Estudo mostra que diabetes tipo 2 altera cérebro de adolescentes

A doença metabólica altera o volume da massa cinzenta em adolescentes. O impacto ocorre em áreas do órgão ligadas a funções cognitivas, emoções e autocontrole

por Correio Braziliense 18/07/2016 15:00

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Valdo Virgo / CB / D.A Press
Durante a adolescência, o cérebro passa por mudanças profundas, e, também nessa fase da vida, são fortes os hábitos que desencadeiam a doença metabólica: sedentarismo e dieta pouco equilibrada (foto: Valdo Virgo / CB / D.A Press)
Os adolescentes com diabetes tipo 2 têm mudanças significativas no volume de substância cinzenta do cérebro, principalmente nas regiões ligadas a tomadas de decisão, visão, audição, memória, emoção, expressão e autocontrole. É o que indica um estudo conduzido por pesquisadores da Cincinnati Children’s Hospital Medical Center, nos Estados Unidos, conduzido com 40 voluntários e apresentado no American Diabetes Association’s Scientific Sessions, no mês passado, em New Orleans (EUA).

Segundo Amy Sanghavi Shah, um dos autores, estudos anteriores haviam sugerido essa diferença de concentração de massa cinzenta e queda na função cognitiva em jovens com o problema metabólico. “Os volumes total e regional do cérebro, porém, não tinham sido avaliados de forma abrangente até então. Nós também procuramos determinar se os resultados que encontramos poderiam explicar os resultados cognitivos mais pobres”, complementou o médico.

A equipe analisou 20 adolescentes com diabetes tipo 2 e 20 sem a complicação metabólica. Os participantes eram semelhantes em idade, raça e sexo, e foram submetidos a exames de ressonância magnética de alta resolução. Nenhum tinha doença neurológica ou psicológica prévia ou ressonâncias magnéticas anormais antes do início da pesquisa. Ao comparar as imagens, os cientistas descobriram que os integrantes do primeiro grupo tinham seis regiões com muito menos massa cinzenta e três com consideravelmente mais.

“Nossos dados sugerem que o volume de substância cinzenta do cérebro foi significativamente diminuído em jovens com diabetes tipo 2. Descobrimos que as áreas mais afetadas pela diminuição do volume de substância cinzenta estão nos lobos temporais, associados à capacidade de processamento verbal e visuo-espaciais”, diz Jacob Redel, pesquisador na Divisão de Endocrinologia Infantil de Cincinnati e principal autor do estudo. A equipe também detectou uma relação entre menor volume de massa cinzenta no cérebro e queda na habilidade de pronunciar palavras desconhecidas.

Coordenador do Núcleo de Neurologia do Hospital Samaritano de São Paulo, Renato Anghinah explica que diabéticos têm mais propensão a desenvolver problemas cognitivos principalmente pelo fato de o cérebro ser o órgão do corpo humano que mais demanda energia. “Ele consome mais glicose. Por isso, precisa de uma oferta maior no organismo. A falta pode levar a problemas no desenvolvimento das estruturas cerebrais”, detalha.

Melhor prevenir
O prejuízo fica ainda mais preocupante por dois fatores. Durante a adolescência, o cérebro passa por mudanças profundas, e, também nessa fase da vida, são fortes os hábitos que desencadeiam a doença metabólica: sedentarismo e dieta pouco equilibrada. Segundo dados da última pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel 2015), 28,5% da população brasileira com 18 a 24 anos tem uma alimentação com excesso de açúcar. Nessa faixa etária, 30% costumam beber refrigerantes diariamente.

Redel pondera que a razão da ocorrência das mudanças no cérebro não é bem compreendida. “Nossos resultados não mostram causa e efeito. Não sabemos se as alterações que encontramos são o resultado direto do diabetes. Mas estudos em adultos com diabetes tipo 2, com maior duração da doença, também mostram diferenças de volume do cérebro, alterações vasculares cerebral e declínio cognitivo”, diz. Os investigadores consideram, por exemplo, um novo experimento com participantes obesos e não diabéticos.

Segundo eles, a nova amostra — também com um número maior de participantes — lhes permitirá examinar se as diferenças encontradas na ressonância magnética estão mais relacionadas à obesidade ou ao nível elevado de açúcar no sangue, além de testar se outros domínios cognitivos, como memória, linguagem, inteligência e atenção, são afetados por diferenças no volume do cérebro.“Neste momento, não sabemos se essas mudanças são temporárias ou permanentes. Portanto, não podemos determinar se elas podem ou não ser reversíveis”, afirma.

Diante das indefinições, o melhor conselho é evitar a complicação metabólica, defende Christiano da Cunha Tanuri, neurologista do Hospital Israelita Albert Einstein. “Essa é um importante pesquisa e serve para gerar uma reflexão sobre os atuais hábitos alimentares da nossa juventude. Eles estão consumindo muitos alimentos hiperprocessados e recheados de açúcares. Esse é um prato cheio para aparecimentos de doenças metabólicas como o diabetes” alerta.

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