Médicos analisam uso de apps para tratamento de distúrbios psiquiátricos

A maioria dos apps não tem fundamento científico, mas, segundo especialistas, há opções promissoras e acessíveis

por Paloma Oliveto 10/06/2016 15:00

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Danilson / CB / D.A Press
Campo da saúde mental móvel está crescendo bastante e entusiasmando profissionais da área (foto: Danilson / CB / D.A Press)
Ultimamente, passa-se mais tempo com eles do que com a própria família. Estão ali, a qualquer hora do dia, sempre disponíveis. Por isso, pesquisadores começam a investigar o potencial dos smartphones como ferramenta no tratamento de distúrbios comportamentais e psiquiátricos, como ansiedade e depressão. Em um mundo com mais de 1,6 bilhão de usuários de celulares que têm acesso à internet — 76 milhões deles no Brasil —, aplicativos desenvolvidos por especialistas podem ajudar os mais de 120 milhões de pacientes que sofrem desses problemas. Contudo, os cientistas também alertam que a qualidade da maioria dos apps ainda deixa a desejar.

De acordo com David Mohr, diretor do Centro de Intervenções Tecnológicas Comportamentais da Universidade de Northwestern, nos Estados Unidos, diante do número crescente da incidência de transtornos mentais, é preciso tornar os tratamentos acessíveis. “Essa é uma estratégia que pode ajudar milhões de pessoas que não têm os cuidados adequados para depressão e ansiedade por questões como falta de tempo, de dinheiro ou relutância de falar com um terapeuta”, afirma. “Nos Estados Unidos, 20% da população sofrem sintomas significativos de ansiedade e depressão, mas só 20% estão recebendo tratamento adequado”, justifica.


120 milhões
Estimativa de pessoas no mundo que sofram de distúrbios comportamentais e psiquiátricos


1,6 bilhão
Estimativa de usuários de celulares que tenham acesso à internet no mundo


O psiquiatra, especialista em medicina preventiva, conta que o campo da saúde mental móvel está crescendo bastante e entusiasmando profissionais da área. Na Universidade de Northwestern, Mohr ajudou a desenvolver um conjunto de 12 miniaplicativos interativos gratuitos, desenhados para diversas situações. Por exemplo, se o usuário está inseguro sobre um encontro profissional, há um app só para ajudá-lo a lidar com esse tipo de ansiedade. Se acha que a vida não faz sentido, acessa outro aplicativo do grupo. Com base nos acessos e nas informações repassadas pelo usuário, um algoritmo sugere, a cada semana, um novo aplicativo, estratégia que visa evitar que o tédio desestimule a continuidade no programa. Todos eles trazem textos, testes e exercícios práticos.

“Esse é o princípio do tratamento personalizado. O aplicativo é inteligente e detecta as necessidades do paciente, que vai receber exatamente o que precisa”, afirma Mohr. “Todo esse trabalho foi desenhado por clínicos de Northwestern tendo por base técnicas terapêuticas validadas. Isso é muito importante. Nós testamos o que fizemos e podemos garantir que essa é uma estratégia que funciona”, destaca. De acordo com ele, a maioria dos aplicativos de saúde mental disponíveis para iOS e Android não tem fundamento científico nem oferece estratégias que tenham sido testadas em pesquisas. Nas versões brasileiras da loja da Apple e do Google, há poucos aplicativos em português — nenhum deles desenvolvido aqui, mas traduzidos do inglês.

Confiança
Essa também é a preocupação de Steve Flatt, professor de psicologia da Unidade de Liverpool, no Reino Unido, que pesquisou a procedência e a validade dos aplicativos de saúde mental recomendados pela Associação Nacional de Saúde (NHS, sigla em inglês) da Inglaterra. Para a surpresa de Flatt, ele descobriu que não há provas de que 85% deles de fato funcionem. “Isso é muito grave porque têm o selo de aprovação de um dos maiores sistemas de saúde do mundo. As pessoas acabam confiando e baixando esses aplicativos”, critica. “Até serem validados por pesquisas clínicas, eles deveriam sair da lista de recomendação da NHS”, defende.

