Cientistas detalham composição do esmalte dentário humano

O trabalho pode ajudar no desenvolvimento de novas técnicas de prevenção

por Correio Braziliense 26/09/2016 15:00

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Shigeki Hontisu / AFP PHOTO
Parte externa do dente, o esmalte tem 90% de minerais e mais de 400 milhões de átomos em sua composição (foto: Shigeki Hontisu / AFP PHOTO )
O tecido mais mineralizado do corpo humano está na boca. Trata-se do esmalte, a camada externa do dente. Acredita-se que sua composição tenha cerca de 90% de minerais, como zinco e cobre, e 10% de água e materiais orgânicos. A constituição firme, no entanto, não assusta as bactérias, que rompem esse escudo e causam as cáries. Entender detalhadamente essa proteção natural ajuda a combater a doença crônica e de alta incidência, acreditam especialistas. Na edição de hoje da revista Science Advances, uma equipe da Austrália avança nesse sentido: eles fizeram uma espécie de mapeamento atômico do esmalte dentário, mostrando como ele se comporta.

“A estrutura do esmalte dentário humano é extremamente complexa e, ao mesmo tempo, sabemos que íons de magnésio, carbonato e fluoreto influenciam nas propriedades dele. Os cientistas nunca conseguiram capturar a estrutura do esmalte em uma resolução alta o suficiente ou definição”, conta Julie Cairney, professora da Faculdade de Engenharia e Tecnologias de Informação da Universidade de Sydney e participante da pesquisa.

Segundo a equipe, o esmalte é constituído por hastes de minerais cristalinos que se entrelaçam. Os espaços entre essas hastes são embalados por fosfato de cálcio amorfo (ACP), um composto orgânico vítreo presente desde a formação do tecido dentário, quando íons inorgânicos incorporam em sua estrutura, processo chamado de mineralização. Remineralizar regiões de ACP danificadas poderia, portanto, ser uma forma de restaurar o esmalte do dente. Falta, porém, identificar e compreender os íons que contribuem para o processo inicial, a mineralização. “Os profissionais de odontologia sabem que certos íons de rastreamento são importantes na estrutura dura do esmalte dos dentes, mas, até agora, tinha sido impossível mapear esses íons em detalhe”, diz Cairney.

A equipe cortou um molar humano e usou laser para fotografar a composição atômica do dente, uma espécie de tomografia em nanoescala. Com a técnica avançada, identificaram cerca de 400 milhões de átomos na camada do esmalte e observaram a forma como eles estavam distribuídos. Descobriu-se, por exemplo, que as regiões com ACP são ricas em íons de magnésio, o que, segundo os autores, indica a importância desse elemento no processo de mineralização e na formação do esmalte.

“O que temos encontrado são as regiões ricas em magnésio entre os nanobastões que compõem o esmalte. Isso significa que temos a primeira evidência direta da existência de uma fase rica em magnésio amorfo (sem forma definida) rica em cálcio que desempenha um papel essencial para regular o comportamento dos dentes”, detalhou Cairney. O trabalho resultou em um inédito mapa tridimensional das posições de átomos no dente, incluindo aqueles ligados à cárie.

Distribuição desigual
Alexandre La Fontaine, coautor do estudo e professor do Centro de Microscopia e Microanálise da universidade australiana, conta que eles também detectaram, em uma análise de nanoescala, aglomerados de material orgânico no esmalte do molar.

Segundo ele, essa característica indica que proteínas e peptídeos são distribuídos de forma heterogênea no tecido, e não em toda a interface do esmalte, como se imaginava anteriormente.

A descoberta também pode ser um alvo para a prevenção e o tratamento de cáries. “Propomos que a decomposição ocorre através de dissolução ao longo dos limites da haste do esmalte. Esses resultados podem ser utilizados para melhorar os modelos das propriedades mecânicas e de desgaste desse tecido”, ressaltaram os autores, no artigo divulgado.



Problema mundial

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, em todo o planeta, de 60% a 90% das crianças em idade escolar têm cárie. A doença periodontal, principal causa da perda de dentes, é encontrada em 15% a 20% dos adultos de meia-idade, com 35 a 44 anos. Vai avançando com o passar do tempo e faz com que 30% dos indivíduos com 65 a 74 anos não tenham mais dentes naturais. Os números são piores em grupos populacionais mais pobres e desfavorecidos.
No Brasil, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde Bucal, em 2010, quando a sondagem foi divulgada,  44% das crianças aos 12 anos não tinham cáries  — em 2003, a taxa era de 32%. Nos adultos, no mesmo período, diminuiu em 45% o número de dentes perdidos pela doença crônica e aumentou em 70% o número de dentes tratados.

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