Mais do que personalizar a casa, trabalho manual é terapêutico

Não precisa ter medo de errar. Paciência e insistência são amigas de quem se joga na onda do "faça você mesmo"

por Gláucia Chaves 13/10/2016 14:00

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Carlos Vieira/CB/D.A Press
Deise Lima, que nunca se dedicou às artes manuais ao longo da vida, agora é uma das alunas mais assíduas de uma escola de artes. Ela se descobriu nas aulas de arranjos florais (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Brasília – Colocar um pouco de si dentro de casa inclui escolher os móveis, a paleta de cores das paredes, os objetos de decoração. Quando tudo isso for feito pelo próprio morador, é impossível não perceber um pouco mais de alma e alegria na decoração. Uma festa com os enfeites feitos a mão, um jantar preparado em casa, com ingredientes da própria horta. A onda do do it yourself, o DIY (ou “faça você mesmo”, em tradução livre) parece ter contagiado a internet e, consequentemente, as pessoas. Basta uma rápida busca para descobrir dicas, tutoriais e projetos que, à primeira vista, podem até parecer muito difíceis para a execução de quem não tem talento manual. Para perder o medo das instruções, só há um caminho: ir lá e fazer.

Colocar a mão na massa tem muitas vantagens: é terapêutico, econômico e empoderador. Pode, inclusive, ser rentável. Vanessa Navarro, uma das sócias do Pupila — Experiências Criativas, em Brasília (DF), conheceu o valor do trabalho manual há quatro anos, quando se apaixonou por encadernação. Publicitária de formação, viu na habilidade uma oportunidade de mudar de profissão. Para ela, o artesanato representa um resgate de perícias há muito deixadas de lado. “Vejo muito também a questão de segurança, autoestima. É bom saber que você consegue fazer algo.”

O preconceito em relação ao trabalho feito com as mãos cada dia mais se torna parte do passado. Hoje, Vanessa conta que o artesanato está mais moderno: intervenções artísticas feitas com crochê (como se fossem grafites), bordados feministas e muitos outros exemplos tomam conta dos coletivos artísticos de galerias pelo país. Deise Lima, de 44 anos, é uma das alunas mais assíduas de Vanessa. Embora as artes manuais não tenham sido parte de sua vida, nos últimos anos ela descobriu nas aulas de arranjos florais um escape para uma veia de artista que nem sabia que tinha. “Não é só ocupar o tempo. Pode ser um caminho de expressão artística”, reforça.

Minervino Junior/CB/D.A Press
Aos 27 anos, Matheus Fernandes criou o Blog do Math, onde publica o passo a passo detalhado de vários projetos para inspirar seus seguidores (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Antes de começar a fazer, Deise já era uma entusiasta da ideia “compre de quem faz”. Valorizar o trabalho de artesãos locais, manter a economia funcionando e contribuir para a sustentabilidade são valores que ela gosta de apoiar – agora, com as próprias mãos. “Vi essa possibilidade de passar a fazer. Sou aquela pessoa que tinha medo, me autoexigia muito. Sou um pouco lenta e sempre fico por último.” Mesmo com a resistência inicial, hoje Deise vê no artesanato um hobby que não pretende abandonar tão cedo. “São conhecimentos que a gente leva para a vida.”

Marcelo Darghan, artista plástico e colaborador de mídias relacionadas a artesanato, criou o Momento Döhler, iniciativa itinerante que viaja pelo país com mais de 28 cursos. Segundo ele, o segredo parece óbvio, mas muita gente esquece: comece por algo que lhe chame a atenção. “Tem que encher os olhos, mexer com você emocionalmente”, diz. Depois de escolhido o projeto, separados os materiais necessários, é preciso tomar cuidado com a armadilha do ego. O erro, segundo Darghan, é um dos melhores amigos dos artesãos. É com ele que se aprende e se exercita, ainda mais, a criatividade. “Todo mundo é capaz”, reforça o professor. “É importante entender o processo do projeto, sempre sabendo que é preciso fazer pelo menos 10 vezes até ficar realmente legal.”

