Estudar com os filhos: o que as famílias podem fazer para ajudar crianças e adolescentes

A boa formação exige hoje muito mais que uma ótima instituição de ensino, mas, principalmente, a participação e envolvimento de toda a família

por Gustavo Perucci 20/06/2016 08:00

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Jair Amaral/EM/D.A Press
A psicóloga Isabela Giannetti faz questão de estar ao lado do filho Thiago, de 7 anos, para orientá-lo sempre que ele necessitar (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
Ter a segurança de que o rebento estará preparado para enfrentar o mercado de trabalho, terá sucesso profissional e saberá lidar com as responsabilidades da vida adulta. Buscando garantir um futuro tranquilo para os filhos, pais e mães investem pesado na busca de uma boa formação ao herdeiro. A educação, porém, vai além de uma ótima instituição de ensino e exige participação e engajamento da família.

Estar presente e ativo na vida escolar do filho pode fazer toda a diferença na relação que essa criança desenvolverá com o estudo. Essa participação esbarra, porém, nas dificuldades impostas pela vida moderna. “Com essa vida contemporânea, corrida, que todos estamos à mercê, os pais e mães trabalham, às vezes, mais de oito horas por dia, não conseguindo dar à criança a assistência necessária. Com isso, acabam terceirizando a educação do filho. Isso pode ser pensado no sentido amplo de educação: a de valores e a pedagógica. Tanto uma quanto outra estão sendo terceirizadas. A pedagógica, para escolas e professores particulares, e a dos valores, para cuidadores, babás, avós...”, explica a psicopedagoga Cristina Silveira.

Por isso, é preciso redobrar os esforços para conseguir, ao máximo, participar da vida escolar do filho, ajudar na lição de casa, estimular o estudo fora da sala de aula e se envolver e buscar se relacionar com a instituição de ensino da criança. Claro que não é tarefa fácil, e uma postura pouco incentivadora e impaciente pode, inclusive, afetar a forma como o estudante se relaciona com as tarefas. Estabelecer uma rotina é fundamental, assim como ter horário e local fixo para fazer o dever.

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APRENDIZADO
A psicóloga Isabella Giannetti faz questão de estar ao lado de Thiago, seu filho de 7 anos, na hora da tarefa. Mais que simplesmente dar respostas ao garoto, ela busca estar disponível para orientá-lo sempre que ele necessitar. “Trabalho fora o dia todo e tento me envolver o máximo no pouco tempo que tenho com ele. Procuro fazer o possível para ele criar autonomia, mas, nessa idade, preciso acompanhá-lo”, conta a psicóloga.

“O fundamental 1 é uma fase em que pais e mães devem estar o mais presente possível. É a fase da alfabetização, de aprender as operações matemáticas mais simples. Nesse período, as crianças ainda não têm maturidade e metodologia própria para estudar. A partir do 6º ano, que os filhos já estão na pré-adolescência, já começam a ter mais estrutura para ter mais autonomia nos estudos. Mas ainda assim é preciso acompanhá-los, perguntando sobre a escola, o que aprenderam, olhando o boletim...”, orienta Cristina.

Como se portar em relação à educação do filho? Qual a melhor forma de estimular o estudo da criança e fazê-la se interessar pelo conhecimento? O Saúde Plena conversou com especialistas, que esclarecem as principais dúvidas, e com famílias, que contam suas experiências.

Rotina é essencial
Paciência, muita conversa, cobrança equilibrada e parceria com a instituição de ensino ajudam a criança a desenvolver a paixão pelo ato de aprender


Jair Amaral/EM/D.A Press
Isabela Giannetti, psicóloga, mãe de Thiago, de 7 anos: Quando ele estudava em tempo integral, poderia fazer o dever dentro da escola. Mas pedi à escola para mandar o 'para casa' para ele fazer junto comigo, para eu ter a oportunidade de acompanhá-lo, de perceber os avanços, as dificuldades. E sempre fiz isso, desde quando ele era pequenininho (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
Estimular e participar a busca por conhecimento dos filhos é uma das principais responsabilidades de mães e pais. Só que a tarefa pode não ser tão fácil assim. Sem a didática de profissionais da educação e, muitas vezes, com pouco tempo para se dedicar à orientação dos herdeiros, o tiro pode sair pela culatra. Em vez de incentivo, certos comportamentos podem gerar na criança rejeição aos estudos. Paciência, rotina, muita conversa, cobrança equilibrada e envolvimento com a instituição de ensino e professores são as atitudes necessárias para ajudar o rebento a desenvolver a paixão pelo ato de aprender.


