Empoderamento feminino chega às histórias em quadrinhos

Agora, são mulheres que desenham as personagens e escrevem os roteiros, cada vez menos focados no sex appeal

por Juliana Contaifer 05/09/2016 15:00

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Fã da Marvel, saiba que Thor, agora, é uma mulher: a Deusa do Trovão é mortal e tem câncer de mama (foto: Divulgação)
As histórias em quadrinhos foram, por muito tempo, território masculino. Eram feitas por eles, para eles, como se mulher alguma tivesse interesse em ler aventuras de homens fortes e cheios de honra salvando o universo e mocinhas desamparadas dos mais variados problemas. Só que não são poucas as mulheres fãs de quadrinhos (muitas são autoras, inclusive). Em uma pesquisa do blog Papo de Quadrinho, especializado em HQs, descobriu-se que 31% dos leitores são do sexo feminino. A gigante Marvel apurou um número semelhante: 40%. Assim, as grandes editoras se dobraram às evidências e, finalmente, entenderam que precisavam criar identificação com esse público. E o primeiro passo foi oferecer personagens adequadas.

A sucessora do Homem de Ferro, por exemplo, é Riri, a IronHeart (Coração de Ferro), uma adolescente brilhante escolhida pelo próprio Tony Stark para tomar seu lugar. Já a cientista Jane Foster saiu do papel de namorada do Thor para se tornar, ela própria, a Deusa do Trovão, que, além de salvar o universo de milhões de ameaças, luta contra um câncer de mama. A nova Miss Marvel é Kamala Khan, uma adolescente muçulmana de origem paquistanesa.

Fora do cenário das grandes editoras, no mundo independente, as mulheres são ainda mais presentes. Seja em páginas da internet, blogs, no Facebook, seja em feiras dedicadas a fanzines e quadrinhos, as representações honestas de mulheres atuais, que não seguem padrões e lidam com dilemas e inseguranças, dão a tônica das heroínas contemporâneas. Em Brasília, são várias as meninas que se cansaram de procurar a própria voz nos quadrinhos disponíveis nas bancas e decidiram tomar o lápis e criar suas próprias aventuras.

As pioneiras 
As mulheres não são novidade no meio — elas roteirizam e desenham quadrinhos desde o século 19. Nos Estados Unidos, uma das primeiras quadrinistas a se destacar foi Jackie Ormes, uma mulher negra que publicava uma tirinha chamada Torchy Brown in “Dixie Harlem”. “A tira contava a história de uma jovem negra do Mississipi que buscava novas oportunidades nas metrópoles do norte. As tiras foram publicadas entre 1937 e 1938 no Pittsburgh Courier. Torchy representa a primeira personagem negra independente”, explica a professora de história e pesquisadora em histórias em quadrinhos Natania Nogueira.

Pouco depois, em 1940, a quadrinista Dale Messick lançou Brenda Starr, repórter. A personagem teve seu auge na década de 1950, quando era publicada em cerca de 250 jornais — era uma audaciosa jornalista e a revista contava suas aventuras. “Brenda representava, de certa forma, a mulher que deseja oportunidade para mostrar seu potencial e uma sociedade que não lhe oferece abertura. Messick rompeu com a hegemonia masculina nessa área e criou uma personagem que fez sucesso por mais de 70 anos”, conta a professora.

Na mesma época, June Tarpé Mills tornou-se a primeira mulher a escrever e ilustrar uma história em quadrinhos que tinha uma super-heroína como protagonista. A Miss Fury (Mulher Pantera, no Brasil) foi tão famosa que chegou a ultrapassar as vendas das revistas da Mulher-Maravilha.

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Sabe tudo: A personagem argentina Mafalda também é uma figura feminina muito importante no mundo dos quadrinhos. A menininha é cheia de opinião sobre assuntos variados, principalmente política. (foto: Divulgação)
Por aqui, as mulheres demoraram um pouco mais a entrar no mundo dos quadrinhos. Nair de Teffé foi a primeira brasileira caricaturista a publicar em periódicos nacionais e estrangeiros, em 1909, mas só em 1931, Patrícia Galvão, a Pagu, criou a tira Malakabeça, Fanika e Kabelluda para o jornal O Homem do Povo. Nos anos 1950 e 1960, o destaque ficou com a alemã Hilde Weber, que fazia charges políticas, e a paulista Ciça Pinto, autora da tirinha O pato, repleta de críticas veladas ao regime militar. “Mas os estudos sobre as mulheres nos quadrinhos no Brasil ainda são muito recente. Podemos descobrir muitas mulheres cartunistas que permaneceram anônimas”, afirma Natania Nogueira. A quadrinista e editora Ana Recalde lembra que era uma época diferente — as mulheres se casavam e deixavam a vida pública. Para continuar desenhando, muitas optavam por usar pseudônimos. 

