Técnica faz cérebro escutar sua atividade neural para tratar enxaqueca e hipertensão

Estímulo ameniza complicações neurológicas e cardíacas

por Vilhena Soares 06/10/2016 15:00
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Desequilíbrios na frequência cerebral - atividade elétrica que rege o funcionamento do principal órgão do corpo humano - causam desordens como insônia e depressão. Essa instabilidade, conhecida por pesquisadores na área de saúde, poderá ser usada como matéria-prima para tratamentos médicos. É o que propõe um grupo internacional de pesquisadores em um trabalho apresentado, nesta semana, no conselho da Associação Americana do Coração. A equipe desenvolveu uma tecnologia, chamada HIRREM, que consegue captar as ondas elétricas irregulares do cérebro e transformá-las em som. Expostos a essas ondas sonoras, pacientes com pressão alta e enxaqueca apresentaram melhoras.

Os autores trabalham há cinco anos na área de neurotecnologia a fim de desenvolver uma terapia eficiente com base em aparelhos usados na medicina. “Ao longo dos últimos anos, nos baseamos em ressonância e eletroencefalografia para avaliar uma variedade de sintomas e condições. A HIRREM é um método que usa essas alternativas não invasivas e dispensa o uso de drogas, além de utilizar uma estimulação acústica disponível no mercado”, explicou ao Correio Charle Tegeler, professor de neurologia da Escola de Medicina Wake Forest, nos Estados Unidos, e um dos autores do estudo.

Com a técnica, sensores são postos no couro cabeludo do paciente para medir a atividade elétrica e detectar possíveis desequilíbrios entre os lados esquerdo e direito do cérebro. Segundo especialistas, possíveis alterações nessa frequência elétrica podem provocar diversos problemas de saúde. “A maioria das pessoas tem atividade elétrica relativamente equilibrada, mas, quando existe desequilíbrio, com um lado dominante, isso pode refletir em efeitos de estresse crônico, que se acredita ter um papel importante em pressão arterial, dores de cabeça, insônia, depressão, calores e outros transtornos”, detalhou Hossam Shaltout, professor e pesquisador do Departamento de Hipertensão da Escola de Medicina Wake Forest, nos Estados Unidos,  e participante do estudo.

Em tempo real, a HIRREM monitora a atividade elétrica do cérebro e traduz as frequências cerebrais dominantes em tons audíveis, produzidos por computador e emitidos simultaneamente por meio de fones de ouvido aos pacientes. Em um primeiro experimento, 10 voluntários com problemas de hipertensão ouviram esse som terapêutico. Após 17 sessões aplicadas em 10 dias, eles apresentaram redução da pressão arterial e aumento da variabilidade da frequência cardíaca (intervalo entre batimentos do coração), uma característica que contribui para o bom funcionamento do sistema cardíaco.

Em um segundo estudo, os cientistas testaram a HIRREM em 52 adultos que sofriam de enxaquecas. Os voluntários receberam 15 sessões ao longo de nove dias. Ao fim da terapia, observou-se melhoras em relação a dores de cabeça, insônia e humor. A pesquisa não indicou as razões dos resultados positivos, mas os cientistas levantaram algumas hipóteses. “Observamos padrões cerebrais elétricos se deslocando por conta própria e que refletiram em uma melhora do equilíbrio cerebral. O mecanismo envolvido nesse efeito pode envolver respostas aos tons recebidos pelo cérebro, que se ajustaria como um instrumento musical. Pode ser também que essa estimulação acústica facilite a indução de um estado de sono, revertendo respostas ligadas ao estresse. Sabemos que um sono saudável é fundamental para a cura”, detalhou Tegeler.

Estresse
Maria Fernanda Maretti, cardiologista do Hospital do Coração em Brasília, acredita que a reversão do estresse pode ter sido uma possível explicação para as melhoras detectadas em ambos os testes, mas detalha que mais aprofundamento é necessário para comprovar esses ganhos. “Uma resposta do organismo a uma situação estressante causa desequilíbrio, e isso pode desencadear a pressão arterial e também a enxaqueca. Mas o uso dessa técnica em outros problemas de saúde que também têm o estresse como um fator de causa, como a insônia e a depressão, precisa de mais aprofundamento porque são enfermidades muito subjetivas, difíceis de serem avaliadas. Um estudo com uma quantidade maior de pacientes é necessário para esclarecer essas dúvidas”, opinou.

No caso específico da hipertensão, a cardiologista avalia que a tecnologia em desenvolvimento mostra uma estratégia de tratamento que poderá auxiliar medidas já utilizadas para combater a doença. “Seria uma terapia adjuvante. O estresse está agregado à pressão alta, mas existem outros fatores envolvidos. Por isso, seria uma alternativa a ser usada em conjunto com a atividade física e a medicação, por exemplo”, defendeu.

Outros transtornos
A equipe de pesquisadores trabalha com o uso da HIRREM para amenizar outras complicações. “O nosso programa de pesquisa tem mais de 400 participantes, divididos em cinco estudos clínicos, que têm mostrado redução de sintomas de insônia, depressão, estresse e ansiedade e uma boa recuperação de atletas com persistentes complicações de pós-concussão. A HIRREM também foi aplicada a militares com estresse pós-traumático, em uma parceria com o governo e a Marinha, e esses pacientes tiveram melhoras consideráveis”, detalhou Tegeler.

O autor destacou ainda que, apesar da necessidade de mais testes, a tecnologia se mostra promissora. “Se esses resultados forem confirmados em estudos controlados maiores, a HIRREM pode vir a ser uma nova abordagem valiosa para os cuidados de saúde baseados no cérebro”, defendeu. Segundo Tegeler, o foco de HIRREM seriam os problemas gerados pelo esgotamento mental. “Para quaisquer condições e sintomas que têm a ver com o estresse crônico, a técnica poderia trazer benefícios. O objetivo é tentar mitigar o efeito desse problema emocional antes que ele se torne crônico e resulte em sintomas e doenças”, ressaltou.

Os autores adiantaram que mais pesquisas serão feitas e terão como foco os problemas ligados ao estresse pós-traumático. “Acredito que o estresse está matando as pessoas e que precisamos de novas alternativas que não sejam invasivas e não usem drogas”, complementou o especialista. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 90% da população mundial sofra de estresse. No Brasil, o índice é menor: 70%, sendo que 30% chegam a ter níveis elevados de estresse.



Uso clínico no alívio da dor

Chamada intrasom, a terapia com ondas sonoras tem sido usada na medicina para combater a dor. Ondas audíveis, com cerca de 60 e 100 Hertz, são aplicadas diretamente no local em que há o desconforto e promovem o crescimento acelerado de células. Essa atividade reduz a dor e faz com que a região se fortaleça, em um processo de regeneração que se dá de dentro para fora. Esse tratamento também é prescrito para problemas de ansiedade e osteoporose.

Outra enfermidade que poderá ser tratada, no futuro, com o uso do som é a disfunção erétil. Pesquisadores da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, trataram voluntários com problemas de ereção usando sessões de ondas sonoras, aplicadas diretamente no órgão sexual. A terapia mostrou resultados e poderá funcionar como alternativa a medicamentos que causam efeitos colaterais e são contraindicados, por exemplo, para hipertensos.


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