"Essa é uma estratégia que pode ajudar milhões de pessoas que não têm os cuidados adequados para depressão e ansiedade por questões como falta de tempo, de dinheiro ou relutância de falar com um terapeuta” - David Mohr, diretor do Centro de Intervenções Tecnológicas Comportamentais da Universidade de Northwestern (EUA)

Assim como David Mohr, o pesquisador inglês acredita que o smartphone será de grande valia para o manejo de transtornos mentais. “Na Inglaterra, um em cada 10 pacientes com problemas mentais espera mais de um ano antes de conseguir tratamento. Um em cada três espera mais de três meses. O mais grave disso é que um em cada seis que estão nesse aguardo comete suicídio e quatro em 10 vão tentar se ferir”, enumera. “Por isso, tratamentos interativos on-line ou por meio de aplicativos são tão importantes. Contudo, perdem a validade caso não tenham credibilidade científica, não sejam descritos em estudos revisados pelos pares nem testados clinicamente”, insiste.

Cuidados
Segundo Flatt, em 2013, havia apenas 32 artigos publicados em revistas científicas sobre aplicativos para depressão, ao mesmo tempo em que 1,5 mil estavam disponíveis para download. “O mesmo vale para apps voltados a uma infinidade de questões mentais, como transtorno bipolar, bulimia e estresse pós-traumático”, afirma. De acordo com ele, para não cair em armadilhas, o usuário deve sempre procurar saber quem desenvolveu o aplicativo e confiar naqueles desenhados por universidades ou institutos de pesquisa conhecidos, que citem, de preferência, estudos sobre a validação científica do produto.

O público tem grande interesse por essas ferramentas, como revelou uma pesquisa australiana, da Universidade de New South Wales, realizada com 655 pessoas. Noventa e cinco por cento dos voluntários disseram que achariam útil um aplicativo de celular que ajudasse a lidar com depressão, estresse e ansiedade. “De forma geral, a ideia de que o telefone celular é uma ferramenta positiva para a saúde mental é muito bem-aceita”, disseram os autores do estudo, publicado no Journal of Medical Internet Research. Contudo, 10% dos que demonstraram interesse pelos aplicativos reconheceram não ter ideia de como seus smartphones poderiam ajudá-los nesse sentido.

Base deve ser cognitiva comportamental

Para David Bakker, pesquisador da Faculdade de Psicologia do Instituto Monash de Neurociência Clínica e Cognitiva, na Austrália, um aplicativo bem-sucedido na tarefa de auxiliar pacientes a enfrentarem depressão, ansiedade e outros transtornos mentais tem de, necessariamente, se fundamentar na terapia cognitivo comportamental. “Essa abordagem não apenas é utilizada no tratamento, mas pode ser uma importante ferramenta preventiva”, observa. “Trata-se de um tratamento colaborativo e individualizado que gera adaptação comportamental, cognitiva e emocional para uma quantidade de problemas psicológicos comuns e que também tem eficácia no tratamento de distúrbios como depressão e ansiedade”, explica.

Bakker é autor de um estudo de revisão que identificou elementos que devem estar presentes em aplicativos de saúde mental. “Na última década, os smartphones integraram-se totalmente às nossas rotinas pessoais, sociais e ocupacionais. Nos Estados Unidos, os usuários checam seus telefones 150 vezes por dia”, justifica. “Mais recentemente, numerosos aplicativos de saúde mental foram desenvolvidos e a demanda por eles é forte. Vejo o uso de apps e de outras soluções tecnológicas como uma importante parte do futuro dos cuidados com saúde mental. Apenas uma pequena fração de pessoas sofrendo de problemas de humor procura ajuda profissional e, mesmo quando estão dispostas a procurar tratamento, nem sempre ele está disponível”, analisa.

Além de uma base cognitiva comportamental, os aplicativos devem incentivar, segundo Bakker, o automonitoramento dos humores, dos pensamentos e das sensações, algo muito importante no tratamento de problemas psicológicos. “Vários estudos indicam que os aplicativos para smartphones são uma plataforma que favorece bastante essa prática”, diz. Além disso, um bom app de saúde mental deve incluir informações redigidas por profissionais, atividades para lidar com estresse/ansiedade/alterações no humor e links para serviços de suporte nos momentos de crise, enumera.

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