Das piscinas para o papel
Com saudade das Olimpíadas? A nadadora húngara Katinka Hosszú, conhecida como Iron Lady, levou três medalhas de ouro e uma de prata no Rio e tem, desde junho, a própria revista em quadrinhos. Não é a nadadora que desenha, mas ela é a personagem principal. O gibi é mensal e já teve três edições publicadas. Por enquanto, a revistinha só está disponível em húngaro.

Piada infame
Uma das revistas mais polêmicas da DC é A piada mortal, de 1988, que conta a origem do vilão Coringa. A personagem Batgirl leva um tiro, fica paraplégica e é estuprada pelo vilão para chantagear o pai dela — um dos problemas é que o estupro é representado apenas para construir o arco dos personagens masculinos, nunca vemos a visão da mulher que passou pelo trauma. Este ano, a HQ foi transformada em uma animação para o cinema — e a trama não foi atualizada, o que rendeu muitas críticas.

Maitena e Radical Chic 
Duas tirinhas foram essenciais no desenvolvimento do público leitor feminino nos anos 1980 e 1990. Mulheres alteradas, criada pela cartunista argentina Maitena Burundarena, e  Radical Chic, do quadrinista Miguel Paiva. Ambas inovaram ao retratar a mulher moderna, preocupada com a realidade e em busca de equilíbrio na vida pessoal. 

Mariamma Fonseca, Samara Horta e Samanta Coan: idealizadoras do site que se tornou referência

A falta de identificação
“Somos mal representadas. A produção de HQs era majoritariamente masculina — homens brancos e heterossexuais contando histórias sobre diferentes pessoas. Quando a gente lê, não consegue se identificar. As pessoas têm mania de dizer que quadrinhos é para menino, mas é porque as histórias são sempre contadas por eles. Quando a gente vê que existem mulheres falando do ponto de vista delas, a gente se reconhece”, explica Mariamma Fonseca, 28 anos. A ilustradora é uma das fundadoras do site Lady’s Comics, considerado uma referência em quadrinhos para mulheres.

Fã de quadrinhos desde criança, Mariamma morava no interior da Bahia e não tinha muito acesso. “Era super-herói ou Turma da Mônica. Eu não sabia que era uma profissão, fui descobrir só na faculdade. É uma mídia muito ampla e gosto muito de pesquisar o assunto”, conta. Em 2010, a jornalista e ilustradora teve a curiosidade de descobrir quem eram as mulheres que faziam quadrinhos. Perguntou para muita gente do ramo, e ninguém soube responder. Tampouco achou as meninas perdidas pela internet. Foi quando resolveu abrir o site. “Chamei a Samanta Coan, que é designer e gosta de mangá, que eu não conheço, e a quadrinista Lu Cafaggi. Começamos a pesquisar. Participamos de encontros de quadrinhos, fomos em sebos, em bibliotecas, em feiras. Achamos muitas quadrinistas. Elas não se conheciam e não tinham nenhuma visibilidade”, conta a ilustradora.

Ilustração de Ana Luiza Koehler para o Lady's Comics
A partir daí, o Lady’s Comics foi criando outra forma. Tornou-se uma rede de divulgação. A jornalista Samara Horta se juntou ao grupo fixo e outras 10 colaboradoras escrevem ou criam quadrinhos para o site. E não são só brasileiras — o grupo busca pessoas de outras regiões e outros países. Conta com correspondentes na França, na Argentina e na Espanha para discutir a produção internacional.

“Hoje a gente vê mais representação porque discutimos o assunto. Fazemos encontros presenciais com as meninas que seguem e participam do site. No último, fizemos um crowdfunding para trazer convidadas chilenas e argentinas para participar dos debates. Sentamos para discutir a questão da representação”, conta Mariamma. O evento aconteceu em Belo Horizonte, durante a Feira Internacional de Quadrinhos (FIC). Tradicionalmente, as feiras têm mesas de debate sobre mulheres nos quadrinhos, mas, apesar de importante, fechar o grupo acaba limitando a discussão. Foram 34 convidadas, e a FIC recebeu duas mil pessoas em três dias.

Um encontro como esse é importante não só por mostrar para as meninas que elas não estão sozinhas na produção de HQs, mas para discutir problemas que todas passam, não importa a idade ou região onde vive. “O primeiro encontro foi uma das coisas mais bonitas que eu já vi. Não sabia que existiam tantas mulheres fazendo quadrinhos, tinha a impressão que estávamos muito espalhadas. Pra mim, foi um marco. Quando nos olhamos e vimos que éramos tantas, deu um estalo. Ali, eu vejo que realmente rolou um renascimento”, conta Ana Recalde, quadrinista e editora da Pagu Comics.

