Pesquisadores tentam controlar HIV sem antirretroviral

Soropositivos receberam um tipo especial de anticorpo humano e, mesmo não medicados, ficaram até dois meses e meio com os níveis do vírus da Aids estabilizados. A pesquisa norte-americana pode resultar em novas formas de tratamento

por Isabela de Oliveira 05/07/2016 15:00

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Controladores de elite são indivíduos infectados com HIV que respondem à infecção com uma atividade imunológica ampla, potente e exclusiva. Reação que, muitas vezes, dispensa o uso de medicamentos para conter a contaminação. Métodos de clonagem celular descobriram a origem desse superpoder: os anticorpos amplamente neutralizantes (bNAbs). Ao contrário de anticorpos normais, esses agentes especiais são peritos em atacar peculiaridades do envelope que reveste e protege o vírus causador da Aids, sobretudo as proteínas que cuidam da entrada do HIV nas células humanas.

Na edição de hoje da revista Nature, pesquisadores da Universidade Rockefeller, nos Estados Unidos, mostram que é possível reproduzir por até dois meses e meio a mesma resposta imune dos controladores de elite em pacientes comuns cronicamente infectados e que não ingerem antirretrovirais. O estudo, que detalha a ação do novo tratamento em um ensaio clínico de fase 2 com 13 soropositivos, contribui para iniciativas que busquem prevenir, tratar e até mesmo curar o HIV.

Os tratamentos com antirretrovirais podem diminuir e deixar indetectável a carga viral em soropositivos. No entanto, uma vez que o tratamento é interrompido, o HIV pode reemergir em grande quantidade de santuários escondidos dentro do próprio paciente, fenômeno chamado de efeito rebote. “Os remédios combatem apenas os vírus que estão na corrente sanguínea, não aqueles escondidos nos santuários. Isso significa que, se eu paro a medicação, os escondidos saem do estado de latência e dos santuários e voltam ao sangue, onde podem invadir outras células e se replicar”, explica Alberto Chebabo, infectologista do Laboratório Exame, em Brasília.
Os reservatórios, diz o médico, não são estanques. “Funcionam como uma espécie de depósito que mantém constante troca com a corrente sanguínea, liberando vírus de tempos em tempos. No entanto, quando o paciente é medicado, esse vírus não consegue invadir a célula e acaba morrendo. Mas, sem a medicação, essa infecção volta e se alastra”, completa Chebabo, que também é chefe do Serviço de Doenças Infecciosas e Parasitárias do Hospital Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Bem tolerada

Testando novas formas de conter o efeito rebote, o pesquisador Michel Nussenzweig investigou a ação e a segurança do bNAb 3BNC117, que foi isolado e clonado a partir de anticorpos doados por um controlador de elite. Da amostra, cientistas criaram uma espécie de medicamento, ou vacina, aplicado em dois grupos de voluntários durante períodos diferentes. Os seis pacientes do grupo A ingeriram duas doses de 30mg/kg de 3BNC117 no início e no fim de três semanas. No grupo B, sete participantes receberam quatro doses de 30mg/kg do anticorpo a cada duas semanas, durante um mês e meio.

Os resultados foram, de forma geral, animadores. Todos os participantes do grupo A conseguiram manter, no primeiro mês, cargas virais abaixo de 200 cópias/ml de plasma, um valor saudável; e alguns apresentaram rebote entre cinco e nove semanas após a interrupção do medicamento. No grupo B, o rebote ocorreu de três a 19 semanas após a suspensão dos antirretrovirais, e em 57% dos participantes houve supressão viral de pelo menos 10 semanas.

O tempo médio de rebote foi de 6,7 semanas no grupo A; de 9,9 semanas no grupo B; e de 8,4 semanas nos dois grupos. Em média, o efeito demora apenas 2,6 semanas para se manifestar em pacientes que não fazem uso de medicamentos nem da nova terapia com anticorpos. “Mesmo durante o rebote, nenhum dos participantes apresentou infecção aguda e a viremia foi suprimida para abaixo de 20 cópias/ml (indetectável) em todos eles, de duas a sete semanas após a reintrodução dos medicamentos”, conta Nussenzweig. “Nós concluímos, com isso, que infusões de 30mg/kg de 3BNC117 durante a suspensão dos medicamentos é segura e bem tolerada.”

Ações combinadas
Segundo o pesquisador, a nova terapia bloqueia a emergência de vírus dos reservatórios, mas outras pesquisas são necessárias para determinar se o anticorpo 3BNC117 também pode influenciar o tamanho e a composição dos vírus dormentes nos reservatórios durante a terapia. Nussenzweig acrescenta que, em relação a outros bNAbs, o 3BNC117 parece ser mais eficaz, talvez pela potência ampliada ou pela meia-vida maior.

“Apenas um genótipo viral mostrou uma resistência ao nosso anticorpo e, por causa dele, o rebote ocorreu mais cedo em muitos dos casos. Esses vírus representam variantes preexistentes dormentes que emergem dos reservatórios latentes”, conta. Para Nussenzweig, combinações de bNAbs serão indispensáveis para aumentar a frequência de indivíduos com cargas indetectáveis após a suspensão de medicamentos. Atualmente, combinações de antirretrovirais são necessárias para manter a supressão viral nos tratamentos tradicionais, e estudos anteriores mostraram que dosagens conjuntas de anticorpos foram importantes para suprimir a viremia em ratos.

Apesar de não serem definitivos, o infectologista Alberto Chebabo considera os resultados promissores. “Os pesquisadores precisam, agora, resolver esses casos de reinfecção que ocorrem após períodos curtos, mas, mesmo assim, já sinalizam que teremos uma estratégia para utilizar em pacientes que, por algum motivo, precisam suspender a medicação”, analisa. Essas razões podem ser intolerância à droga, alergia, cirurgias, traumas e quadros de doenças graves não associadas ao HIV, por exemplo o acidente vascular cerebral (AVC). “Esses casos exigem que a gente suspenda a medicação por algum tempo, e esse anticorpo seria uma alternativa que não aumentaria o risco de resistência à reintrodução dos remédios, beneficiando muito os pacientes”, completa o especialista.



Foco nos santuários

“A tendência de tratamento é tentar desalojar o vírus latente nos santuários. O que muitos pesquisadores buscam é remover os vírus de lá com medicamentos ou estímulos para o sistema imunológico. Uma forma de fazer isso é dando uma ‘chacoalhada’ na célula que serve como reservatório e que sequer sabe que está infectada. Isso forçaria o vírus a se multiplicar e sair dela. Dessa forma, poderíamos capturá-lo com medicamentos ou anticorpos especiais como esses estudados agora. Já existem medicamentos que estimulam as células santuário e obrigam os vírus a se expor na corrente sanguínea. Antes que eles possam invadir outras, são neutralizados pelo próprio sistema de defesa por vacinas ou anticorpos. É o caminho que todos perseguem e acredito que esse estudo da Nature pode contribuir nesse sentido.”

Antônio Luiz Chaves Gonçalves, professor de infectologia da Faculdade de Medicina de Petrópolis (RJ)

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