Educação 3.0 é personalizada, colaborativa e empodera crianças e adolescentes

Para especialistas, de nada adianta inserir aparatos tecnológicos sem mudar a metodologia

por Valéria Mendes 01/08/2016 10:00

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Jair Amaral/EM/D.A Press
"Mais do que conteúdo, a função do professor é nos ajudar a sermos pessoas melhores. A minha ideia pode não ser igual a dele, mas no debate, a gente aprende a respeitar a opinião do outro. Para mim, o papel do professor é colocar a gente no caminho certo para que a gente consiga aprender" - Lírian Alves Gomes de Oliveira, 14 anos (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
"Temos uma escola do século 19, um professor do século 20 e um aluno do século 21." A frase do especialista em educação Mozart Neves Ramos já se tornou um clássico e ilustra bem o desafio de despertar nas crianças e adolescentes o interesse pelo aprendizado em sala de aula. Que os projetores e computadores já estão no ambiente escolar e os smartphones nas mãos de alunos e alunas é uma constatação cada vez mais crescente, principalmente nos colégios particulares. Já se fala até em Educação 3.0, com tantos aparatos tecnológicos à disposição. Mas colocar objetos de última geração dentro das escolas é suficiente para falar a mesma língua do jovem?

O professor de química Gilson Rodrigues Alvarenga leciona há 17 anos tanto em escola pública quanto em particular. Atualmente, dá aulas no Colégio Santa Marcelina, em BH, e é consultor do Kroton Educacional. Para ele, o uso de tecnologia dentro de sala de aula ajuda, sim, a despertar o interesse dos jovens pelo conteúdo, mas, para ele, de nada adianta inserir aparatos tecnológicos sem mudar a metodologia. “Transportar o conteúdo do quadro para a tela não é suficiente. Qual a diferença em projetar ou pendurar uma tabela periódica em sala de aula? Hoje, um aluno é capaz de montar uma animação sobre o assunto que o professor está falando em tempo real. Tem educador que leva slides rígidos achando que está adaptado às novas tecnologias, mas essa geração vai além”, diz.

A estudante do sétimo ano do Colégio Santa Marcelina, Laura Bandeira Menezes dos Santos, de 12 anos, quase não leva mais caderno para a sala de aula. Tudo que ela anota – se anota, já que o Power Point do conteúdo apresentado estará disponível na web – é no celular. “A tecnologia deixa a aula mais atrativa e o aluno presta mais atenção. Mas é fato que o professor explica melhor do que o conteúdo que a gente acessa na internet. Para mim, a tecnologia ajuda a gente a estudar, mas as aulas são fundamentais porque o professor dá exemplos, contextualiza, explica o mesmo assunto de modos diferentes. Os professores são muito melhores do que a internet”, afirma.

Gilson Rodrigues concorda com a jovem. “Jamais uma máquina – por mais interativa que ela seja – vai substituir o professor. O ser humano está preso aos cinco sentidos para se apropriar do conhecimento. A tecnologia é um acessório no processo educativo e não podemos navegar nos extremos. O que percebo é que estamos – escola, professores, alunos – chegando a um ponto de equilíbrio”, sintetiza. O professor de química ressalta que o aluno precisa de vivência para internalizar o conteúdo. “As interações e as relações são as que levam ao conhecimento e ao aprendizado. A nossa memória, a nossa apropriação de informações depende também das interações”, salienta.

Vanessa Oliveira
Sofia Fada, CEO da Kriativar, durante oficina de implantação da plataforma no Colégio Nossa Senhora das Dores. Na foto, os estudantes Marcelly Leal, Artur Colares e Amanda de Pádua (foto: Vanessa Oliveira)

PROTAGONISMO
Escritora, autora do livro O menino revirado e empreendedora na área de educação e tecnologia, Sofia Fada defende que escola, professores e família devem estar em harmonia para garantir o desenvolvimento do potencial criativo de meninos e meninas que, segundo ela, precisa e deve ser compartilhado. Ela é CEO da plataforma Kriativar que é um ambiente digital em que os jovens podem criar, cocriar e compartilhar conteúdos que incluem textos, desenhos e livros. “As escolas tendem a ir para a padronização, mas eu acredito na personalização. A ideia da Kriativar foi inspirada na história do meu filho, o João Gabriel, que sempre gostou de desenhar. Quando ele tinha 12 anos criamos o site Um dragão por dia e seus desenhos começaram a fazer sucesso. Incentivando seu potencial criativo, não foi só o traço que melhorou, mas ele ficou mais comprometido, disciplinado, melhorou a autoestima e desenvolveu o gosto pela leitura escrita”, relata.

