Morte do ator Domingos Montagner convida à reflexão sobre a dificuldade do luto em caso de tragédias

Luto e morte são temas-tabu que não encontram seu espaço social para serem vivenciados e discutidos

por Valéria Mendes 30/09/2016 09:00

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Reprodução TV Globo
(foto: Reprodução TV Globo)
Mesmo quem nunca assistiu a um capítulo de ‘Velho Chico’ se emocionou com as cenas que foram ao ar nesta semana. A ausência de Santo (personagem de Domingos Montagner) foi solucionada com o uso de uma câmera subjetiva que mostrava o olhar dele interagindo com os outros personagens da trama. Uma equipe de psicólogos esteve presente nas gravações para dar apoio aos colegas de Domingos que morreu aos 54 anos vítima de afogamento em 15 de setembro. No dia, o ator estava na companhia de Camila Pitanga para um banho de rio no São Francisco. A atriz declarou em entrevista ao ‘Fantástico’ ter presenciado “o último olhar” do amigo.

Psicóloga clínica e hospitalar com formação em luto e membro da Sociedade de Tanatologia e Cuidado Paliativo de Minas Gerais (SOTAMIG), Maria Emídia de Melo afirma que o trágico acidente ocorrido com o ator Domingos Montagner nos remete aos eventos traumáticos que superam as nossas capacidades adaptativas às condições da vida. “Provocam um luto coletivo que requer mais tempo para elaboração. As reações emocionais são muito intensas e precisam de acolhimento”, explica.

As reações, de acordo com a especialista, dependem muito do vínculo afetivo existente, do equilíbrio emocional da pessoa envolvida na situação e principalmente do bom senso e lucidez – “nem sempre presentes em momentos de grande estresse”, afirma a psicóloga. “Esse acidente, em particular, envolveu também a atriz Camila Pitanga, que, tendo sobrevivido à tragédia, tornou-se testemunha viva e ocular desse drama. Mesmo apavorada e tentando salvar o amigo, percebeu a gravidade da situação e não se colocou em risco. Felizmente, prevaleceu o bom senso, pois sabemos e ouvimos constantemente que não devemos tentar o salvamento nessas circunstâncias que oferecem riscos”, reforça ainda.

Culpa x fatalidade
Por envolver figuras públicas de grande carisma, a repercussão da tragédia na imprensa e nas redes sociais foi imediata e comovente. Mesmo assim, surgiram reações de julgamento e preconceito em relação à sobrevivente, Camila Pitanga. Para Maria Emídia, eram respostas já esperadas se consideramos a diversidade cultural, social, religiosa e espiritual do contexto brasileiro. “Algumas pessoas se sentiram no direito de emitir opiniões como se fossem verdadeiras ou acertadas e, com isso, perdemos o aspecto mais importante desse momento: respeito e acolhimento à dor”, salienta.

A psicóloga ressalta que uma pessoa sem uma rede de apoio e suporte – que provavelmente não é o caso da atriz Camila Pitanga – pode se enveredar por um caminho de um luto complicado, com muita culpa e intensificação de todos os sintomas físicos e emocionais que advém de uma perda afetiva. “Esses sintomas são naturais e esperados e devem ser acolhidos para facilitar a elaboração da perda. O tempo e a forma são extremamente individuais e cada pessoa tem uma singularidade e tempo que só pertence a elas”, diz.

Luto e morte são temas-tabu que não encontram um espaço adequado para serem vivenciados e discutidos. Associado a isso – e diante de morte por eventos traumáticos -, são poucos os profissionais especializados para acompanhar pessoas enlutadas. O que acontece, na grande maioria dos casos, é as pessoas não receberem o acolhimento adequado. “O triste nessa história é que existem várias “Camilas” por aí que não serão acolhidas. Nesses casos, podem surgir doenças psicossomáticas e até mesmo distúrbios de comportamento que não permitem que a pessoa continue levando a vida em frente”, explica.

Para Maria Emídia, no caso de Domingos Montagner, deve ser lembrado ainda - por relevância e significado - que o ator deixou um belo legado, de ter vivido intensamente, com alegria e amorosidade. “É um bálsamo que alivia a dor e ensina a viver. Já que a morte é inevitável, que possamos viver plenamente cada dia”, reflete.

Afogamento
A principal causa de morte por acidentes na faixa etária de 1 a 4 anos no Brasil é por afogamento. Se considerarmos até 14 anos, perde apenas para acidente de trânsito. Muito se fala, noticia e recomenda-se não tentar salvar uma vítima de afogamento se a pessoa não recebeu treinamento específico para essa finalidade. Mesmo assim, as reações são imprevisíveis. “Apesar das incessantes campanhas educativas, a decisão de não socorrer alguém que está se afogando (se você não foi treinado para isso) é uma leitura racional de uma situação hipotética. Na realidade, não temos como prever as reações que podem acontecer no momento do acidente”, aponta Maria Emídia.

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