Terapia de reabilitação cognitiva é opção ao tradicional tratamento de transtornos mentais

Existem muitas formas de acolher pessoas com transtornos mentais. Nem todas as terapias são baseadas apenas no dizer e no ouvir. Quer conhecer?

por Cristine Gentil 04/07/2016 13:30

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Luís Tajes / CB / D.A Press
(foto: Luís Tajes / CB / D.A Press)
Ana tem grandes olhos curiosos e mãos hábeis. Desenha ininterruptamente, debruçada sobre uma prancheta fazendo o que gosta e sabe. Mais do que isso, divide um talento. Hevelyn é uma artista e fala mais do que achou que um dia falaria. Isso lhe traz profunda alegria, dá para sentir a cada palavra pronunciada. Renata escreve. Ela compartilha seu conhecimento em produção de texto. Estão ali também Daniel, Felipe, Clarissa. São parte do Grupo dos Amigos, que é tão heterogêneo quanto simbiótico. Todos aptos a ensinar algo; todos abertos a aprender. Já fizeram muitas coisas juntos. Rapel, sarau, ida à boate, canoa havaiana, churrasco, textos, poesias. Mais recentemente, lançaram uma revista chamada Muito Bom!, nome que batiza também o site do projeto. Agora, preparam-se para lançar um curta-metragem. Querem fazer uma crítica aguda ao modo tradicional de tratamento psiquiátrico.

O sarau, a revista e o curta-metragem, em fase de produção, são alguns desdobramentos palpáveis de um tipo de abordagem terapêutica que extrapola o falar e o ouvir, o uso de remédios ou outras terapias que você encontra por aí nos consultórios, ainda que não prescinda necessariamente dessas formas tradicionais de tratamento, como a medicação, quando indicado pelos psiquiatras. Há seis meses, esse grupo experimenta e colhe resultados positivos, que têm funcionado como uma barreira protetora capaz de evitar crises e amenizar sintomas de distúrbios comuns a grande parte da população — depressão, pânico, angústia, medo, ansiedade, tristeza, dificuldade de socialização, isolamento, bipolaridade, vícios, traumas, entre outros. Trata-se de uma terapia de reabilitação cognitiva. A ideia é que essa experiência se torne um modelo que possa ser copiado e adotado por outros psicólogos e médicos. É uma alternativa segura e eficaz aos tratamentos convencionais, que, muitas vezes, não dão os resultados esperados.

Luís Tajes / CB / D.A Press
"A reabilitação cognitiva consiste em trazer de volta essas habilidades, o que ajuda na prevenção de novas crises. Da mesma forma como o transtorno mental leva a perdas cognitivas, as perdas agravam o transtorno. Resgatando as habilidades, melhoramos as crises" - Sáuria Burnett, médica (foto: Luís Tajes / CB / D.A Press)
Essa história só foi possível graças ao encontro de todas essas pessoas tão diferentes em muitos aspectos, mas iguais no desejo de aliviar suas dores. E graças a um encontro em particular. Celso Eduardo Lago Costa é psicólogo. Sáuria Miranda Burnett é uma médica especializada em reabilitação motora e cognitiva. Ele já fazia um trabalho diferente e pioneiro com seus pacientes, promovendo atividades que possibilitassem interação social, como trilhas, prática de rapel, viagens curtas, idas ao cinema, meditação. “É uma forma de tratar essas instabilidades emocionais de uma maneira mais humana, agregadora e promovendo coisas diferentes, que não seja só a terapia pela fala, usando a convivência, inclusive fora do consultório”, explica Celso Eduardo. Ela vinha de uma respeitável trajetória em reabilitação, com 30 anos de trabalho na Rede Sarah, tendo publicado trabalho em conjunto com o fundador da rede, Aloysio Campos da Paz, além de outros.