Mais que a cola quente, a tesoura e a fita crepe, um item indispensável para qualquer projeto DIY é uma boa dose de paciência. Visar ao meio, não ao fim, é o segredo para aproveitar todas as vantagens da filosofia “faça você mesmo”. “Quem faz artesanato não pode esperar que as coisas aconteçam rápido, imediatamente. É bom sempre pensar que é pelo prazer, e não pelo comércio”, analisa Marcelo Darghan.

Quando criança, as capas dos cadernos o incomodavam. Matheus Fernandes, hoje com 27 anos, não sentia conexão com os desenhos genéricos que geralmente estampavam o material escolar. Preferia personalizar tudo, “da capa às divisórias”, relembra. Atualmente designer e ilustrador, ele está à frente do Blog do Math, onde pensa em projetos, executa-os, fotografa tudo e publica o passo a passo detalhado para inspirar outras pessoas a fazer o mesmo. “Não acho que exista uma regra ou uma fórmula que determine por onde começar. Basta ter vontade e ideias ou fontes de inspiração/referências”, ensina. Além do blog, Matheus mantém um canal no YouTube com mais de 3 mil inscritos.

Mesmo quem não teve a oportunidade de se aventurar pelo mundo dos trabalhos manuais na infância, nada impede que a habilidade seja treinada na vida adulta. Internet, revistas especializadas, canais, blogs e mais uma infinidade de fontes de inspiração englobam todos os gostos, habilidades e bolsos. A dica, segundo Matheus, é nunca parar de pesquisar. “Uma boa ideia é começar por projetos mais simples, exercitando gradativamente o cérebro e descobrindo novas possibilidades e técnicas”, conta Fernandes.

Na internet
» Blog do Math: Blogdomath.com.br
» Marcelo Darghan Artesanato: youtube.com/user/marcelodarghan


Arquivo Pessoal
Maria de Melo Santos (foto: Arquivo Pessoal)
Maria de Melo Santos - blogueira e autora do livro 'Faça você mesma - Ideias' (Editora Leya)

1) Por onde começar a fabricar ou reparar algo por conta própria?

Antes de começar, é importante ver em livros e na internet alguns exemplos e perceber se sente ter disponibilidade para você mesmo fazer esses projetos. Comecei assim, vendo coisas na internet e olhando algumas vezes o que tinha em casa e que queria reutilizar. O truque é ser autodidata e não ter problemas em errar e começar de novo, porque vai ocorrer algumas vezes e não podemos desistir ou desanimar.

2) Quais as principais vantagens de colocar a mão na massa?
As vantagens são muitas. Além de alguma poupança, para mim, esses projetos são terapêuticos, uma forma de expor nossa criatividade de forma divertida e longe do estresse diário. Além disso, vamos compondo a nossa casa de uma forma muito pessoal, oferecendo presentes a amigos que temos a certeza de que mais ninguém vai oferecer igual, passando tardes divertidas com nossos filhos ou amigas, apoiando também o seu desenvolvimento criativo. Acima de tudo, vamos passando bons momentos.

3) Quais as maiores dificuldades de quem começa a investir na onda DIY?
Iniciar uma vida ou um hobby de DIY não é fácil, não vou mentir. Quando olhamos para os projetos que vemos no meu livro ou mesmo na internet, é fácil pensar que rapidamente conseguiremos fazer tudo. Não é que não se consiga, até porque, ao longo do livro, vou dando dicas muito simples para ninguém perder a motivação, mas muitas vezes são projetos demorados, que exigem muita paciência e dedicação, e nem sempre o resultado fica como queremos. Por isso, é preciso repetir todo o processo. A grande dificuldade é ter motivação para conseguir fazer vários projetos e não cair na tentação de pensar que é mais fácil comprar. Na verdade, por vezes, é mais fácil, mas nunca terá o mesmo significado.

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