Descoberta nova causa para a caspa

Estudo indica que a ação de fungos pode não ser o principal fator gerador da descamação, que parece mais ligada a um desequilíbrio das bactérias existentes no couro cabeludo

por Isabela de Oliveira 01/06/2016 14:30

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Thiago Fagundes / CB / D.A Press
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Por possuir tratamento relativamente simples, a caspa é uma das doenças dermatológicas mais exploradas pela indústria de cosméticos, que comercializa em supermercados e farmácias uma grande variedade de xampus que prometem o controle da dermatite seborreica — como o problema é formalmente chamado — por meio do combate a fungos presentes no couro cabeludo. No entanto, um estudo publicado na revista Scientific Reports alerta que a descamação também pode ser provocada pelo desequilíbrio de bactérias existentes na cabeça, indicando que tratamentos antifúngicos comuns podem não resolver o problema de muitas pessoas.

“Micro-organismos no couro cabeludo, especialmente fungos do gênero Malassezia, eram considerados os principais causadores da doença. Nesse trabalho, ficamos surpresos ao observar que a relação da caspa com a proporção de bactérias era mais forte do que a relação com os fungos. A gravidade da doença parece depender mais da diminuição das taxas de Propionibacterium em relação à Staphylococcus do que da ação dos fungos”, explica Menghui Zhang, autor sênior do trabalho e pesquisador da Shanghai Jiao Tong University, na China.

Comparados com pessoas que não sofrem com o problema, as taxas de Propionibacterium nos sujeitos com caspa avaliados caíam de 70,8% para 50,2%, ao passo que as de Staphylococcus aumentavam de 26,0% para 43,5%. Além disso, a pesquisa constatou tipos do fungo Malassezia que não provocam o problema. A espécie M. restricta, por exemplo, foi encontrada em 87,2% dos participantes saudáveis e em 90,6% das pessoas com caspa, uma diferença muito pequena para ser apontada como vilã. “Não negamos a ação dos fungos completamente, pois ainda é possível que eles exerçam diferentes papéis na geração da caspa, ao lado das bactérias”, observa Zhang (leia mais abaixo).

Para chegar às conclusões, os pesquisadores associaram os micro-organismos que residem no couro cabeludo com a gravidade e a área da cabeça mais afetada pela caspa em 59 chineses de 18 a 60 anos. Produção de sebo capilar, sexo e idade dos participantes também foram considerados. Os cientistas observaram que a descamação ocorre com mais frequência na região superior do couro cabeludo, que é mais oleosa e menos úmida. Curiosamente, participantes mais jovens tinham taxas de sebo relativamente maiores do que os do grupo mais velho. Apesar disso, sofriam menos com a doença, indicando que a oleosidade não é, de fato, uma determinante para a caspa.

Dos dois principais tipos de bactéria, a Propionibacterium era mais abundante nos lados do couro cabeludo, próximos às orelhas, em indivíduos do sexo masculino e entre jovens. Já a Staphylococcus prefere o topo da cabeça, onde há mais oleosidade e menos água.

Proteção
Professora de microbiologia no Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), Fabiola Castro considera os achados uma grande novidade. “Os pesquisadores colocam em xeque a teoria de que o fungo é o grande vilão da caspa. Além disso, as bactérias da microbiota do couro cabeludo não costumam ser levadas em consideração na avaliação da caspa e muito menos no tratamento”, diz a também microbiologista clínica do Grupo Fleury Medicina e Saúde e do Instituto de Cardiologia do Distrito Federal (ICDF).

Outro destaque dos resultados é a possibilidade de a Propionibacterium ser protetora contra a descamação: algumas espécies desse gênero de micro-organismo secretarem substâncias que suprimem o crescimento de Staphylococcus. “O desequilíbrio (entre bactérias), portanto, pode ser um dos fatores por trás da descamação”, especula Zhang. Segundo ele, a partir dos resultados, será possível desenvolver medicamentos que regulem e mantenham o equilíbrio de bactérias e fungos e as condições normais do couro cabeludo. “Esses fatos interagem uns com os outros e constituem uma rede complexa. Desenvolver esse tipo de tratamento não deve ser fácil e, para nós, impõe um grande desafio”, diz o autor.

