Casa desorganizada pode indicar alguma dificuldade emocional

Guardar objetos que têm significado especial faz parte da construção da identidade. Mas o exagero, a ponto de deixar a casa desorganizada, pode indicar alguma dificuldade emocional e prejudicar outros aspectos da vida, como os relacionamentos sociais

por Vilhena Soares 05/10/2016 16:00

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Reprodução Internet
(foto: Reprodução Internet)
“Não repare a bagunça” é a frase mais usada pelo anfitrião surpreendido com a casa em desordem. Um grupo de pesquisadores norte-americanos decidiu ignorar o pedido e fazer justamente o contrário: prestar muita atenção na bagunça dos lares. A conclusão? Um ambiente muito caótico, especialmente devido ao acúmulo excessivo de objetos, tem o poder de prejudicar outros aspectos da vida da pessoa, como sua sensação de bem-estar geral e sua vida social.

Joseph Ferrari, professor de psicologia da Universidade do Novo México, e principal autor do trabalho, explica que seu objetivo era avaliar os impactos emocionais da desordem provocada pelo excesso de objetos em casa. Ele diz que muitas pessoas sofrem com o problema, descrito por ele como uma “superabundância de posses” que gera um ambiente doméstico caótico e desorganizado. É um comportamento um pouco diferente dos chamados acumuladores, que costumam colecionar muitos itens de um mesmo tipo de objeto, como jornais ou sacos plásticos. Já para os “superdesorganizados”, qualquer coisa merece ser guardada, e aí, manter a casa arrumada se torna quase impossível.

Segundo o especialista, a origem desse hábito está na necessidade de tornar o ambiente mais acolhedor e íntimo, algo parecido com o desejo de decorar o escritório com itens pessoais. “Há algo sobre nossos bens que os tornam nossa identidade, o que somos”, explica ao Correio. O problema é que, para alguns indivíduos, essa relação entre objetos e identidade pode se tornar um problema, a ponto de qualquer quinquilharia se tornar demasiadamente importante.

Impacto
Para investigar o tema, Ferrari e colegas contaram com a participação de 1.600 adultos que moram nos Estados Unidos e no Canadá e que já tinham procurado ajuda de uma entidade que ajuda pessoas com o problema. A média de idade dos participantes era de 54 anos, a maioria era casada e 78% eram proprietários do local onde moravam. O primeiro ponto que chamou a atenção dos autores foi a pouca procura de homens no serviço de apoio.

Valdo Virgo / CB / D.A Press
(foto: Valdo Virgo / CB / D.A Press)
“Ficamos surpresos de ver que, em nossa amostra de 1.600 indivíduos, apenas 70 eram homens”, conta. O dado levou a equipe que se tratava de um problema tipicamente feminino, mas uma investigação mais aprofundada revelou que não era essa a explicação. “Percebemos que os homens, de maneira geral, simplesmente não tomam nenhuma providência sobre isso”, esclarece o autor.

Os voluntários responderam a um questionário que abordava tanto aspectos sobre a casa quanto fatores emocionais. Os resultados, publicados na revista especializada Journal of Enviromental Psychology, mostraram que a maioria das pessoas tinha dificuldade em apontar sensações positivas ligadas ao lar, como considerá-lo seguro. Além disso, foram baixos os níveis de bem-estar e altos os sinais de problemas nos relacionamentos sociais.

“À medida que a desordem cresce, ela exige mais atenção. Tudo que importa é forçado a sair de sua vida. Você para de ver seus amigos, de ver a sua família, não trabalha mais tanto. Quando temos muitas posses, elas podem se transformar em desordem, e mostramos com o estudo que isso tem um impacto”, detalha Ferrari.

Descontrole
É importante ressaltar que guardar alguns objetos desnecessários não torna ninguém problemático. Afinal, como o pesquisador explica, itens ligados a momentos relevantes ganham importância e se tornam uma parte da identidade de cada um. É absolutamente esperado, portanto, que as gavetas da escrivaninha acabem recheadas.

O sinal de alerta deve acender quando o acúmulo foge do controle e passa a prejudicar outras áreas da vida. “Quando ele começa a interromper a vida e ganhar prioridade sobre seus relacionamentos, você precisa fazer alguma coisa. Esse é o problema com a desordem. Ela pode perturbar o seu senso de casa e sua capacidade de se relacionar com os outros”, frisa o professor.

Segundo Murilo Carvalho Lobato, psiquiatra do Instituto Castro e Santos, em Brasília, esse comportamento pode ser interpretado como uma espécie de sintoma para problemas internos. “Esse trabalho mostra como a construção do ambiente é um reflexo da natureza psíquica. Se você está com a mente desorganizada, ela reflete em um ambiente desorganizado”, observa o especialista, que não participou do estudo. “Ao fazer vínculos com objetos, a pessoa demonstra uma carência, uma espécie de amor perdido.”

Embora considere o estudo interessante, Helio Machado Lopéz, psicólogo do Quiron Instituto de Desenvolvimento Humano e pesquisador da Universidade de Brasília (UnB), pondera que o perfil desses indivíduos precisa ser analisado com cuidado. “É preciso saber quais são as motivações. Pode ter ligação, por exemplo, com uma relação ruim com a família ou com perdas que ele teve”, observa Lopéz. O psicólogo, que também não participou da pesquisa, acredita que o assunto precisa ser mais estudado e que é muito importante evitar rotular as pessoas, dando prioridade à compreensão dos processos que elas vivem. “Às vezes, a desorganização é uma tentativa que a pessoa está fazendo para se organizar”, ressalta.

Menos apego
Como próximo passo, os autores do estudo pretendem analisar um número maior de voluntários, já que a amostra usada era composta apenas por pessoas que procuraram ajuda profissional e já tinham algum entendimento sobre o problema. “O que me atraiu para esse tema foi a possibilidade de ajudar. Eu realmente quero que o público entenda o que está acontecendo. Capacidade de gestão, praticidade e o apego saudável é o que separa coleções pessoais de desordem prejudicial”, destaca Ferrari.

Lobato concorda com a importância de se estudar o tema. “É um problema que aparece progressivamente, e os parentes vão aceitando. Quando você vê, ganhou um tamanho maior e fica difícil quebrar esse hábito”, alerta o psiquiatra, que recomenda: “Olhe para os objetos que você não precisa usar depois de seis ou nove meses. Não espere morrer para deixar suas coisas para amigos e familiares. Doe-as enquanto você estiver vivo, para que possa ver a alegria dos outros ao recebê-las. Não precisamos de várias cópias da mesma coisa.Viva em abundância, sem a abundância”.

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