Exibição de fotos da natureza reduziu violência em presídio, diz estudo

O experimento foi realizado em uma prisão de segurança máxima no estado americano de Oregon chamada The Snake River

por Vilhena Soares 22/09/2016 10:00

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Gomez / CB / D.A Press
Vídeos que mostram imagens de oceanos, florestas, rios, cenas de aquário e da Terra vista do espaço parecem reduzir a agressividade e o mau comportamento de detentos (foto: Gomez / CB / D.A Press)
Manter contato com a natureza é uma estratégia muito usada por quem precisa diminuir o estresse acumulado no dia a dia. Cenários como matas, cachoeiras e campos abertos têm uma comprovada capacidade de acalmar as pessoas. Agora, um estudo apresentado recentemente na 124ª Convenção Anual da Associação de Psicologia Americana sugere que o poder tranquilizante dessas paisagens se mantém mesmo quando elas são admiradas pela tela de um vídeo. Para testar a hipótese, cientistas recorreram a um dos espaços mais tensos da contemporaneidade: uma penitenciária.

Segundo os pesquisadores, vídeos que mostram imagens de oceanos, florestas, rios, cenas de aquário e da Terra vista do espaço parecem reduzir a agressividade e o mau comportamento de detentos. “Nós precisamos da natureza para o nosso equilíbrio físico e psicológico. Ainda que o contato direto com o meio ambiente seja mais eficaz, estudos têm mostrado que a exposição indireta a ele pode proporcionar um alívio temporário do estresse psicológico na vida diária”, explica, em um comunicado, Patricia Hasbach, coautora do estudo e psicoterapeuta do Instituto Northwest Ecotherapy, nos Estados Unidos.

O experimento foi realizado em uma prisão de segurança máxima no estado americano de Oregon chamada The Snake River. Foram avaliados 48 presos abrigados em um bloco com celas e condições de vida iguais. Metade do grupo continuou com suas atividades normais, mas os outros 24 detentos passaram a contar com a exibição dos vídeos durante seu tempo de recreação, o que ocorria de três a quatro vezes por semana.

A intervenção durou um ano. Nesse período, constatou-se que, nos homens expostos às imagens de natureza, uma redução do comportamento agressivo em relação ao outro grupo de prisioneiros. “Levantamentos internos e entrevistas de estudo de caso com os presos sugeriram que emoções e comportamentos negativos, como agressão, angústia, irritabilidade e nervosismo, foram reduzidos após a visualização de vídeos. E isso durou até por horas após a visualização”, detalha Hasbach.

A autora destaca que até problemas recorrentes dentro da instituição, como brigas violentas e discussões apresentaram uma diminuição considerável. “Descobrimos que os presos que assistiram aos vídeos de natureza tiveram uma redução de 26% em suas infrações violentas”, informa. “Isso representa 13 incidentes violentos a menos ao longo do ano, uma redução substancial, uma vez que quase todos esses eventos resultam em lesões de presos ou funcionários”, complementa.

Lembranças

Na avaliação de Bernardo Cherulli, psicólogo especialista em terapia cognitiva, o estudo foi bem conduzido, o que o torna confiável, e traz resultados interessantes. “O assunto escolhido é de alta relevância, já que se trata de um problema real, para o qual são necessárias novas soluções. A pesquisa mostra como uma intervenção simples e barata pode melhorar a qualidade de vida tanto dos prisioneiros quanto de quem trabalha nas prisões”, opina o especialista, que não participou do estudo.

Cherulli também acredita que as imagens vistas pelos presos podem ter trazido tranquilidade por invocar sensações boas. “Mesmo que um indivíduo seja criado em um contexto urbano, imagens desse tipo são desde cedo relacionadas à paz e à tranquilidade. Comerciais de tevê, filmes e histórias contatadas na infância trazem uma ideia de que, quando estamos em uma praia ou próximos a uma floresta, ficamos em paz. Com isso, emparelhamos esses ambientes com momentos agradáveis ou de conquista, como se fosse um prêmio poder usufruir desses momentos. Assim, imagens da natureza podem ativar memórias e crenças, evocando bons sentimentos que levam a bons comportamentos”, considera.

Segundo Letícia Guedes, psicóloga da clínica Vivencialle, em Goiânia, efeitos semelhantes foram observados em outros grupos. “Algumas pesquisas, por exemplo, descrevem a melhora de pacientes internados quando entram em contato com a natureza”, diz. “Sem dúvida alguma, a natureza é capaz de reduzir o estresse e a ansiedade, melhorar a criatividade e, consequentemente, afetar a produtividade, além de causar sensação de bem-estar e felicidade”, acrescenta.

De acordo com os autores, a intervenção foi considerada tão bem-sucedida que a estratégia passou a ser adotada em outras áreas da prisão, principalmente quando a equipe de segurança da instituição percebe sinais de aumento de tensão entre os presos. Para os investigadores, o uso dos vídeos pode servir de modelo para outros estabelecimentos prisionais que precisam reduzir o estresse, a fadiga mental e a violência.

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