Sofia Fada diz que o filho teve dificuldade na alfabetização e se chegou a cogitar que ele tivesse dislexia. “Investir no seu potencial criativo possibilitou que ele pudesse desenvolver outras habilidades. Hoje, aos 14 anos, João Gabriel já tem um livro de 100 páginas escrito”, conta.

A Kriativar é uma das startups selecionadas no Startups and Entrepreneurship Ecosystem Development (Seed), programa de aceleração de startups do governo de Minas Gerais. A empresa também venceu o concurso InovaApps, do Ministério das Comunicações, e é uma das apostas do Baanko Challenge, iniciativa que ajuda a colocar plataformas digitais no mercado. A Kriativar está em fase de testes no Colégio Nossa Senhora das Dores, na capital mineira, e deve ser colocada no mercado em breve. “A Educação 3.0 é colaborativa e pressupõe estar ao lado do filho e estar ao lado do aluno para construir com ele e colaborando para o aprendizado”, sintetiza Sofia Fada.

Para ela, apesar de a tecnologia dar conta da subjetividade do ritmo de desenvolvimento e interesse de cada criança e adolescente, a avaliação ainda é um desafio. “A tendência é que a própria avaliação seja mais personalizada porque cada aluno ou aluna aprende e expressa a experiência em relação a determinado assunto de um jeito diferente. Obviamente, no final, todos serão cobrados no Enem, mas dá para caminhar para a personalização sem deixar de instruir meninos e meninas para as provas, mas sem essa neura de preparação para o vestibular porque o mais importante na educação é preparar para a vida”, defende.

Coordenador de Ciências da Natureza do Colégio Sagrado Coração de Jesus, o professor de química Hélio Vilaça acredita que a tecnologia facilita o aprendizado do aluno em relação a conceitos mais subjetivos e que hoje, com as simulações em 3D, é mais simples, por exemplo, explicar o que é uma reação atômica já que o estudante tem a compreensão visual e física do conceito. “A tecnologia é uma ferramenta de apoio que aumenta a possibilidade de entendimento, a capacidade de associar o conteúdo a algo do cotidiano, mas que precisa ser mediada pelo professor para que a informação se transforme em conhecimento. É um caminho sem volta e os profissionais da educação precisam estar aptos a mediar essa relação. Na educação contemporânea, não podemos desprezar os valores que os jovens trazem para a sala de aula e um deles é o uso da tecnologia”, diz.

O que o jovem pensa
Lírian Alves Gomes de Oliveira, de 14 anos, está na oitava série e cita como as aulas de biologia ficaram mais interessantes e instigantes depois que a turma começou a usar o sobiologia.com. “O aprendizado fica mais gostoso, a gente consegue ver o organismo funcionando, os movimentos que os órgãos fazem em conjunto. Como é algo que a gente enxerga, conseguimos absorver melhor as funções do organismo”, exemplifica. Assim, para a garota, o processo de aprendizado deixa de ser decoreba para ser internalizado. A mesma coisa com geografia. “A gente estava estudando as Américas e mais do que falar, o professor consegue mostrar as diferenças no relevo, clima, flora e fauna. A gente não só escuta como vê”, reforça.

Apesar de a jovem ser ultraconectada, ela diz ser responsável e saber administrar bem o seu tempo. “Sou adolescente e lógico que dou uma fugidinha para acessar o Facebook enquanto estou estudando, mas sei que a interação pessoal é a forma mais importante de relação. O uso da tecnologia na escola deixa a gente mais animada, a gente presta mais atenção, fica mais ligada. Antigamente, o professor era a principal fonte de informação. Hoje, é a internet. As pessoas estão estudando e fazendo faculdade on-line. Mais do que conteúdo, a função do professor é nos ajudar a sermos pessoas melhores. A minha ideia pode não ser igual a dele, mas, no debate, a gente aprende a respeitar a opinião do outro. Para mim, o papel do professor é colocar a gente no caminho certo para que possamos aprender”, conclui a jovem, que estuda no Colégio Sagrado Coração de Jesus.

