Transmissão da bactéria que provoca cárie ocorre principalmente entre crianças

Descoberta dos cientistas reforça a ideia de que a principal forma de transmissão não é de mãe para filho. Resultado reforça a importância de novas estratégias preventivas

por Vilhena Soares 05/08/2016 10:36

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Brasília – A bactéria Streptococcus mutans é uma das principais causas do problema bucal mais comum na população mundial: a cárie. Estudos levaram cientistas a acreditar que a transmissão do micro-organismo se dava principalmente de mãe para filho, mas uma investigação realizada por pesquisadores dos Estados Unidos acaba de mostrar que o maior contágio ocorre entre crianças: irmãos, coleguinhas e primos. A descoberta, baseada em análise genética, serve de alerta para a importância de cuidados bucais extras no início da vida.

“A literatura nos diz que, geralmente, essa bactéria vem das mães. Isso ocorreria porque, comumente, temos uma maior interação com elas quando somos muito jovens”, explicou, ao Estado de Minas, Stephanie Momeni, pesquisadora do Departamento de Biologia da Universidade do Alabama e uma das autoras do trabalho, divulgado no encontro da Sociedade Americana de Microbiologia, no mês passado, em Boston. Por desconfiar da teoria, a especialista realizou um experimento com um grande grupo de participantes.

Stephanie e equipe analisaram 119 crianças norte-americanas com baixa renda – segundo especialistas, a cárie é mais frequente em grupos socioeconômicos carentes. Os participantes viviam com pelo menos um membro da família e tinham entre 12 e 18 meses e entre 5 e 6 anos. Os pesquisadores coletaram amostras de saliva dos participantes e parentes periodicamente ao longo de oito anos para análise minuciosa de DNA.

Os resultados indicaram que 28% das crianças tinham as mesmas estirpes da bactéria presentes nos familiares e 72% dos pequenos apresentaram pelo menos um genótipo da bactéria que não era compartilhado com os parentes. “Nossos dados suportam que as crianças que interagem com outras crianças na escola ou em outros ambientes podem, por muitas vezes, passar e/ou contrair essa bactéria umas das outras”, detalhou a autora.

A cientista indica dois fatores que tornam a pesquisa inédita. Segundo ela, estudos anteriores demonstraram que os meninos e as meninas podem compartilhar genótipos da Streptococcus mutans com outras pessoas com quem eles têm interações além da mãe. “Mas a nossa investigação é única porque avaliamos toda a família e fizemos a análise olhando os dados por criança e pelos genótipos. Esse segundo componente nos permitiu incluir estirpes que normalmente não são inclusas em outros trabalhos”, comparou.

Novo foco Para Fernando Buranello, cirurgião-dentista e especialista em ortodontia, o trabalho americano rompe paradigmas ao mudar o foco de uma das principais causas da cárie com uma análise minuciosa, que merece destaque. “Sempre achamos que essa transmissão realmente ocorresse entre mãe e filho, mas, agora, vemos que ela pode ter como origem outras crianças. Por meio do DNA da bactéria, eles conseguiram identificar a sua origem e em um grupo alto de participantes, o que agrega mais importância aos achados”, avalia.

Buranello destaca ainda as implicâncias preventivas do resultado apresentado. “Se pensarmos que as crianças estão em contato com outras na escola, ainda mais durante a fase oral, em que levam muitos objetos que são compartilhados à boca, a transmissão observada no trabalho faz muito sentido”, opinou. Segundo Stephanie Momeni, o trabalho reforça a necessidade de considerar essa via de contágio como causa possível da cárie. “Isso pode render avaliações de risco, estratégias de prevenção e tratamento”, complementou.

Os cientistas destacaram que mais pesquisas precisam ser feitas, com um método de análise alternativo ao que foi usado na pesquisa para que os achados possam ser confirmados. Eles também ressaltaram que alguns membros da família não quiseram participar do experimento, o que pode ter afetado o resultado final. Apesar disso, frisam que cuidados quanto à transmissão da bactéria que provoca a cárie podem ser tomados pelas famílias durante o crescimento dos filhos, com maior atenção em ambientes compartilhados e dentro de casa. “Não estamos tentando dizer para não beijar os seus bebês. Beijar os seus filhos tem efeitos psicológicos, bem como, possivelmente, biológicos, que são positivos e importantes para o desenvolvimento infantil”, ressalta a autora.

Buranello também acredita que mais cuidado deve ser tomado em relação à transmissão da Streptococcus mutans, mas destaca que outros fatores também pesam para o surgimento da cárie. “Assoprar a comida para o filho, por exemplo, é um dos atos que podem acabar por compartilhar a bactéria, mas é importante ressaltar que o cuidado com a higiene e com a dieta são importantes também. A escovação depois das refeições, principalmente durante a noite, em que a salivação responsável por manter o pH é reduzida, é essencial por ajudar a prevenir a cárie”, detalhou.

Mais desafios Os investigadores darão continuidade ao trabalho e pretendem encontrar novas maneiras de combater o problema bucal por meio da compreensão da bactéria que causa a cárie. “Esses achados serão de grande interesse para pesquisadores que pensam em tratamentos focados nas mães. Os nossos dados sugerem que, mesmo se a mãe for tratada, outras fontes podem preencher esse vazio”, diz Stephanie.

A equipe também planeja catalogar os genótipos detectados no estudo e mais comumente associados com a cárie para fazer uma melhor avaliação de risco de cárie, além de desenvolver tratamentos promissores. “Seriam abordagens direcionadas para cada estirpe. Quanto mais entendermos sobre a doença, quanto melhor nós pudermos projetá-la, mais estratégias preventivas, como antimicrobianos e vacinas, podem surgir”, aposta a autora.

POUCO AÇÚCAR A Organização Mundial da Saúde (OMS) prega que maiores benefícios à saúde estão relacionados ao consumo de açúcar equivalente a 5% das calorias ingeridas por dia, algo em torno de 25g do produto. Para combater efetivamente o surgimento da cárie, o índice cai para 3%. As taxas, porém, são um desafio para o Brasil. Segundo o Ministério da Saúde, um em cada cinco brasileiros consome doces em excesso, cinco vezes ou mais na semana. A prática é ainda maior entre os jovens: 28,5% da população de 18 a 24 anos tem alimentação com excesso de açúcar.

 

PALAVRA DE ESPECIALISTA

Erros na primeira dentição

David Edson Alves Carvalho, cirurgião-dentista do Instituto Odontológico Dr. David Carvalho, em Brasília

“A cárie é um problema multifatorial. Você pode ter a bactéria na boca e não desenvolver a doença, caso tome os cuidados necessários. O que eu vejo muito nos consultórios é que os pais negligenciam a primeira dentição dos filhos. Não tomam cuidados importantes porque acreditam que ela vai ser trocada e, então, deixam de se preocupar. Isso, porém, é perigoso. Vemos os efeitos pelo maior índice de perda de dentes dos adultos, que são os primeiros molares, os que já nascem permanentes e, por isso, acabam sendo os mais prejudicados.”

Boca Livre

Confira a porcentagem de pessoas que não têm cárie no Brasil,conforme a faixa etária

5 anos 46,6%
12 anos 43,5%
Dos 15 aos 19 anos 23,9%
Dos 35 aos 44 anos 0,9%
Dos 65 aos 74 anos 0,2%


Fonte: Pesquisa Nacional de Saúde Bucal

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