Em tempos de crise, discursos políticos emocionais funcionam melhor com eleitores

Em momentos de estabilidade, eleitores demonstram preferência por candidatos comedidos e de fala mais sóbria

por Vilhena Soares 15/09/2016 07:30

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Valdo Virgo / CB / D.A Press
Qual o tom ideal para o palanque? (foto: Valdo Virgo / CB / D.A Press)
“A política é a arte de captar, em proveito próprio, a paixão dos outros.” Ao descrever de forma bastante crítica a atuação dos políticos, o escritor francês Henry de Montherlant destacou um aspecto muito valorizado nas personalidades públicas: a capacidade de emocionar as pessoas. Palavras ditas com fervor, gestos largos e voz embargada são recursos muito comuns nos discursos de candidatos, que buscam, dessa forma, sensibilizar e convencer os eleitores.

Essa, no entanto, é mesmo a melhor estratégia para um político? Um estudo realizado por especialistas dos Estados Unidos sugere que nem sempre. Segundo os especialistas, a tática funciona muito bem em momentos de crise, especialmente econômica, quando a população se mostra fragilizada e amedrontada. Em épocas em que a situação está mais estável, porém, esse tipo de discurso não surge tanto efeito, com os eleitores preferindo candidatos que se mostrem mais equilibrados e sóbrios.

Principal autor da pesquisa, o pesquisador da Universidade Estadual de Ohio David Clementson conta ao Correio que sentiu vontade de investigar o tema ao trabalhar em campanhas políticas norte-americanas. “Quando um político deve usar de alta intensidade na retórica e quando deve utilizar a baixa intensidade? Eu queria explorar como as variações de linguagem impactam a credibilidade, a confiabilidade e as percepções de um candidato presidencial — e se isso depende do fato de os eleitores sentirem que estão em um bom momento econômico ou não”, diz.

Duas opções

No trabalho, publicado na edição mais recente da revista especializada Presidential Studies Quarterly, Clementson analisa dados colhidos durante a eleição de 2012, na qual o presidente Barack Obama conquistou a reeleição. O analista e seus colaboradores contaram com a participação de 304 universitários, que, após lerem o discurso de dois candidatos, deveriam apontar qual deles parecia ser mais “presidenciável” e “mais digno de confiança”.

Os voluntários, porém, foram divididos em dois grupos. Para o primeiro, foi dito que os discursos haviam sido escritos para um momento em que a economia do país estava forte, a ponto de metade dos empréstimos para bancar a faculdade poderem ser perdoados e uma alta taxa de empregabilidade para jovens recém-formados. A outra parte dos participantes ouviu uma descrição oposta. Para esses, foi dito que a economia estava em recessão, o desemprego estava alto e as dívidas de universitários precisariam ser cobradas em um curto prazo.

Os resultados mostraram que o contexto econômico claramente influenciou a preferência dos universitários. O grupo para o qual foi traçado um cenário econômico positivo considerou mais adequado o discurso que dosava bem as palavras, composto de frases moderadas, como “Esta eleição apresenta uma escolha entre duas visões contrastantes para o nosso país” e “Seu voto é uma oportunidade para você expressar sua opinião sobre a direção do nosso futuro”. Já os participantes que tinham em mente um cenário econômico desolador, consideraram mais presidenciável o discurso com linguagem mais intensa, que incluía trechos como “Esta eleição é a mais importante da sua vida” e “Um voto para mim é um voto para a sua sobrevivência”.

“Se a economia está boa, as pessoas esperam que seu político se mostre estável, modulado, que use uma linguagem de baixa intensidade. Se os tempos econômicos são ruins, as pessoas esperam que seus políticos usem de alta intensidade emocional, uma linguagem inflada”, resume Clementson. “Isso pode acontecer porque o público não quer sempre o mesmo tipo de linguagem. É sobre expectativas. Os eleitores querem candidatos que reflitam como eles estão se sentindo naquele momento sobre o estado da economia”, complementa.

Trump e Hillary
Para o pesquisador, os resultados vistos ganham ainda mais validade quando se observa a situação política americana atual. Na avaliação de Clementson, o candidato republicano Donald Trump conseguiu surpreender na corrida à Casa Branca porque apostou em linguagem muito intensa voltada para um público que está insatisfeito com a situação atual do país. Já a candidata democrata busca dosar sua fala, porque, como candidata da situação, não pode pintar um quadro muito pessimista.

“Hillary Clinton usa em parte uma linguagem forte, afirmando que a economia não está boa para muitos americanos, mas ela também é menos propensa a usar a alta intensidade retórica. Sua linguagem, em geral, apela mais para aqueles que veem aspectos positivos da economia”, analisa o pesquisador.

Gilberto Godoy, psicólogo comportamental da Clínica Brasília, acredita que as conclusões do trabalho de fato refletem a realidade. “Esses resultados fazem muito sentido. Sabemos que o comportamento verbal é sempre adequado às contingências. Isso significa que, se você está tranquilo, você fala de uma maneira mais clara, mas, caso esteja indecisa, a pessoa pode demonstrar uma gagueira, uma inconstância na voz. Todos esses pontos são levados em conta na hora de criar um discurso político”, avalia o especialista, que não participou do estudo.

O psicólogo também vê relação com o que acontece hoje nas eleições americanas: “No caso de Trump, sabemos que ele estudou seu público principal, que é a classe média e conservadora americana, que está insatisfeita. E, para chamar a atenção dela, ele usa um perfil agressivo e radical”, destaca.

Escolha
De acordo com Godoy, esse tipo de estudo serve também para orientar melhor o eleitor na hora de escolher em quem vai votar. “Esses candidatos calculam tudo milimetricamente. Muitas pessoas estão por trás, montando essas falas. Por isso, é fundamental não acreditar apenas no que uma pessoa diz ou não, mas levar em conta a coerência do que ela já fez no passado e do que pode apresentar no futuro”, avalia. “Não podemos acreditar somente no seu comportamento verbal. Vemos muito isso nas relações amorosas também. Não adianta alguém dizer ‘eu te amo’, isso precisa ser traduzido em comportamentos, como cuidar e dar atenção.”

O brasileiro gostaria de ver os resultados apresentados no trabalho aprofundados. “Infelizmente, esses estudos nos dão apenas conclusões genéticas. Seria interessante saber qual a intensidade dessas falas, até que ponto o discurso emocional atinge os ouvintes, por exemplo.” Ampliar a compreensão sobre o tema é um desejo também dos autores do estudo, investigando a influência de outros fatores, além do contexto econômico. “Em etapas futuras, queremos incluir análises sobre o efeito das distintas linguagens dos políticos em situações diferentes. Isso nos ajudará a entender o que significa alguém agir de forma a parecer mas ‘presidenciável’ aos outros”, adianta Clementson.

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