Fabiola Castro aponta que há riscos em criar drogas que façam uma modulação drástica do microambiente. “Elas podem fazer com que algumas bactérias fiquem resistentes e ainda podem deixar o paciente predisposto a infecções oportunistas. Tudo deve ser avaliado com muito critério. Inclusive, devemos pensar se há realmente a necessidade de envolver drogas assim para controlar a caspa”, avalia a especialista.

Concordância com trabalho brasileiro
O artigo de Menghui Zhang, pesquisador da Shanghai Jiao Tong University, na China, também encontrou fungos Malassezia que não têm relação com o surgimento da caspa. “Isso é consistente com os estudos anteriores na população brasileira e na japonesa, nas quais diferentes subtipos foram encontrados em diferentes proporções”, diz o cientista.

“Os resultados brasileiros mostraram que uma grande variedade de subtipos desse gênero foi detectada no couro cabeludo e na testa tanto de pessoas saudáveis quanto de indivíduos com dermatite seborreica. Há, então, uma diversidade intraespecífica. No nosso estudo, também notamos que diferentes formas de Malassezia mantêm relações opostas com a caspa, o que significa que nossos resultados, de certa forma, confirmam os dos brasileiros”, prossegue Zhang.

A autora da descoberta no Brasil, Luciana Campos Paulino, professora pesquisadora da Universidade Federal do ABC (UFABC), em São Paulo, diz ter ficado feliz com os resultados em comum. “Em nosso estudo, vimos que os fungos não são diretamente relacionados com a caspa, e até mesmo encontramos organismos supostamente novos. O artigo chinês encontrou esses micro-organismos em uma população diferente, e isso é muito interessante. Ainda não sabemos se são novas espécies ou variantes das espécies existentes, mas notamos que estão presentes em grande quantidade, inclusive nas pessoas saudáveis.” Os resultados de Paulino foram publicados em janeiro de 2015 na revista Plos One.

Xampus
No início deste ano, a pesquisadora publicou outro artigo, no British Journal of Dermatology, que reforça os resultados. Dessa vez, ela investigou a eficácia dos xampus à base do antifúngico cetoconazol. Em pessoas saudáveis, a população de fungos do couro cabeludo e testa se manteve relativamente constante, mas em pacientes tratados com o antifúngico apresentaram variações acentuadas. Embora o efeito esperado fosse a diminuição no tamanho das colônias de Malassezia, em alguns casos, houve aumento.

“Apesar disso, os sintomas melhoraram. Suspeitamos que a substância não mate o fungo, mas promova alguma alteração nele, como fazer com que pare de produzir uma proteína associada à caspa. Há evidências na literatura de que o cetoconazol tenha ação anti-inflamatória, o que amenizaria a descamação, a vermelhidão e a coceira. Talvez fosse mais interessante trocarmos a substância antifúngica por outra exclusivamente anti-inflamatória.”


Formas variadas de tratamento
“A caspa, ou descamação, é um dos sintomas da dermatite seborreica, doença crônica e sem cura. Podemos mantê-la sob controle, mas não há nenhum medicamento que garanta seu fim. Também não há uma única causa, mas sabemos que fungos Malassezia são estimulantes, além de estresse, oleosidade, algumas medicações e, agora, o desequilíbrio entre bactérias. Chegou recentemente ao mercado um medicamento probiótico que melhora a barreira cutânea do couro cabeludo, diminuindo o processo inflamatório como um todo. É uma forma nova de tratar, a partir da mudança do ambiente da região. É isso que diz a pesquisa chinesa: não matar as bactérias do couro cabeludo, mas reequilibrar suas concentrações. Sobre xampus de supermercado, eles podem ser usados na manutenção dos tratamentos, mas só o dermatologista sabe dizer as necessidades de cada caso e quais medicamentos devem ser usados. Alguns, inclusive, são orais.”

Rodrigo Frota, dermatologista da clínica Aepit e membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD)

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