Sáuria chegou ao consultório do psicólogo levada por uma severa crise depressiva. “Ele viu que eu tinha capacidade em algumas áreas e precisava de estímulos”, relata Sáuria. Esses precisavam vir de seu campo de interesse, com o objetivo de resgatar suas potencialidades. Passaram a discutir artigos, textos e livros de forma a restabelecer conexões na mente. Saúria reconheceu, então, na vivência prática com Celso Eduardo, seu objeto de anos de estudo. O que estavam fazendo era reabilitação cognitiva. Propôs, então, formarem o grupo. Havia uma médica e um psicólogo, ambos profissionais necessários para a condução de um trabalho dessa natureza, além de muitas pessoas dispostas a buscar alívios para os mais diversos sofrimentos.

A terapia baseia-se numa certeza: os distúrbios mentais podem levar a perdas cognitivas. Dificuldade de concentração, de leitura, escrita ou com números, além de perda de memória. São alguns exemplos. Essa condição leva ao agravamento das crises psiquiátricas. “A reabilitação cognitiva consiste em trazer de volta essas habilidades, o que ajuda na prevenção de novas crises. Ou seja, rompe um ciclo silencioso. Da mesma forma como o transtorno mental leva a perdas cognitivas, as perdas agravam o transtorno. Resgatando as habilidades, melhoramos as crises”, explica Sáuria. Não é simples, nem é um trabalho isolado. Muitas vezes, em caso de doenças psiquiátricas, o uso de medicamentos é necessário.

No grupo, são identificadas as habilidades de cada um e propostas as oficinas. “Nós, agora, somos capazes de fazer coisas que antes nos sentíamos inseguros para fazer. Todos têm competências, basta acolhê-las. O grupo se sente mais seguro, fortalecido. Há outras estimulações, fora do consultório, como a canoa havaiana, por exemplo, que trabalha a coordenação motora, mas também a força muscular”, comemora Celso Eduardo. Os integrantes reúnem-se duas vezes por semana e ninguém é obrigado a participar de nada.

Luís Tajes / CB / D.A Press
"É uma forma de tratar essas instabilidades emocionais de uma maneira mais humana, agregadora e promovendo coisas diferentes, que não seja só a terapia pela fala, usando a convivência, inclusive fora do consultório" - Celso Eduardo, psicólogo (foto: Luís Tajes / CB / D.A Press)
Se, no início, a proposta não parecia muito atraente ao grupo que já fazia terapia com Celso Eduardo, logo a impressão se desfez. “Imaginávamos que reabilitação cognitiva fosse uma coisa chata, de ficar fazendo exercício. Mas eu já tinha dado aula de português e me disponibilizei a fazer oficinas de redação. E foi superlegal. Tivemos uma produção muito boa, que acabou se transformando numa revista”, conta Renata Mourão.

Ana Paula Chagas, estudante de 18 anos, contribuiu com o desenho da revista Muito Bom! e do site. “O mais bacana desse grupo é a validação das habilidades. Nunca dei valor ao que eu sei fazer. E nas outras experiências que tive em terapia, me sentia julgada, cobrada e culpada pelo que sentia. Era tudo pouco acolhedor”, diz.

Para alguns, como Hevelyn Leão, 30 anos, a terapia em grupo surtiu um efeito rápido e além do esperado. Mesmo antes das oficinas de reabilitação cognitiva encontrou estímulo para interagir. “Tenho muita dificuldade em conviver e me comunicar com as pessoas, então enfrentar um sarau no qual eu tinha que apresentar alguma coisa foi muito bom, porque me deu a possibilidade de dizer ao (Celso) Eduardo o que ainda preciso melhorar. Começamos a ter percepção de nós mesmos.” Hevelyn continua: “A terapia de todo mundo aqui tem o mesmo significado: estamos ajudando cada um de nós a ser melhor amanhã do que podemos ser hoje”. Hevelyn concluiu a faculdade, faz pós-graduação e resgatou a confiança em si própria.

São resultados assim que Celso Eduardo e Sáuria pretendem compartilhar com a comunidade terapêutica. “Nosso projeto visa não só a reabilitação cognitiva de adultos jovens que saíram de crises psiquiátricas, mas também mudar a cultura do tratamento psiquiátrico em Brasília. O que estamos fazendo agora é desenvolver um método que possa ser aplicado por outras equipes e estamos nos preparando para treinar profissionais e dar supervisão”, conclui Sáuria.

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