Mas o mundo dos quadrinhos ainda é muito masculino, muito machista e não reconhece devidamente o talento delas. “O mercado reflete o que o mundo é. Há o estigma de que mulher tem traço fofo, ou que só faz história autobiográfica, de menina, quando não é. O cenário vai mudando, mas ainda tem muito pela frente. Poucas editoras publicam mulheres no Brasil”, explica Mariamma.

O que mais chamou a atenção das organizadoras durante o último encontro foi a insegurança das autoras. Algumas chegaram a pedir desculpa por apresentar um quadrinho diferente. “Saímos de lá com esse debate sobre a gente começar a se sentir mais segura pelo que fazemos. Precisamos começar a nos apresentar como quadrinistas para criar uma segurança, para que sejamos mais vistas. Tenho ficado cada vez mais otimista”, resume.

Divulgação garantida
A roteirista Roberta Araujo, 24 anos, teve a ideia de criar no Facebook o perfil Mulheres nos Quadrinhos. A página, que começou despretensiosa em 2012, hoje é a maior de divulgação de quadrinhos da América Latina. “A ideia era abrir um espaço para as meninas que produzem quadrinhos, para que possam receber feedback. Vejo que elas vão fazendo histórias cada vez mais incríveis e profissionais, trabalham com mais força, ralam muito para conseguir lançar o trabalho”, conta Roberta. E quem começa agora tem lugar para procurar informações, descobrir cursos profissionalizantes e um espaço garantido para vender o próprio peixe. 

Mangá como porta de entrada 
Sendo a maioria das histórias em quadrinhos feitas para meninos, como as meninas passam a se interessar pelas histórias? Como são quase 40% dos leitores da Marvel? A editora Ana Recalde conta que as clássicas revistinhas da Turma da Mônica, desenhos animados e os grandes blockbusters de super-heróis que estreiam a cada ano são muito importantes para introduzir as crianças ao mundo das narrativas gráficas. Mas um dos movimentos mais importantes foi a chegada dos mangás ao Brasil. Se as meninas custavam a se identificar com as personagens que estampam as histórias, os quadrinhos japoneses trouxeram algo inédito: segmentação. “Eles têm mangás para meninas, para meninos, para idosos, para empresários, para adolescentes, para senhoras… Muitas das meninas que gostam de quadrinhos entraram nesse mundo por aí”, conta Ana. Mas não é algo excludente, nem só as fãs de mangás se tornaram grandes fãs de quadrinhos — a editora explica que conhece meninas que não leram nem os quadrinhos japoneses nem americanos mas que, hoje, são leitoras assíduas de fanzines.

Fenômeno em Brasília, a tirinha Garota Siririca é uma criação da desenhista lovelove6

“Quer saber? Eu vou fazer!”
“A ideia da Garota Siririca surgiu a partir das minhas experiências com a minha sexualidade. Tenho umas reflexões a respeito do feminismo e, quando comecei a me explorar mais sexualmente, cheguei à conclusão que eu devia tentar me masturbar para ter um orgasmo, que, aos 22 anos, eu nunca tinha tido. Foi muito chocante perceber que o problema não era comigo e comecei a questionar isso como um problema social e cultural. Percebi que há uma ausência muito grande de diálogo sobre o assunto e não achei nenhum quadrinho que falasse de masturbação ou um trabalho nacional que tivesse uma abordagem feminina dos temas. Resolvi fazer, achei que estava faltando”, conta lovelove6, a autora de um dos quadrinhos mais famosos e importantes da cidade.

Surgida em 2013, a Garota Siririca não foi o primeiro trabalho da quadrinista, que já fazia tirinhas e publicava fanzines. E, apesar do tema polêmico, lovelove6 explica que a receptividade do material é muito boa. Recebe vários e-mails de leitoras contando como as aventuras da personagem influenciaram suas vidas. “Terminei a licenciatura em artes plásticas e acho que tem muita influência no meu trabalho. A Garota Siririca é, de vez em quando, didática. O conteúdo choca um pouco, mas acaba sendo divertido, é um livro de humor”, analisa. O próximo passo é um projeto de perguntas e respostas sobre a masturbação e a vulva.