Paulo Filgueiras/EM/D.A Press
"Quando o trabalho em sala de aula está associado à tecnologia fica mais prazeroso e o jovem consegue perceber a tecnologia não só como entretenimento, mas como uma ferramenta que auxilia o dia a dia em sala de aula", Carolina Ribeiro, 16 anos, com o professor de química Gilson Rodrigues Alvarenga (foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press)

Carolina Ribeiro tem 16 anos, está no segundo ano do ensino médio no Colégio Santa Marcelina e pretende fazer medicina. Ela consente que o papel do professor é muito importante para mediar não só as pesquisas que são realizadas no ambiente virtual, mas também para ampliar a noção de cidadania, como o respeito ao próximo. Uma história que ela cita para ilustrar a importância dessa relação que incentiva o protagonismo do jovem, mas é colaborativa, é o Projeto Cidadania, realizado anualmente na instituição onde ela estuda pelos adolescentes do nono ano. Durante 12 meses, a turma se divide em grupos e cada um desenvolve um tema que será apresentado para toda a comunidade escolar no final do ano letivo. “O meu grupo ficou com o tema 'A valorização da mulher e a igualdade entre os gêneros'. É um projeto multidisciplinar em que todos os professores estão envolvidos. A dimensão que essa pesquisa tomou foi além do acesso à informação – estávamos diante de uma gama enorme de conteúdo –, mas ampliou nosso conhecimento e nos transformou enquanto pessoas”, conta.

Para o desenvolvimento do trabalho, não apenas a internet, mas aplicativos para smartphones, softwares de apresentações, rede social e interação constante entre os diferentes grupos, professores e família foram importantes para o resultado alcançado. “Quando o trabalho em sala de aula está associado à tecnologia fica mais prazeroso e o jovem consegue perceber a tecnologia não só como entretenimento, mas como uma ferramenta que auxilia o dia a dia em sala de aula”, diz Carolina.

EMPODERAMENTO

Sofia Fada diz perceber, na própria experiência como mãe, mas também como educadora, que o acesso à informação facilitado pela tecnologia empodera a juventude e que o excesso de protagonismo pode ter um lado negativo de o jovem se sentir superior e capaz de tudo. “O empoderamento deve vir acompanhado de outras habilidades como empatia e busca de soluções. As habilidades socioemocionais fazem parte da educação e isso é uma luta diária, de estar ao lado dos filhos e perceber essas dimensões tão vastas da construção do conhecimento e da própria personalidade”, observa.

Para ela, a tecnologia abre portas para um mundo enorme de possibilidades, mas sozinha não resolve nada e pode até atrapalhar. “Essas possibilidades só podem ser exploradas da melhor forma possível com a intermediação das escolas e das famílias. A interação real é tão ou mais importante que a virtual.”

Coordenador de códigos de linguagens da Escola Sagrado Coração de Jesus, o professor de português Tony Labanca diz que era mais fácil dar aula no modelo antigo: meninos enfileirados que levantavam a mão para falar, mas que gerava alunos menos críticos e menos empoderados do conhecimento. “O detentor do conhecimento era o professor, o estudante não tinha instrumento para colocar em xeque as coisas do mundo. Os alunos de hoje precisam de um formato de aula que atenda a essa geração conectada. É a geração da imagem, a geração da crítica. Um formato de aula muito tradicional entra em choque com a nova geração”, explica.

Tony Labanca afirma que o conhecimento pelo conhecimento é necessário, mas o mais importante é que esse conhecimento gere comunicação e socialização. Para ele, é função da escola garantir que cada aluno e cada aluna se aproprie e tenha acesso a diversos posicionamentos e por isso a mediação dos professores sobre temas polêmicos é bem-vinda em sala de aula. “Se tudo pudesse ser mais leve, chegaríamos mais rápido aos lugares que gostaríamos, mas, infelizmente, vivemos tempos de intolerância.”

O professor Gilson Rodrigues reforça que a fonte de estudo pode até não ser mais o caderno, mas todos nós somos reféns da construção de uma lógica de raciocínio. “Em algum momento o estudante vai ter que escrever ou digitar para criar uma lógica no cérebro dele. Se a tecnologia é usada em sala de aula com uma metodologia adequada ela é capaz de resultados positivos imensos e é esse o caminho que a escola tem que seguir”, pontua.
Ele cita como exemplo a experiência da apresentação da tabela periódica interativa em que o jovem toca em um elemento que se projeta em um cubo 3D e que em cada parte desse cubo o estudante obtém uma informação sobre ele. “Ou seja, estou atraindo o aluno e associando conteúdo”, resume.

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"Acredito que a tecnologia é uma parceira fundamental para o aprendizado da matemática. É como se fosse uma viagem de volta: a matemática propiciou o avanço tecnológico e, agora, a tecnologia paga a dívida para favorecer o aprendizado" - Átila Azevedo e a aluna Laura Bandeira Menezes dos Santos, de 12 anos (foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press)

Metodologia adaptada
Átila Azevedo é professor de matemática do Colégio Santa Marcelina e menciona outro exemplo de como a metodologia adaptada à tecnologia pode gerar efeitos positivos tanto no interesse dos jovens pelo conteúdo como no desempenho deles nas diversas disciplinas. Há dois anos ele utiliza a plataforma gratuita Khan Academy, que tem como premissa ser um recurso de aprendizado personalizado para todas as idades. “É um site que propicia e simula um game: o aluno tem uma missão que precisa ser cumprida no prazo de um ano. Essa missão coincide com o conteúdo abordado em sala de aula em cada série. A cada exercício realizado, o aluno vai pontuando e avançando na missão”, explica.

