia Americana de Pediatras (AAP) publicou, na última sexta-feira (21/10), um documento contendo uma série de recomendações para ajudar pais e cuidadores a garantirem o uso seguro da internet e da televisão. Divididas por faixa etária (Veja quadro),  as sugestões são resultado de uma compilação dos maiores estudos já feitos sobre o impacto das mídias digitais na saúde infantil.

Apesar de comum, não é recomendável que crianças com menos de 2 anos tenham acesso à televisão e aos dispositivos móveis. Segundo o documento publicado, crianças dessa idade não aprendem muito a partir de programas e aplicativos porque não têm a capacidade de transferir as informações que veem na tela para o mundo real. A única atividade digital recomendada para essa faixa etária é a videochamada, ferramenta que pode ser utilizada para que meninos e meninas consigam se comunicar com parentes distantes, fortalecendo os laços pessoais.

A partir dos 2 anos, as crianças podem se beneficiar muito das mídias. Publicados em 2001 e 2013 nas revistas Monographs of the Society for Research in Child Delevopment e Pediatrics, dois estudos mostram que as que estão em idade escolar demonstram claras melhoras cognitivas, linguísticas e sociais ao assistirem a programas de alta qualidade, como Rua Sésamo. Para fazer boas escolhas, a pediatra Jenny Radesky, do Hospital Infantil C.S Mott, nos Estados Unidos, e participante do estudo, recomenda que os pais peçam a opinião de especialistas ou consultem sites que classifiquem programas e séries infantis de acordo com a qualidade. A equipe do trabalho também criou um dispositivo capaz de ajudar os adultos nessa empreitada (Leia Três perguntas para).

Também é necessário limitar o tempo passado na frente das telas, principalmente da televisão, alertaram os especialistas. Segundo eles, um estudo internacional publicado na revista PLoS One em 2013 indicou que assistir à tevê de uma a três horas por dia pode aumentar o risco de obesidade em crianças e adolescentes entre 10% e 27%. A recomendação atual da AAP é que o tempo seja limitado a uma hora diária para meninos e meninas entre 2 e 5 anos. A academia diz também que pais e cuidadores devem cuidar para que os pequenos sigam a quantidade recomendada de atividade física diária, também de uma hora; e de sono, entre oito e 12 horas, conforme a idade.

“Mais do que apenas limites, os pais devem entender os programas usados pelos seus filhos”, disse Etiene Macedo, doutoranda em psicologia clínica na Universidade de Brasília (UnB) e psicóloga infantojuvenil no Plin Psicologia. Segundo ela, a proibição do uso das mídias não é o melhor caminho, mas deve haver limites. A importância deve estar em saber ativamente o que as crianças buscam com os seus dispositivos. “É preciso gastar tempo com eles, mas de forma a realmente participar do universo infantil”, afirma.

A psicóloga alerta que as tecnologias não são perigosas apenas para as crianças: podem afetar também as relações entre pais e filhos. “De um lado, o adulto fica tão conectado à tecnologia, preso até, quanto as crianças. Do outro, a criança acaba imitando o seu comportamento”, explica Etiene Macedo. “É preciso clareza também por parte do cuidador sobre o que ele faz.” Entre as recomendações da AAP, está, inclusive, a importância de os pais compartilharem com outros adultos que têm contato regular com os pequenos, como babás e avós, as regras de uso dos dispositivos eletrônicos.

Valdo Virgo / CB / D.A Press
Clique na imagem para ampliá-la e saiba mais (foto: Valdo Virgo / CB / D.A Press)

“Mentores digitais”
As redes sociais devem ser um dos principais alvos de atenção, segundo especialistas. Isso pela preferência dada pelos adolescentes a elas. Conforme dados do levantamento feito pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, 78% dos jovens de ambos os sexos dizem utilizá-las no país. Essas comunidades on-lines permitem uma grande conectividade, fortalecendo laços interpessoais e aumentando a exposição dos jovens a novas ideias. Além disso, podem ser utilizadas para dar suporte emocional aos adolescentes e aumentar as práticas de inclusão, como a da comunidade LGBT e a negra.

