Incidência de depressão é quase o dobro em mães de filhos prematuros

Por dia, 41.095 bebês nascem antes de completar 37 semanas de gestação

por Correio Braziliense 04/10/2016 14:00

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Odd Andersen / AFP
As condições são piores para aquelas cujos filhos precisam ser assistidos em unidades de terapia intensiva (UTI) e quando há a ocorrência de problemas psiquiátricos antes do parto e/ou da gravidez (foto: Odd Andersen / AFP )
Por dia, 41.095 bebês nascem antes de completar 37 semanas de gestação, estima a Organização Mundial da Saúde (OMS). Primeira causa de mortalidade de meninos e meninas com menos de 5 anos, a prematuridade também é responsável por problemas visuais e auditivos e incapacidades de aprendizagem. Um estudo da Warren Alpert Medical School, da Universidade de Brown, nos Estados Unidos, traz o impacto do parto antecipado nas mães. Segundo pesquisa divulgada na última edição do The Journal of Pediatrics, a incidência da depressão pós-parto nessas mulheres chega a ser o dobro da registrada entre as que chegaram ao fim recomendado da gravidez.

Os cientistas observaram que as condições são piores para aquelas cujos filhos precisam ser assistidos em unidades de terapia intensiva (UTI) e quando há a ocorrência de problemas psiquiátricos antes do parto e/ou da gravidez. “Descobrimos que mulheres com um distúrbio de saúde mental prévio experimentam percepções negativas sobre elas próprias e os filhos no momento da alta da UTI independentemente da idade gestacional do recém-nascido no momento do nascimento”, explicou, em comunicado à imprensa, Katheleen Hawes, autora principal da pesquisa.

O estudo foi feito com 724 mães de bebês prematuros, cuidados por mais de cinco dias em UTIs. As mulheres frequentaram um programa de transição, com especialistas, antes de levarem as crianças para casa. Um mês depois, participaram de uma atividade que avaliou a percepção delas sobre o suporte profissional na UTI; o bem-estar infantil e materno, incluindo aptidão emocional e habilidades práticas; e o conforto materno, ligado a preocupações com o bebê. O histórico de saúde mental e o risco social das participantes, incluindo, por exemplo, questões econômicas, também foram considerados pelos pesquisadores.

“Mães cuja prematuridade dos bebês foi extrema, moderada e tardia apresentaram taxa de depressão de 20%, 22% e 18%, respectivamente”, detalhou Hawes. De uma forma geral, a OMS estima que a depressão pós-parto acomete de 10% a 15% das mulheres no mundo. Prematuros tardios são aqueles com idade gestacional entre 34 semanas e 36 semanas; os moderados, entre 31 e 35 semanas; e os extremos, entre 24 e 30 semanas. Segundo a pesquisadora, um mês depois de as crianças receberam alta, foram constatadas diminuição da percepção de bem-estar materno, do conforto em relação ao filho e da percepção de coesão familiar. “Esses fatores também estão associados à possível depressão”, complementou.

Razões diversas
O sentimento de melancolia ou tristeza nos dias posteriores ao parto ocorre frequentemente nas mulheres e não é encarado como problema pelos médicos. A depressão pós-parto caracteriza-se por uma mudança de humor mais grave e que pode durar semanas ou meses. Alterações hormonais, principalmente nas taxas de estrógenos e progesterona; histórico anterior de problemas psiquiátricos; a tensão emocional e o estresse do parto; e as preocupações com os cuidados com o recém-nascido são fatores que desencadeiam o quadro. Especialistas, porém, têm relatado a influência de questões mais externas, como a condição socioeconômica e o sedentarismo de mulheres. (Leia Para saber mais)

Hawes e a equipe, que consideraram esses fatores no estudo, defendem uma avaliação global da saúde mental das grávidas para a identificação daquelas mais suscetíveis a serem acometidas pela doença, principalmente quando o nascimento do filho não ocorre como o esperado. “A Avaliação mais abrangente e intervenções para reduzir a ansiedade e reforçar a saúde mental, a confiança e a prontidão são necessárias para identificar e tratar as mães de bebês prematuros que precisarão de apoios”, escreveram, no artigo divulgado.

Panorama brasileiro
Divulgado em abril no Journal of Affective Disorders, um estudo da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/Fiocruz), mostrou que, em cada quatro brasileiras, mais de uma apresenta sintomas de depressão no período de seis a 18 meses após o nascimento do filho. O trabalho, baseado na entrevista com 23.896 mães, fez também uma espécie de raios X do problema psiquiátrico no Brasil considerando fatores econômicos e sociais.

De uma forma geral, as pacientes têm cor parda, baixa condição socioeconômica, antecedentes de transtorno mental, hábitos não saudáveis, como a ingestão excessiva de álcool, e tiveram uma gravidez não planejada. Segundo Mariza Theme, a responsável pelo estudo, os resultados foram coerentes com o demonstrado pela literatura internacional.

Também chamou a atenção o fato de o transtorno ter sido mais diagnosticado nas participantes que pior avaliaram o atendimento recebido durante o parto. Nelas, a probabilidade de apresentar os sintomas da doença foi duas vezes maior. “Isso suscitou algumas interpretações, mas, como a investigação da depressão foi realizada em um único momento, não sabemos se a avaliação foi ruim porque a mulher estava deprimida ou se o atendimento, de fato, foi inadequado e desencadeou o surgimento dos sintomas”, ponderou Theme, em entrevista ao Informe ENSP.


Alerta para a psicose
Grávidas com transtorno bipolar, seus parentes e médicos devem ficar atentos para o risco aumentado de desenvolvimento da psicose pós-parto. O alerta foi feito no último dia 9 por cientistas da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, e do Centro Médico Erasmus, na Holanda, durante a divulgação, no The American Journal of Psychiatry,  uma nova revisão sobre a literatura da doença.

Rara e pouco pesquisada, a psicose pós-parto acomete de uma a duas a cada mil mulheres. Além dos sintomas da depressão, a paciente pode ter pensamentos suicidas ou violentos, alucinações e, por vezes, o desejo de fazer mal ao bebê. Katherine Wisner, autora principal da revisão científica, conta que a mãe tem delírios, como “uma força escura ou fora do corpo que a faz querer prejudicar o bebê”.  “Essa é uma doença muito séria e ninguém gosta de tratar mulheres com medicação durante a gravidez ou a amamentação, mas há, certamente, muito alto risco em não tratar, como o de suicídio”, ressaltou.

Segundo os autores, existe uma relutância dos médicos em prescrever o lítio para mulheres que amamentam por medo de que a droga impacte negativamente o bebê. Eles dizem, porém, que o acompanhamento de um pequeno número de mães que ingerem o medicamento e amamentam os filhos não tem detectado efeitos adversos nas crianças. “Na maioria das vezes, o risco de o medicamento é menor do que o risco de a doença não controlada”, reforçou Wisner.

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