Todos os dias, depois da aula, o pequeno Thiago, de 7 anos, sabe que terá a companhia da mãe na hora do dever de casa. E estar próxima ao filho no momento dos estudos é importante para a psicóloga Isabela Giannetti. Mesmo quando o garoto estava em uma escola integral, ela fazia questão de acompanhá-lo no “para casa”. “O Thiago foi para a escola com 1 ano, por causa do meu trabalho. Quando ele estudava em tempo integral, poderia fazer o dever dentro da escola. Mas pedi à escola para mandar o 'para casa' para ele fazer junto comigo, para eu ter a oportunidade de acompanhá-lo, de perceber os avanços, as dificuldades. E sempre fiz isso, desde quando ele era pequenininho”, conta.


A rotina do garoto em relação aos estudos é levada a sério pela mãe. O horário e local são sempre os mesmos. O pai também participa e, quando chega do trabalho, faz questão de se juntar ao filho e à esposa. E Isabela sabe como proceder nessa hora. Seu papel é mais de orientação e não de fornecer as respostas ao Thiago. “Leio as orientações junto com ele e o deixo fazer o dever sozinho, com autonomia. Quando ele termina, pergunta: 'mamãe, está certo?'. Aí dou o ok ou o corrijo. Tento fazê-lo perceber o erro e não dar a resposta”, explica.


“O ideal é que os pais apenas orientem. O dever é para a criança fazer. É importante ficar disponível para tirar as dúvidas dela, e não querer que o filho faça o dever como você quer que ele faça. E quem tem que corrigir o dever não é o pai ou a mãe, é a professora. Quando a escola passa o dever para a criança, ela dá uma responsabilidade. Tem pai e mãe que ditam as respostas, e isso é muito errado. Eles estão ali para tirar uma dúvida ou outra, explicar um problema, e não para fazer o dever. Quem dá as respostas, prejudica a educação do filho”, analisa a psicopedagoga Cristina Silveira.


Além de, com o tempo, tentar dar autonomia à criança para que ela estude e faça as lições de casa sozinha, ao orientar o filho, é necessário manter a postura correta. Cristina Silveira afirma que, se o adulto está cansado, nervoso ou sem paciência, é melhor não ajudar. Um humor alterado do pai ou da mãe influencia, segundo a psicopedagoga, o estado emocional da criança.


“Com isso, ele pode criar uma relação equivocada com o estudo. Ao contrário do que tem que ser, que é de uma relação prazerosa, de responsabilidade, de capricho com o que está fazendo. Com esse estresse emocional, a criança pode fazer o dever errado, sem vontade e até se recusar a estudar”, completa.
O contador e administrador de empresas Dário Alves da Silva faz questão de acompanhar o filho Alexandre, de 10 anos, na realização da lição de casa. Ele acredita que, enquanto a criança não tem a consciência da importância da educação, seu papel é essencial. E a relação dos dois na hora de estudar é boa, sem ruído ou reclamação por parte do garoto.


“Ele aceita bem a minha participação. Esse nosso acompanhamento de perto vem desde quando ele era pequeno. Cada vez ele tem que ter mais autonomia, porque quando ele for adolescente, não vamos acompanhar tanto quanto hoje. Hoje, já acompanhamos menos que há dois anos”, relata Dário.
Outro fator importante no processo de se criar o interesse pelo aprendizado é diminuir a pressão por resultados. Muita cobrança pode gerar reação contrária na criança. E Dário sabe disso. O administrador não cobra total nas provas e espera que o filho tenha uma compreensão mais ampla da importância dos estudos. Decorar, para o pai, não é o mesmo que compreender. Para ajudar o garoto a se interessar pelo que estuda, ele sempre busca conversar e propor atividades com relação ao conteúdo.


“Preocupamo-nos muito em não obrigá-lo a tirar 100 nas provas. E também enfatizamos para o Alexandre que o importante é ter conhecimento, entender, e não decorar. Ele está estudando o universo. Então, o levamos, por exemplo, ao planetário, para ele poder ter uma visão mais ampla e se interessar pelo assunto. Tentamos fazê-lo entender que as disciplinas estão ligadas umas as outras, assim como na vida, que é tudo interligado”, conta.

PLANEJAR Pensar e planejar o momento dos estudos é um dos papéis mais importantes de pais e mães. Cristina Silveira orienta que o ideal é a criança sempre estudar a matéria passada em sala de aula no mesmo dia, para fixar o conteúdo na cabeça. Horário e local fixos também são essenciais. A psicopedagoga também alerta que a criança deve ficar longe de estímulos que possam tirar sua atenção, como televisão, computador e celular. Se precisar fazer alguma pesquisa na internet, sem problemas. Mas só para isso, sem se distrair. E aí a atuação do adulto é essencial.