Porém, existem menos filtros na internet do que nas mídias tradicionais para proteger os adolescentes de conteúdos impróprios. Segundo a AAP, estudos demonstraram que, quanto mais exposição os jovens tiverem ao consumo de álcool, cigarro e drogas ilícitas, mais cedo começam a usar essas substâncias. Existem também comunidades que pregam atitudes perigosas, como a prática de bulimia, preconceito e extremismo político e religioso. A fim de garantir o uso saudável das mídias sociais, os pais devem conversar constantemente com os filhos sobre cidadania na internet e segurança e saber do conteúdo que eles acessam. Segundo Radesky, os adultos devem “agir como mentores digitais dos filhos”.

Gisele Jendiroba, 51 anos, afirma que o uso excessivo da internet causou problemas para a sua filha Beatriz, 11 anos. “Já aconteceu de as notas dela na escola caírem porque ela passa muito tempo no YouTube”, disse. A mãe afirma ser importante controlar o uso da internet e da televisão e diz utilizar senhas nos dispositivos para evitar conteúdos impróprios. “Não dá pra ver tudo, mas a gente tem que ficar de olho. De vez em quando, pego o celular dela para sabe o que está vendo, mas não faço isso com tanta frequência. Acho até que deveria olhar mais vezes”, afirma.


Jenny Radesky, especialista em comportamento e desenvolvimento de crianças da Universidade de Michigan e um dos autores do estudo

Como reconhecer bons conteúdos para crianças nas mídias?
Recomendamos que os pais assistam aos programas e joguem com seus filhos. Dessa forma, eles podem saber o que as crianças veem, como elas estão reagindo ao conteúdo e se estão realmente aprendendo coisas novas ou apenas mexendo com os aparelhos. Adultos devem confiar na intuição e não se sentirem mal por desinstalar um aplicativo ou jogo ou evitarem programas de televisão que eles não achem adequados para os filhos.

Os pais devem regular o uso de mídias por adolescentes também?
Nossas recomendações para adolescentes e pré-adolescentes priorizam os comportamentos fundamentais para a saúde deles, como aqueles que respeitam o sono, a prática de exercícios, prática de desenvolvimento cognitivo e socialização. O tempo de uso das mídias deve ser personalizado para cada criança, baseado no cumprimento das atividades saudáveis diárias. Isso pode ser alcançado se a pessoa evitar o uso de dispositivos digitais em certos locais, como quartos, e horários, como nas refeições.

 

Como funciona a ferramenta criada por vocês?
O site (http://healthychildren.org/MediaUsePlan) disponibiliza um guia para que os pais possam criar regras para o uso das mídias em casa, conforme seus valores e suas necessidades, tendo em vista que não existe uma solução que possa ser aplicada a todos da família. Ele permite que os pais registrem o nome e a idade de seus filhos e criem um plano de uso de mídia familiar para cada membro da família. Isso inclui ideias como criar “zonas desconectadas” na casa e “toques de recolher” para os dispositivos. Ele está disponível em inglês, mas esperamos traduzi-lo para outras línguas


No Brasil, a pesquisa intitulada TIC Kids, divulgada neste mês, mostra que 80% dos jovens com idade entre 9 e 17 anos usam a internet, totalizando 23,7 milhões de crianças e adolescentes. Entre esses, o percentual dos que se conectam mais de uma vez por dia subiu de 21% em 2014 para 66% em 2015. O estudo foi feito a partir de entrevista presencial com 6,1 mil crianças e adolescentes e com 3 mil pais ou responsáveis, em 350 municípios, entre novembro de 2015 e junho de 2016.

A situação não é diferente no resto do mundo. Um estudo publicado em 2015 pelo Ofcom, órgão que regula os meios de comunicação no Reino Unido, mostrou que o tempo gasto on-line por jovens entre 8 e 15 anos mais do que dobrou desde 2005. Os mais velhos, a partir dos 12 anos, passam em média 19 horas por semana conectados. Além disso, o acesso ao mundo digital começa cada vez mais cedo, e o primeiro contato acontece atualmente por volta dos 4 meses de idade. Nos Estados Unidos, 75% das crianças de até 8 anos têm acesso a dispositivos móveis, segundo dados publicados pelo site Common Sense Media em 2013.

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