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Sucesso editorial britânico chega ao Brasil com fórmula que une ilustrações clássicas a textos de humor sobre a vida contemporânea

por Valéria Mendes 03/10/2016 16:30

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Sucesso editorial na Inglaterra - em quatro meses foram vendidos 1,2 milhão de exemplares -, a coleção ‘Como lidar’ chega ao Brasil com o desafio de repetir o feito em solo tropical. Lá, é forte o vínculo afetivo dos leitores e leitoras com a coleção de livros infantis ‘Ladybird Books’, com 650 títulos colocados no mercado literário desde 1915 e que explicava às crianças o funcionamento do mundo. O título original em inglês da nova coletânea, inclusive, faz menção à obra cujas mensagens e estética marcaram época na terra da rainha Elizabeth: ‘Ladybirds for Grown-ups’. Essa releitura para ‘gente grande’ celebra o centenário da série original e mantém a característica principal de ser fundamentalmente imagética e com frases curtas. Por aqui, foram traduzidos para o português cinco dos oito volumes já editados por lá em 2015 e lançados na Bienal do Livro de São Paulo: ‘A Esposa’, ‘A Ressaca’, ‘O Hipster’, ‘O Marido’ e ‘Os Encontros’.

Intrínseca/Reprodução
(O Hipster, coleção Como lidar). (foto: Intrínseca/Reprodução)


A proposta é abusar da ironia, acidez, cinismo e deboche, ingredientes primordiais do humor inglês, para tratar das desventuras (e venturas?) da vida adulta moderna. A diretora de títulos estrangeiros da Intrínseca, Danielle Machado, editora que trouxe para cá a obra assinada por Jason Hazeley e Joel Marris, ambos redatores de comédia do sitcom Miranda, da BBC, define o trabalho como “algo muito parecido com os memes que proliferam nas redes sociais e que foi desenhado para ser uma crítica feroz aos estereótipos”. Humor ‘inteligente’, linguagem atual e temas do cotidiano da vida adulta são os ingredientes para fisgar o leitor brasileiro.

“Tanto as esposas quanto os maridos gostam de ter seus gadgets. Alexandre comprou para Beatriz um aspirador de pó, um ferro de passar roupa, uma máquina de costura, uma lava-louça, um mixer, um secador de cabelo, uma chaleira e uma torradeira. Também se deu de presente um aparelho de som, assim não atrapalha Beatriz enquanto ela curte seus brinquedos novos”. Esse é um dos ‘memes’ de ‘A Esposa’. Há quem vá se divertir e acolher a proposta da série de ser “uma cartilha politicamente incorreta sobre personagens e questões existenciais que ‘atormentam’ uma considerável parcela de quem chegou à maioridade”, como é divulgado pela Intrínseca. Há quem vá se lembrar de dados recentes do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) que mostra que as mulheres chegam a dedicar quase o dobro do tempo aos afazeres domésticos que os homens. O título ‘O Marido’ também traz páginas com estereótipos de gênero: “Lucas se expressa muito mal. Assim ele sempre pode dizer que está sendo mal interpretado”.


Intrínseca/Reprodução
(O Marido, coleção Como lidar). (foto: Intrínseca/Reprodução)


Doutora em psicologia social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pesquisa de doutorado na Universidade de Coimbra, em Portugal, e professora do Centro Universitário UNA, a psicóloga Andréa Moreira Lima lembra que “estereótipos são um conjunto de características presumidamente partilhadas por todos os membros de uma determinada categoria social e que são construídos a partir de percepções preconcebidas, generalizadas, infundadas e majoritariamente negativas, sobre uma pessoa ou grupo”.

Além disso, eles geralmente se manifestam vinculados a características de um grupo minoritário nas relações de poder como idade, cor-raça-etnia, sexo-gênero, profissão, aparência física, condição socioeconômica... “Podemos imaginar uma criança que desenvolve sua subjetividade na convivência com uma família que compartilha de uma representação social estereotipada (e racista) de que as pessoas negras são ladras. Nesse contexto, caso esse estereótipo não seja desconstruído e reelaborado, as atitudes aprendidas poderão perpassar as futuras interações sociais dessa criança”, explica. Aliás, nos cinco títulos de ‘Como lidar’ não se vê personagens negros.

