Estudo mostra que níveis de violência entre os homens acompanha mudanças sociopolíticas

Análise de 1.024 espécies de mamíferos aponta que a agressividade entre homens é uma herança ancestral, mas fatores culturais podem inibi-la ou acentuá-la

por Vilhena Soares 19/10/2016 10:00

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Miguel Vidal Reuters
Segundo os cientistas, a violência letal entre membros da mesma espécie é generalizada nos mamíferos, incluindo os cavalos (foto: Miguel Vidal Reuters)
Como acontece com todo comportamento humano, apontar a origem da violência não é tarefa simples. Enquanto a genética e a teoria evolucionista mostram evidências de que a brutalidade entre homens pode ter sido herdada de ancestrais, cientistas sociais e psicólogos ressaltam que aspectos ambientais e culturais não podem ser desprezados. Um estudo publicado ontem na revista Nature indica que a agressividade é mesmo um traço evolutivo do Homo sapiens, mas que sofre influência de configurações históricas e culturais.

Os pesquisadores se basearam em um imenso levantamento no qual compilaram mais de 4 milhões de mortes em 1.024 espécies de mamíferos de 137 famílias taxonômicas. Depois de comparar esses óbitos com os de 600 populações humanas que viveram ao longo dos últimos 50 mil anos, a equipe conseguiu estimar o quanto são comuns, nos mamíferos, atos violentos letais entre membros de uma mesma espécie.

O resultado contraria fortemente a ideia de que apenas o homem atenta contra a vida de um igual. “Nossos dados mostram que esse tipo de violência é generalizada entre os mamíferos. Claro, alguns mostram pouca ou nenhuma, mas sua presença é mais comum do que se esperava no início”, diz o principal autor do trabalho, José María Gómez, pesquisador do instituto de pesquisa Estação Experimental de Zonas Áridas, na Espanha. “Encontramos altos índices em rinocerontes, esquilos, marmotas e cavalos, só para citar alguns exemplos.”

Comparação
Com as informações em mãos, os autores começaram uma comparação filogenética, um método pelo qual, a partir da posição de cada espécie na história, buscam estimar, por exemplo, quando determinados eventos evolutivos aconteceram ou que traços cada animal herdou de qual ancestral. Com vários cálculos, eles estimaram que, na origem dos mamíferos, a taxa de violência letal causada por membros da mesma espécie era de 0,30%, ou seja, um em cada 300 óbitos eram causados por um semelhante.

À medida em que a classe evoluiu, esse índice progrediu: era de 1,1% entre ancestrais de primatas, roedores e lebres; 2,3% no ancestral comum de todos os primatas; e 1,8% para o ancestral dos grandes primatas, que incluem chimpanzés, gorilas e o homem. Por essa estimativa, a taxa seria de 2% entre os primeiros Homo sapiens. O resultado foi comparado com registros de populações pré-históricas, e os materiais arqueológicos corroboraram os números. Ou seja, do ponto de vista evolutivo, era esperado que o comportamento de violência entre homens aparecesse nessa medida, e o conhecimento que se tem das primeiras tribos humanas confirmam a previsão.

“A biologia evolutiva tem oferecido um quadro conceitual muito útil, desenvolvendo muitas ferramentas para comparar traços entre espécies relacionadas”, destaca Gómez. “Nós detectamos que as espécies estreitamente relacionadas tendem a ter níveis semelhantes de violência, uma característica que nos permite prever o nível de violência de todas as espécies de mamíferos, incluindo seres humanos”, complementa.

História
A análise dos dados de mortes nas 600 populações humanas estudadas, no entanto, mostraram que os níveis de violência letal no homem variam consideravelmente ao longo da história, acompanhando mudanças sociopolíticas, o que mostra uma influência de fatores culturais nos níveis de brutalidade. “Traços ecológicos, culturais, sociais e comportamentais também podem contribuir para explicar o nível de violência observado na população humana. E isso significa que o nível de violência letal pode aumentar ou diminuir a partir de diferentes fatores”, diz o autor.

Ao comentar o estudo a convite da Nature, Mark Pagel, professor da Faculdade de Ciências Biológicas da Universidade de Reading, na Inglaterra, considerou o estudo bastante revelador. “O ambiente influencia os níveis de violência, mas os seres humanos têm uma tendência evolutiva para resolver conflitos sociais e territoriais com o uso da violência. Esse tipo de pesquisa pode ajudar a identificar exatamente o tipo de ‘gatilho’ e de situações que desencadeiam a violência humana”, escreveu.

Os autores querem, agora, refinar os achados. “Estamos reavaliando nosso banco de dados para explorar se os diferentes tipos de mortalidade intraespecífica (o infanticídio, a agressão intergrupo, o canibalismo) podem ter diferentes padrões evolutivos”, adianta Gómez. Ele e colegas também esperam contar com a colaboração de mais pesquisadores. “Nossa esperança é que outros estudiosos usem esses dados e até os aumentem, a fim de expandir nosso conhecimento sobre a violência letal tanto em seres humanos quanto em outros mamíferos. Além disso, nossa estimativa filogenética da violência letal humana proporciona um novo quadro de referência para comparação de dados futuros sobre a violência humana”, conclui.

 

Sem surpresas
“Quando a destrutividade se volta para fora, contra os outros, costuma assumir a forma da agressividade, embora também possa aparecer como indiferença, falta de consideração, vandalismo — há muitas formas de matar, além da violência letal. Isso sugere algo intrínseco à natureza humana e à transmissão filogenética. Nessa medida, haverá sempre manifestações da destrutividade onde quer que o homem habite e conviva com outros homens. Por outro lado, é muito claro que fatores ambientais e históricos podem reduzir essa destrutividade, sem eliminá-la, ou acentuá-la. Criam-se, assim, moduladores ambientais do potencial destrutivo. Do ponto de vista de um psicanalista, o estudo em questão sobre a violência letal e suas raízes filogenéticas faz todo o sentido e não surpreende. Ao contrário, traz mais água para o nosso moinho”

Luis Claudio Figueiredo, psicanalista e professor do curso de pós-graduação em psicologia clínica da PUC de São Paulo

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