“Em época de prova, o ideal é ficar, no máximo, uma hora em uma matéria. Depois disso, mude para outra disciplina, senão o cérebro cansa. Faça um questionário e, no dia antes da prova, releia-o com a matéria. Para crianças acima do 5º ano, o recomendado é estudar 40 minutos para uma matéria de exatas e 40 para uma de humanas. Para ir trabalhando os lados esquerdo e direito do cérebro, para a criança não se cansar”, conclui.

Conheça melhor o filho

Cristina Silveira explica que é muito importante que mães e pais conheçam o perfil do filho. Isso ajuda a entender a melhor forma de trabalhar os estudos com a criança. “Ela aprende melhor com resumos? Ótimo. Então peça a ela para ir marcando os parágrafos mais importantes do conteúdo e fazer um resumo da matéria. Ela aprende melhor se uma outra pessoa lê para ela? Então é isso que deve ser feito com essa criança ou adolescente. Leia a matéria, explique e peça para que ela se expresse. Cada um é cada um, e algumas crianças têm um verbal auditivo melhor do que a perspectiva visual. Às vezes, ela se perde na leitura, demora muito e, nesses casos, um estudo mais verbal funciona melhor. E existem vários métodos de ensino, que vão ser mais efetivos de acordo com cada criança. Para isso, é essencial os pais conhecerem e se envolverem com os filhos”, orienta. Se existe alguma dificuldade, o recomendado é procurar orientação no colégio ou com algum profissional especializado.

Escola é lugar de pai e mãe também
Se cuidados com a educação do filho em casa é fundamental, a participação de pais e mães na escola também é. Aliás, a escolha da instituição de ensino já é uma tarefa que deve ser conduzida com extrema atenção. Claro que a proximidade de casa alivia a rotina da família. Mesmo assim, muitos outros fatores devem se considerados.


Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press
Luciana Salomão se envolveu tanto com a educação do filho que hoje é vice-presidente da Associação de Pais e Mestres (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Cristina Silveira indica que, primeiramente, é preciso compreender o perfil do filho para escolher a escola. “Se a criança tem tolerância a essa educação profissional, com muito dever, cumprindo as rotinas da escola, que gosta de estudar, que aceita a metologia de estudo, aí sim você pode colocá-la em uma escola mais tradicional. Se ela é mais voltada para a criatividade, o esporte, mais ativa no sentido físico, ela não vai conseguir tolerar esse tipo de ambiente. Então, a primeira coisa a fazer é conhecer o perfil do filho que você tem, sem idealizá-lo”, pontua. Comparar os valores da escola com os da família, saber da metodologia da instituição e conversar com diretores são outros pontos que devem ser observados.


Feita a matrícula, é responsabilidade de toda a família se envolver com a instituição de ensino e participar das reuniões e atividades propostas por ela. E a consultora de marketing Luciana Salomão fez mais do que isso. Mesmo com a pouca idade do filho, Guilherme, de apenas 3 anos, ela já é vice-presidente da Associação de Pais e Mestres (PTA – sigla em inglês de parents and teachers association) na Escola Americana de Belo Horizonte (EABH). “Acredito que cabe à escola e à família trabalhar juntos no apoio à aprendizagem. Com esse envolvimento, com certeza, as crianças tendem a ter um desempenho melhor, a querer ficar mais tempo na escola”, avalia.

REUNIÕES Sempre presente nas reuniões gerais e individuais, Luciana conta que a EABH a ajuda também em casa. Desde o primeiro momento depois da matrícula a escola a orienta sobre como proceder com as crianças, além de estar sempre aberta a receber mães e pais para qualquer dúvida ou preocupação em relação ao filho. “Mesmo o Guilherme sendo muito novo, os professores passam atividades para façamos juntos dele, para continuarmos a construir esse saber dentro de casa”, relata.


“Envolver-se com a escola é se envolver com a vida do próprio filho. É preciso entrar em contato com a professora, ir em todas as reuniões, pedir reuniões individuais, ver o trabalho de casa do filho, participar dos trabalhos extraclasse... Sempre incentivar e motivar a criança, perguntando como foi a aula, o que ela aprendeu no dia. Demonstrar interesse mesmo. Participar das festividades da escola, dos teatros, das festas juninas. Para o filho, não é só uma festinha. Obviamente, a escola também vai sentir mais apoio da família e mais valorizada no sentido do trabalho que está fazendo com os alunos”, orienta Cristina Silveira.

 

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