Falta de sincronia no sono compromete qualidade dos casamentos

O impacto negativo sobre a convivência é mais sentido pelas mulheres

por Isabela de Oliveira 18/08/2016 16:00

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CB/D.A Press
A privação constante do sono aumenta o risco de problemas de saúde física, como diabetes tipo 2 e hipertensão (foto: CB/D.A Press)
Os benefícios do casamento para a saúde são amplamente documentados, com um dos principais estudos datando de 1897, ano de publicação do clássico Suicídio, de Emile Durkheim. Na obra, o estudioso francês aponta que os casados gozam de melhor saúde física e mental, tendo, inclusive, menor risco de atentar contra a própria vida, em relação aos solteiros. No entanto, nas últimas décadas, pesquisas têm mostrado que nem todos os casamentos são benéficos. Por exemplo: a falta de sincronia nos horários de dormir, sugerem pesquisadores da Universidade Estadual da Flórida, nos Estados Unidos, pode ser um ponto de tensão capaz de comprometer a convivência doméstica.

Segundo os autores, em média, um terço dos adultos casados ou que vivem juntos diz que os problemas no sono afetam o convívio negativamente. “O sono dos casais é mais sincronizado do que o de indivíduos aleatórios. Isso sugere que os nossos padrões de sono são regulados não somente pelo quanto dormimos, mas também pela pessoa com quem dormimos. Quase tudo que sabemos sobre o sono vem de estudos individuais. No entanto, para a maioria dos adultos, o sono é um comportamento compartilhado entre parceiros de cama”, explica Heather Maranges, principal autora do estudo.

A privação constante do sono aumenta o risco de problemas de saúde física, como diabetes tipo 2 e hipertensão. Além disso, tributa pesadamente na função cognitiva, uma capacidade imprescindível para a manutenção das relações sociais. Como o sucesso de um casamento depende de exercício mental contínuo, os pesquisadores imaginaram que a qualidade do descanso poderia influenciar na forma como as pessoas vivem seus relacionamentos. Afinal, eles dizem, o repouso participa da autorregulação e do autocontrole, afetando a forma com que as pessoas enxergam a rotina, inclusive de relacionamentos.

Para chegar a essa conclusão, Heather Maranges e o investigador sênior Jim McNultry avaliaram diariamente 68 casais recém-casados. Todos os dias, durante uma semana, os participantes relataram como se sentiam diante da satisfação global com o relacionamento e com experiências cotidianas, como divisão de tarefas, resolução de conflitos e tempo gasto juntos. A análise dos resultados, recentemente publicados no Journal of Family Psychology, mostrou que os cônjuges estavam mais satisfeitos nos dias em que dormiam um pouco mais do que o normal.

Segundo Maranges, casais que dormem mais tempo não são, necessariamente, mais satisfeitos com o seu casamento, o que sugere que os benefícios não são promovidos pelo número de horas dormidas em si, mas pela qualidade do sono. O estudo também constatou que, ao dormirem mais, os maridos se mostraram menos sensíveis aos possíveis problemas de convivência que as mulheres, sugerindo que uma boa noite de sono, sobretudo para eles, dissolve as ocorrências negativas do casamento.

Chol Shin, do Departamento de Medicina Interna da Korea University Ansan, na Coreia do Sul, explica que a sensação de segurança, inclusive emocional, é essencial para uma boa noite de sono. “No entanto, casamentos de baixa qualidade induzem humor negativo e alto estado de alerta, que podem contribuir para o sono ruim. Ou seja, as pessoas com sono perturbado muitas vezes apresentam alta irritabilidade e baixa tolerância a estímulos negativos, o que, por sua vez, pode promover interações conflituosas entre os parceiros. É um círculo vicioso de insatisfação no sono e no relacionamento”, explica Shin, que não participou do estudo.

Insatisfeitas
Maranges observa, porém, que pesquisas anteriores à dela mostraram que a capacidade de sincronizar ou não os padrões de sono de um casal influencia muito mais a satisfação da mulher. A equipe liderada por Martica Hall, professora do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, acompanhou os padrões de sono de 46 casais ao longo de 10 dias. Cada participante foi convidado a avaliar o seu relacionamento.

Os resultados, publicados em 2014 na revista especializada Sleep, mostraram que os casais passavam 75% do tempo juntos e que os momentos compartilhados aumentavam com a satisfação das esposas. Também da Universidade de Pittsburgh, Wendy Troxel relatou, em um estudo de 2010, que os casais brigavam mais quando as mulheres dormiam menos. As que demoravam para adormecer relatavam mais problemas de relacionamento no dia seguinte, o que afetava o comportamento dos maridos.

Um levantamento do The Better Sleep Council — organização americana sem fins lucrativos dedicada a fornecer informações sobre o sono — mostrou, no início deste ano, que a dificuldade para sincronizar o sono faz com que um quarto dos adultos dos EUA prefira dormir sozinho e que 20% deles sonhem com suítes separadas. Novamente, as mulheres relataram uma sensibilidade maior ao ambiente. Porém, assim como elas, os homens também apontaram ronco ou movimentação do parceiro como elementos de desconforto na hora de dormir.

Apesar disso, há evidências de que dividir o mesmo leito (em paz) é saudável. Isso porque, para muitos casais, a hora de dormir é a única oportunidade de ficarem sós. A proximidade física, mesmo sem sexo, estimula o hormônio ocitocina, que reduz o estresse e promove a intimidade. Por isso, mesmo que os horários sejam diferentes ou dormir junto não seja a melhor parte do relacionamento, vale a pena dispensar algum tempo de intimidade na cama.

Para casais que têm dificuldade em compartilhar os leitos, a Fundação Nacional do Sono sugere comprar um colchão maior, ou de melhor qualidade, a fim de melhor absorção do movimento do(a) companheiro(a). Cobertores separados também são uma boa pedida, por permitirem que cada indivíduo controle a própria temperatura sem restringir a preferência do outro.


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