Nesse ambiente virtual, o professor funciona como tutor e consegue ver o desempenho não só de cada aluno, mas da turma. “O tutor tem controle total do percurso que o aluno enfrenta e a estratégia mais importante é que as dúvidas que aparecem lá são trabalhadas em sala de aula”, salienta. Segundo Átila, a própria plataforma oferece ainda dicas para o aluno que esteja com alguma dificuldade em resolver um determinado exercício e também um vídeo explicativo de cada conteúdo. “O aluno só passa de uma atividade para outra se ele cumprir cinco exercícios corretos em sequência”, detalha.

Quinzenalmente, o professor e a turma se reúnem no laboratório de informática da escola para se dedicar ao Khan Academy. “Acredito que a tecnologia é uma parceira fundamental para o aprendizado da matemática. É como se fosse uma viagem de volta: a matemática propiciou o avanço tecnológico e, agora, a tecnologia paga a dívida para favorecer o aprendizado. Enxergo a tecnologia como uma estratégia para agregar mais conhecimento, mais motivação, mais interação. A sala de aula mantém o seu valor que é o do diálogo.”

A estudante Carolina Ribeiro indica um aplicativo que ela gosta e usa muito. “O APP Prova é uma ferramenta gratuita e várias escolas já trabalham com esse aplicativo que, a meu ver, tem inúmeras vantagens. Com ele, a gente não apenas estuda, mas treina para o Enem. Os professores preparam simulados, mas também podemos fazer as provas criadas por outras escolas. Para mim, o tempo é o maior desafio do Enem e o APP Prova estipula um prazo para que aquela avaliação seja concluída.” Além disso, segundo a jovem, os professores conseguem mapear quais foram as principais dificuldades da turma em uma determinada prova e, assim, o conteúdo volta a ser trabalho em sala de aula. “É um trabalho que integra tecnologia, professores e alunos.”

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"O papel do educador é justamente o de mediar toda essa parafernália, relevante no contexto educacional, para promover o estudo híbrido que propicia a autonomia do aluno e a personalização do ensino" - Tony Labanca, professor de português (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)

Ensino híbrido
O professor de português Tony Labanca lembra ainda que, para além da preocupação em instrumentalizar as escolas do país, é fundamental instrumentalizar o professor. “O papel do educador é justamente o de mediar toda essa parafernália, relevante no contexto educacional, para promover o estudo híbrido que propicia a autonomia do aluno e a personalização do ensino”, defende.

Como exemplo do sistema híbrido de ensino, o professor do ensino médio cita um trabalho que desenvolve com seus alunos e mostra como os jovens se apropriam das informações para um determinado desafio proposto. “Escolho um tema, divido a turma em estações com diferentes suportes de textos – escritos, imagéticos, tirinhas, cartoons, vídeos, internet – e cada grupo escolhe as estações que eles gostariam de utilizar para se apropriar de argumentos e defender uma ideia. Em vez de eu dar uma aula expositiva sobre cotas na universidade, por exemplo, os alunos vão atrás de conteúdos em diversos suportes, virtuais ou não, em que eles são os agentes da informação e vão se deparar com argumentos consubstanciados e outros nem tanto”, explica.

A mediação do professor se dá por meio da curadoria dos textos com a pluralidade de posicionamentos. Até no caso da internet são sugeridos links sobre o tema trabalhado em sala de aula. “Há alunos que preferem ficar apenas nas estações tecnológicas e outros que optam por circular mais. O que a gente percebe é que aquele que se limita a uma estação, quando desafiado oralmente, os argumentos dele não são tão bons quanto os dos alunos que circularam”, observa.

Para ele, o objetivo deve ser estimular a busca pelo conhecimento propondo desafios interessantes que aliam a palavra escrita – que a escola não abre mão – com a tecnologia. “No estudo híbrido, a personalização está ligada ao ritmo de cada aluno. Em uma aula meramente expositiva, o jovem é obrigado a seguir o ritmo do professor”, diz.

EXCESSO DE TELAS

Sofia Fada diz que o tempo de tela na infância e adolescência pode ser um problema ou uma solução. “Muitas vezes o excesso de jogos e informações deixa as crianças agressivas e limita o convívio. Por isso, pais e mães devem estar ao lado dos filhos instruindo e colocando limites. O importante é propor atividade que podem sair do papel e ir para as telas e vice-versa”, diz.

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