Lovelove6 conta que, até 2013, era muito difícil ser mulher e fazer quadrinhos. Foi com o Zine XXX, uma publicação que reuniu apenas mulheres, que a cena começou a mudar. Era muito concentrada em figuras masculinas e tomada por uma mentalidade muito machista. O meio acabava desanimando as autoras e as leitoras, que não se identificavam e não viam como participar daquele cenário. “Hoje é diferente. Várias autoras foram surgindo — a gente criou uma rede de apoio pela internet. Agora o feminismo vai tendo uma visibilidade bem maior na sociedade em geral. As mulheres feministas vão forçando mais visibilidade. As grandes editoras ignoraram até onde puderam o movimento e o mundo feminino, mas vão começando agora a se dobrar, a pensar em novos títulos”, explica a quadrinista.

E é fácil acompanhar as novas aventuras da Garota Siririca — toda a produção é publicada na internet para leitura on-line e gratuita. Quando há um volume suficiente de material, um livro é impresso e colocado à venda na loja on-line (lovelove6.com). As feiras de publicações independentes da cidade também contam sempre com uma banquinha com os trabalhos de lovelove6. Apesar do sucesso e do longo caminho que o trabalho das mulheres percorreu, a quadrinista conta que ainda escuta os mesmos argumentos superficiais de sempre para desestimular a produção. “A gente ainda escuta coisa no nível ‘vai lavar louça’. O meio social ainda é difícil e é muito complicado ganhar dinheiro com quadrinhos. Mas a nossa rede tem se expandido, várias autoras têm persistido ao desestímulo, à falta de visibilidade, ao machismo. Sou otimista para o futuro.”

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Estudante de design, Ana Terra vem conquistando espaço com o perfil Extraterrestre, no Facebook (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)

Plataforma de lançamento
Uma excelente porta de entrada para as meninas que decidem se aventurar no mundo dos quadrinhos, tanto lendo quanto produzindo, é a internet. É um espaço democrático e gratuito onde qualquer um pode expor seu trabalho. A maioria das novas autoras começa assim. É o caso da estudante de design Ana Terra Fensterseifer, 22 anos. “Quando eu era bem pequena, já queria desenhar, fazia aula de desenho, oficina de arte. A primeira vez que eu fiz um quadrinho e eles foram vistos foi na faculdade, em 2012. Eu tinha um professor muito engraçado, e resolvi fazer uns quadrinhos dele. Mandei só no grupo dos amigos, e as pessoas gostaram. Foi divertido”, conta. A partir disso, Ana passou a desenhar tirinhas, desta vez sobre o próprio cotidiano.

Em 2014, criou a página Extraterrestre, no Facebook, em uma brincadeira com o próprio nome e o sentimento de estar em um lugar ao qual não pertence. Lá, publica as tirinhas e ilustrações que faz no dia a dia. “É muito legal postar e ver que as pessoas gostam, compartilham e comentam. Gosto de publicar uma tirinha e ver o caminho que ela faz, descobrir pessoas novas que vão compartilhando”, explica. Fala sobre corpo, cotidiano, sexualidade. A rede social também é interessante para mapear os seguidores, já que oferece estatísticas das curtidas — a maioria dos leitores de Ana Terra, por exemplo, é mulher e tem menos de 30 anos.

A quadrinista conta que escreve com isso em mente. “É o público que me interessa, que precisa de mais conteúdo. Quando a gente se representa, vem com uma profundidade muito maior, tem coisas que só nós conhecemos, que só nós entendemos”, afirma. E o mercado vem, ainda que devagar, enxergando a necessidade e a demanda femininas. Quanto mais se discute o assunto, mais as pessoas entendem. 

Uma evolução da partilha na internet são os canais de assinatura de web comics. A Pagu Comics, da quadrinista e editora Ana Recalde, por exemplo, fica hospedada no Social Comics. Basta fazer um cadastro no site e pagar a mensalidade para ter acesso às histórias. “Fui contatada pelo pessoal para montar um selo, eles perceberam que existia uma defasagem entre o número de leitoras e autoras. Como era um selo feito por mulheres, fui buscar em várias partes do país e descobri, por exemplo, que o Nordeste tem muitas quadrinistas. Queria mostrar como são as mulheres de cada região e qual é a visão delas. Queria entregar histórias universais escritas e protagonizadas por elas”, enfatiza.

A recepção do trabalho, que tem três publicações on-line, tem sido excelente. Os primeiros títulos, inclusive, receberam ótimas críticas da mídia especializada. As empoderadas, a estreia do selo, por exemplo, conta a história de três mulheres fora do padrão que foram atingidas por um fenômeno solar e ganharam poderes. É um sucesso. “A internet não tem a barreira que o papel tem. Eu produzo aqui e uma pessoa no Amazonas pode ler”, afirma Ana.

