Odontopediatras falam como driblar o medo das crianças de ir ao dentista

Sucesso do manejo do paciente pediátrico não pode ser medido só pela conclusão de um procedimento, mas pela frequência de comportamentos colaborativos que a criança apresenta

por Renata Rusky 19/10/2016 13:00

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Breno Fortes/CB/D.A Press
João Pedro, 6 anos, e Rafael, 9, precisaram se habituar ao consultório (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)
O medo de dentista é clássico entre as crianças e acomete até alguns adultos. Se alguém visse, hoje, João Pedro Aires, 6 anos, na cadeira de dentista, comportado, assistindo ao desenho do cachorro Scooby Doo, enquanto sua boca era examinada, não imaginaria o chilique que ele deu na visita de estreia a um consultório. A primeira experiência foi há dois anos e lhe pareceu realmente assustadora. A mãe do garoto, Marina Aires, lamentou não ter levado ele e o outro filho, Rafael, 9, para se consultarem antes. É que ela, erroneamente, não via necessidade. “Como sempre cuidamos bem, nunca tinha marcado uma consulta, mas minhas amigas começaram a falar sobre levar os filhos e me senti mal”, conta Marina.

De fato, a saúde bucal dos dois irmãos estava quase impecável, a não ser por uma cárie recém-aparecida em João. O menino, inclusive, fantasia e diz à reportagem que eram sete: “Não doeu para tirar. Ela puxou com um ganchinho”, relata. Ao chegar ao consultório, naquela primeira vez, porém, ele se recusou a entrar. Fez birra e se jogou no chão. A mãe respondeu de forma dura e avisou que ele entraria de qualquer forma. Foi aí que a dentista interrompeu e repreendeu Marina. Ela assumiria a tarefa de convencer o pequeno paciente que o local era seguro e sem riscos.

O trabalho que seria feito naquela consulta foi adiado para uma segunda sessão, quando João já estivesse habituado ao ambiente e à profissional. Para Rafael, a situação foi mais fácil: “Deu um medinho, mas fui vendo que a tia era confiável. Fui me sentindo em casa e fiquei relaxado”, conta. Afinal, como irmão mais velho, queria ser exemplo para o caçula.

A odontopediatra Ilana Marques, com quase 18 anos de profissão, está acostumada à rejeição dos pequenos ao dentista. É tão comum entre os pacientes de pouca idade que criou alguns macetes para deixá-los mais calmos. Uma das estratégias encontradas foi a elaboração de um livro, em 2006, no qual explica aos pequenos o que é feito na boca deles. É uma oportunidade de mostrar outras crianças vivendo a mesma situação, na mesma cadeira de dentista. Ela ainda aproveita para ensinar o que é uma cárie. “Na fase entre os 5 e os 11 anos, acontecem muitas coisas na vida das crianças: a troca e o amadurecimento dos dentes”, explica. “O material permite que pais e filhos vejam coisas importantes e aceitem melhor certos tratamentos”, acrescenta.

Agora, sempre que uma criança chega ao consultório assustada, ou com o mínimo de receio, uma das primeiras coisas que ela faz é mostrar o livro. Antes, tinha outra didática: usava fotos do próprio filho, hoje com 11 anos. “As crianças menores ficavam no colo dos pais, então, mostrava foto do meu filho pequeno de boca aberta e elas abriam também”, relembra. “Eles chegam achando que dentista é um bicho de sete cabeças, mas quando veem outra criança fazendo algo, ficam curiosos e copiam”, completa.

Segundo levantamento informal, realizado no primeiro semestre de 2002 pelo psicólogo Áderson Luiz Costa Junior — com 250 pessoas residentes em Brasília —, de todas as classes sociais, uma em cada três pessoas afirmou ter medo de ir ao dentista. Além disso,  um em cada quatro entrevistados afirmou que costuma ir ao dentista a cada seis meses; e duas em cada cinco contam que somente procuram o especialista quando têm dor de dente ou sintomas suficientemente desagradáveis. “Não ir ao dentista por medo ou receio de dor, além de prejudicial à saúde, estabelece uma situação de reforçamento positivo da própria crença”, explica o psicólogo.

Áderson acrescenta que os odontopediatras devem entender que o sucesso do manejo do paciente pediátrico não pode ser medido só pela conclusão de um procedimento, mas pela frequência de comportamentos colaborativos que a criança apresenta. Além disso, explica que o trabalho do profissional vai além dos procedimentos técnicos: “Inclui também treinamento adequado para lidar com problemas comportamentais do paciente, considerando as características de cada um, a fase de desenvolvimento em que se encontra e as circunstâncias específicas de cada situação.”

O estresse diante de uma consulta ao dentista pode ser fruto de experiências anteriores ruins, ou do registro de relatos negativos ouvidos de outras pessoas. A representação caricata dos profissionais de odontologia em programas de tevê também podem ser um componente amedrontador: “Os pais, portanto, devem escolher muito bem os profissionais que vão atender as crianças e reparar na forma como lidam com elas. A estratégia de distraí-las é sempre boa”, recomenda Áderson.

"Na fase entre os 5 e os 11 anos da criança, acontecem muitas coisas na vida delas: a troca e o amadurecimento dos dentes”
Ilana Marques, odontopediatra

Dentista, meu amigo
  • Crie na criança o hábito de ir ao dentista desde cedo. O ideal é ter a primeira consulta aos 6 meses de vida e, a partir daí, a visita deverá se repetir a cada semestre.
  • A contenção física só deve ser usada caso o procedimento ofereça risco ao paciente, se ele se mover. Não deixe o dentista prender a criança sem necessidade. Isso pode reforçar o trauma.
  • Tenha certeza de que o dentista explicou à criança o tratamento que será feito.
  • Se a criança estiver com muito medo, veja com o profissional se é possível realizar uma primeira consulta para apenas familiarizar a criança a ele, ao consultório e à tão ameaçadora cadeira. Assim, o procedimento poderá ser feito na próxima sessão, sem tanto estresse. Talvez o dentista sugira isso antes de você, o que é um bom sinal.
  • Na hora da birra, pode ser bom os pais se afastarem e deixarem que o dentista estreite os laços com a criança.
  • Dê o exemplo. Se você tiver medo de cuidar dos dentes, seu filho perceberá.

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