Terapia com células-tronco dá esperança a quem sofre com perda da visão por causa da idade

Segundo cientistas dos EUA, um fator imunitário do próprio corpo pode potencializar técnicas contra doenças como a degeneração macular relacionada à idade, que causa a cegueira. Nas atuais, apenas 1% das células-tronco transplantadas sobrevive

por Isabela de Oliveira 11/07/2016 15:00

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Cristiano Gomes / CB / D.A Press
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Terapias com células-tronco são esperança de pacientes com doenças degenerativas relacionada à idade, por exemplo aquelas ligadas à perda de visão. Nesse caso, porém, os benefícios desse tipo de intervenção são ainda bastante limitados: a combinação da idade avançada com tecidos adoecidos gera um meio infértil para as células usadas, que não conseguem aderir ao sistema ocular. Na revista Science desta semana, cientistas do Instituto Buck de Pesquisa em Envelhecimento, nos Estados Unidos, mostram que a abordagem pode ter um futuro mais promissor apenas com ajuda de um mecanismo natural do organismo. Se calibrado de maneira correta, ele pode potencializar o tratamento.

Outras equipes de pesquisa já conseguiram transplantar, com sucesso, células-tronco da retina em ratos. Em humanos que têm doenças nessa membrana ocular, contudo, os benefícios são discretos: apenas 1% das células transplantadas sobrevive e consegue se integrar ao olho ao longo do tempo. “Queremos mudar essa estatística”, diz Deepak Lamba, pesquisador-sênior do novo estudo norte-americano. A ferramenta para alcançar as ambições, diz ele, chama-se fator neurotrófico mesencefálico derivado astrócitos (FNMDA).

“Identificamos esse sistema de modulação imunitária que ordena a interação entre células doentes da retina e células imunes para promover a reparação do tecido. Ele causa ativação alternativa das células imunológicas, reparação de tecidos, neuroproteção aumentada e maior sucesso de terapias com substituição de fotorreceptores”, acrescenta Lamba. Na pesquisa, o FNMDA foi injetado com fotorreceptores em ratos com cegueira congênita. Os animais tratados com a substância apresentaram melhor aderência das células-tronco ao tecido nativo e se recuperaram mais rápido.

Os cientistas notaram que o fator fez com que as células do sistema imune recrutadas para gerar a inflamação funcionassem, ao contrário do que foram programadas, como agentes anti-inflamatórios. Essas estruturas são, sobretudo, os macrófagos. Heinrich Jasper, coautor da pesquisa, acredita que, além de auxiliar terapias com células-tronco, o FNMDA pode evoluir para tratamentos preventivos nos estágios iniciais de doenças, de forma que os sintomas não evoluam.

No estudo, o FNMDA foi empregado também para proteger os olhos de três ratos com degeneração de fotorreceptores — cones, que distinguem as cores; e bastonetes, que são sensíveis à luz e participam da visão noturna. “Focar na modulação do sistema imunitário para promover um reparo e uma resposta saudáveis do tecido prejudicado em vez de tratar os processos inflamatórios deletérios é uma nova fronteira na pesquisa do envelhecimento”, acredita Jasper.

Ação alternativa
O FNMDA foi, anteriormente, descrito como um fator neurotrófico que pode proteger a retina; isto é, um elemento associado à sobrevivência neuronal e à comunicação dos sistemas nervosos periférico e central envolvido também na visão. Pesquisas com moscas sem hemócitos, um tipo de anticorpo específico dos insetos, mostraram que o FNMDA não conseguiu reparar tecidos lesionados. O mesmo foi detectado em retinas de mamíferos sem células do sistema imune inato ou que continham macrófagos ineficientes.

“Nós propomos, então, que o papel do FNMDA em promover a ativação alternativa de células do sistema imune seja central para a sua função regenerativa”, diz Lamba. A primeira vez que os autores se depararam com os efeitos desse fator ocorreu durante experimentos com moscas de fruta, cujo sistema imune secretava uma substância especial em resposta a danos na retina: era o FNMDA. Ele atuava em células infamatórias que, após a intervenção do fator, ganhavam características anti-inflamatórias e curativas, promovendo, então, o reparo da retina das cobaias lesionadas.

O mesmo experimento foi realizado em ratos e resultados semelhantes, detectados. Os pesquisadores acreditam que a identificação da ação do FNMDA nas células imunes pode acelerar a descoberta de mais vias de ação da substância. “Estudos mostraram que esse fator tem efeitos anti-inflamatórias em animais com Parkinson, que tem como característica a inflamação neurotóxica. É possível que os efeitos protetivos do FNMDA nessa doença sejam os mesmos que observamos nas retinas. É tentador especular que esse fator seja amplamente requisitado em vários contextos para auxiliar na conversão de macrófagos inflamatórios em macrófagos anti-inflamatórios, que ajudam na reparação dos tecidos”, ressalta Lamba.

Os cientistas admitem que os achados são iniciais e que mais estudos são necessários para determinar a contribuição específica de macrófagos e de outras células em mediar os efeitos curativos do FNMDA. Isso significa que, até chegar à prática clínica, um longo caminho deverá ser percorrido. “Embora nossos achados apontem para a função do macrófago como mediador, não se exclui a possibilidade de outras células estarem envolvidas no processo”, especula o pesquisador-sênior.


Aposta também em biomateriais
“O transplante de células-tronco pode ser a única esperança de reparo e restauração da função visual de indivíduos quando outras opções de tratamento não estão disponíveis. Enquanto progressos significativos foram feitos na geração de neurônios da retina a partir de diferentes fontes celulares; protocolos de transplantação, integração funcional e sobrevivência das células transplantadas na retina ainda precisam ser adequados e formulados. Esses procedimentos podem carecer de suporte estrutural para promover a sobrevivência de longo prazo, além da integração celular. O caminho apontado pelos autores é promissor, e outra estratégia que desponta como opção são os biomateriais. A aplicação potencial dessas estruturas inclui superfícies que promovem a adesão celular e sua diferenciação, além de suporte estrutural para facilitar a aplicação, a integração e a sobrevivência das células. Isso pode ser feito em conjunto com agentes farmacológicos ou até mesmo com fatores como o do estudo para que induziam a regeneração e o reparo da retina.”

Silke Becker, pesquisadora da University College London

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