Bordados promovem resgate da história e reforçam laços

De uma família de bordadeiras de Sabará, Elizabeth Cândido, de 66 anos, aprendeu a arte aos 8 e vive a pesquisar. Suas descobertas estão no projeto Tecendo vidas... bordando sonhos

por Lilian Monteiro 27/07/2016 09:00

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Rodrigo Clemente/EM/DA Press
Elizabeth guarda equipamentos e materiais utilizados para cada tipo de trabalho. Ao lado, recorte do Estado de Minas de 1959, com risco das famosas lanternas japonesas que sua mãe bordava (foto: Rodrigo Clemente/EM/DA Press)
A avó Raymunda, a mãe, Maria, a tia Elza, a irmã Ângela, a prima Efigênia... O bordado está na origem e no DNA da família de Elizabeth Cândido, que se encantou com o mundo das linhas, cores, panos e texturas aos 8 anos, tendo a mãe como professora. “Ela ensinava a quem quisesse aprender. Via minha mãe bordando e percebia que aquele bordado, além de ser uma forma de ver a vida mais alegre e cheia de laçadas e fitas, era um aprendizado constante e, por isso, me fascinava tanto.”

Como o amor pelos bordados só aumentou ao longo dos anos, Elizabeth decidiu não só ensinar e manter viva essa arte, como também pesquisar e catalogar tudo que o encontra pelo caminho. “E tudo começou pesquisando com bordadeiras antigas da minha vizinhança de Belo Horizonte, Sabará, Caeté, em recortes de jornais e revistas antigos, pesquisa bibliográfica na internet e por meio de relatos dessas bordadeiras, além de peças que ganhei da Bahia.”

Deste embrião nasceu o seu projeto Tecendo vidas... bordando sonhos. “Ele começou em 2006, a passos miúdos, e hoje posso dizer que estamos caminhando com alguns avanços. O projeto é o resgate da delicadeza, da memória afetiva e romântica do tempo das nossas mães, avós e bisavós, buscando a riqueza dos pontos, das histórias, lendas e a participação das mulheres em épocas passadas e culturas diferentes.” Ela conta que em toda oficina, palestra, encontros ou em rodas sociais divulga e mostra a importância cultural desse resgate. “Com o passar do tempo, estou conseguindo montar um acervo com riscos, linhas, bordados, livros que já tinha e com doações de pessoas que amam o bordado e me repassam. Quero, num futuro próximo, colocar tudo em um local para que as pessoas interessadas tenham acesso e, quem sabe um dia, levar esse “bordar” como matéria para cursos específicos em faculdades.”

Trabalhando com dois grupos de bordadeiras, Elizabeth assegura que toda pessoa que ama o bordado, sua origem e história pode participar. E quem teve o primeiro contato sempre vai desejá-lo por perto. Mesmo se precisar se afastar. “Fiquei muito tempo sem bordar e há 17 anos voltei ao que aprendi. Faz parte da minha história. Comecei a ver os bordados com outros olhos, querendo saber sempre a origem dos pontos e o que tinha por trás daquelas maravilhas de riscos e cores. Tive no meu enxoval peças que eram da minha mãe, bordadas com os pontos cheio, atrás, haste, alinhavo, corrente, matiz, sombra... e achava incrível as histórias que ela contava e todas as peças acabadas e ornadas com o belo ponto paris.”

Na sua pesquisa e pelo que conhece, Elizabeth destaca a renda turca de bicos, patrimônio cultural de Sabará, e as bainhas abertas, que são feitas com os tecidos desfiados, tecendo-se lindas artes sobre os desfiados. “São de uma delicadeza intensa e, artisticamente falando, nos transportam ao romantismo do passado, dando ênfase aos nossos maravilhosos bordados livres, cheios de significados e histórias.”
Elizabeth gosta e tem prazer de ensinar. Por isso, dá aulas em casa ou na casa do aluno. As ministradas no Centro Cultural Urucuia, no Barreiro, recomeçam em agosto. “Como voluntária, já ensinei a bordar no projeto Escola Aberta em Ravena, durante três anos, e no Centro Cultural Urucuia, no Barreiro de Cima, por quatro, com o resgate do bordado antigo por meio dos projetos de Presépios, Era dos Anjos e Oficina Troca de Saberes. Também fui selecionada por meio de edital da Fundação Municipal de Cultura da Prefeitura Municipal de BH, em 2015, para ministrar oficina do meu projeto no Centro de Referência da Moda, no evento Noturno dos Museus, assim como na Fundação Sidertube.”

JAPONESAS Entre as preciosidades do acervo de Elizabeth, ela guarda com carinho um recorte do Estado de Minas de 1959. “A minha mãe, Maria Dias Cândido, conhecida com dona Mariinha, era professora e esperava a chegada do jornal para se inteirar das notícias e para ver, no caderno Feminino, os riscos das famosas lanternas japonesas, que eram publicados semanalmente. Quando ela as bordava em cores vivas e exuberantes, em ponto matiz, eu a via muito feliz. Hoje, tenho o mesmo sentimento ao bordar. Guardo os recortes do jornal e a toalha bordada como preciosidades.”

Elizabeth diz que quando pensa que antigamente o bordado servia para preencher o tempo vago das mães e avós e hoje vê a comprovação do mesmo em todas as áreas da vida, sente-se realizada. “Além de o bordado ser uma fonte de renda. Tenho amigas bordadeiras por esse Brasil de meu Deus e no exterior e sempre trocamos experiências e muitos riscos. Sem falar dos compartilhamentos na minha página do Facebook: 'Oficina de Bordado da Beth'.”

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