A editora explica que a internet possibilita não só a distribuição e a leitura, mas garante que meninas de todos os lugares tenham acesso a cursos profissionalizantes on-line. Para fazer sua parte na popularização dos quadrinhos nacionais, Ana partiu para uma abordagem mais ativa. No Natal e nos aniversários, amigos e famílias só ganham quadrinhos. “Minha mãe gosta de música, comprei um quadrinho que fala de blues, por exemplo. A galera mais velha ainda fica de fora dessa cena, ainda há um pouco de resistência.”

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Taís Koshino e seu zine: personagens mais densas (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
Narradoras visuais
Durante a faculdade, a cineasta Taís Koshino descobriu que não queria fazer filmes. A rotina puxada, o exaustivo trabalho de produção, a equipe de mais de 30 pessoas. Era tudo demais. Nessa época, voltou a ler quadrinhos — saiu das histórias de criança para graphic novels, onde descobriu um espaço cheio de potencial. “Vi no quadrinho um lugar onde eu podia jogar com essa narrativa visual mas que posso fazer sozinha, em casa, sentada, na hora que eu quiser. Em 2011, lancei, com a Livia Viganó, o selo Piqui e o nosso primeiro zine, o Piqui c’açúcar”, lembra a quadrinista.

A ideia do selo, que já conta com 16 edições, é publicar as histórias feitas pelas duas sem depender das editoras predominantemente masculinas. Não é fácil. “A gente vem fazendo um trabalho sério desde 2011, mas, de repente, aparece um cara que publica esporadicamente, ou um que não fez nada de diferente pra movimentar a cena e tem muito mais visibilidade. Meu trabalho não é pior do que o dele, a questão é que os homens todos compartilham”, explica Taís. Ela conta que aprendeu muito com o lançamento da última publicação do Piqui, o Topografias, que une seis autoras, algumas de outros estados, que se conheceram na FIC. Apesar de o público do selo ser misto, a maioria das curtidas e compartilhamentos vem delas. Os homens não se engajam.

Mas as mulheres, sim, são um público interessado. Nessa nova leva de quadrinhos, elas finalmente começam a se reconhecer nas histórias de protagonistas que têm o corpo longe do padrão das super-heroínas, com dilemas com os quais a maioria das mulheres se identifica. Taís avalia que as personagens femininas criadas pelos homens são, na maioria das vezes, rasas. São coadjuvantes. “Criar uma personagem mulher é muito mais difícil, e sei pela minha vivência enquanto mulher. Claro que eles podem construir personagens femininas, basta ter comprometimento, estudo, seriedade e uma boa história”, explica.

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O projeto Hawkeye destrói estereótipos com bom humor (foto: Divulgação)

Hipersexualização em debate
Mas a representação das mulheres não é só feita por elas. No fim das contas, a maioria das HQs é roteirizada e desenhada por homens. “O quadrinho era criado para eles. Quando o produto cultural é feito para o homem olhar e consumir, a tendência é sexualizar, tornar a figura feminina coadjuvante”, explica Ana. No início dos quadrinhos (e até pouco tempo atrás), as mulheres eram esposas recatadas ou meretrizes. Se saiam um pouco do esperado pela sociedade, eram repreendidas e julgadas. Enquanto isso, nas tirinhas de aventura, as super-heroínas têm trajes apertados ou minúsculos, lutam contra o crime em saltos desconfortáveis e estão sempre em posições nada naturais.

O cenário continua mais ou menos o mesmo até hoje, mas a ilustradora americana Renae de Liz, que trabalha na DC Comics, reacendeu o debate com um guia ilustrado de como não objetificar a super-heroína. Os braços devem ser fortes; a expressão facial deve dar destaque aos olhos e não à boca; o decote deve ser confortável e o desenho dos seios deve levar em consideração que um top ou sutiã esportivo seria a melhor escolha para combater o crime. Desde que publicou o guia em seu perfil no Facebook, o post foi compartilhado mais de três mil vezes e Renae tem recebido desenhos de ilustradores preocupados em fazer as figuras femininas mais próximas à realidade.

Outro projeto interessante que tenta expor a diferença da representação das mulheres e dos homens nos quadrinhos é o The Hawkeye Project. A página do Tumblr lança o desafio: substitua uma heroína hipersexualizada pelo personagem Hawkeye (Gavião Arqueiro, em português), na mesma posição e em trajes similares. O resultado são ilustrações divertidas do personagem desconfortável e fazendo piadas sobre bumbuns empinados e roupas muito coladas. Alguns dos leitores mais empolgados fazem fotos de si mesmos mostrando  quão surreal é a posição.





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