Acríssio Luiz Gonçalves / Arquivo Pessoal
Andréa Moreira Lima afirma que o politicamente incorreto é uma forma de expressão que procura externalizar os preconceitos sociais sem receios e limites e disfarçada de humor (foto: Acríssio Luiz Gonçalves / Arquivo Pessoal)
Preconceito é aprendido e, segundo a especialista, negar seu caráter discriminatório é característica da pessoa preconceituosa. “As pessoas que se dizem adeptas do politicamente incorreto geralmente não conseguem perceber que estão sendo preconceituosas nas suas falas e atitudes. Geralmente, as crenças e valores preconceituosos estão inseridos em um discurso mais amplo dos grupos dominantes de cada sociedade e que pretendem naturalizar as desigualdades sociais.”, diz.

Para ela, é preciso pensar os estereótipos, preconceitos e discriminações a partir das relações assimétricas de poder entre grupos, para perceber as formas sutis que tais processos assumem na atualidade. “O preconceito acaba por produzir a invisibilidade de certas identidades, gerando a subalternidade de determinadas pessoas e a não garantia de seus direitos humanos, legitimando práticas de hierarquização e inferiorização social”, pondera.

A crítica social aparece em ‘Como lidar’ como no caso da Ana, que vai voltar ao trabalho seis meses depois de dar à luz ao seu primeiro filho, mas “como qualquer garota que acabou de parir”, ela agora vale menos para seu empregador. Danielle Machado acredita que, apesar de focar em estereótipos e ser politicamente incorreta, a série cumpre um papel importante de “suscitar o debate” para questões importantes como a desigualdade de gênero.

Andréa Moreira Lima afirma que o politicamente incorreto é uma forma de expressão que procura externalizar os preconceitos sociais sem receios e limites e disfarçada de humor. “Na verdade, trata-se de um instrumento retórico de grupos conservadores que procuram deslegitimar críticas feitas por grupos mais progressistas sobre os efeitos de tais discursos na sociedade”, diz.

Apesar de, em alguns momentos, os autores optarem por tratar com ironia estereótipos de gênero – e estereótipos de gênero naturalizam dinâmicas machistas nas relações entre homens e mulheres -, ‘O Hipster’ é mais certeiro em brincar com o típico personagem do mundo contemporâneo e os autores acertam o tom como no caso da drinkeria hipster que só serve “bebidas preparadas com nada além de água”. A mais cara do lugar é a ‘Lágrima dos Charcos Japoneses’. Em ‘A Ressaca’ e ‘Os Encontros’ a dureza da vida adulta também é tratada com bom-humor.

A professora da UFMG lembra que a linguagem não é neutra. “As palavras geram risos para uns e para outros, humilhação”, salienta. Por isso, é importante problematizar o humor politicamente incorreto. “Humoristas e pessoas que pactuam com piadas preconceituosas precisam se haver com o seguinte problema social: a favor de quê e de quem suas piadas estão servindo? Já que somos seres sociais, qual a nossa corresponsabilidade?”, questiona.



Os livros infantis da série ‘Ladybird’ não são amados apenas na Inglaterra, mas também são conhecidos em vários países. O auge nas vendas dos títulos da coleção ocorreu entre as décadas de 1950 e 1970. Na nova versão ‘Como Lidar’ (título em português) e ‘Ladybirds for Grown-ups’, (título original em inglês), as ilustrações são do acervo original da coleção.

COLEÇÃO COMO LIDAR
Autores: Jason Hazeley e Joel Marris
Editora Intrínseca
Preço: 19,90 (cada)

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(A Esposa, coleção Como lidar). (foto: Intrínseca/Reprodução)


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(A Ressaca, coleção Como lidar). (foto: Intrínseca/Reprodução)


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(Os Encontros, coleção Como lidar). (foto: Intrínseca/Reprodução)

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