Cientistas descobrem que genética também influencia desempenho escolar

Consórcio internacional de pesquisadores encontra 74 variações no DNA associadas a uma maior escolaridade. O acréscimo, no entanto, parece ser pequeno, não passando de algumas semanas a mais de dedicação aos livros

por Paloma Oliveto 30/05/2016 15:00

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Raimundo Sampaio/ENCDF/D.A Press
Tempo de estudo é fortemente influenciado por fatores ambientais (foto: Raimundo Sampaio/ENCDF/D.A Press)
O bom desempenho escolar está associado a diversos fatores, como condições socioeconômicas do aluno, experiência do professor, recursos pedagógicos disponíveis, gosto pelos estudos, disciplina e relação da família com a escola, entre muitos outros. Nos últimos anos, mais um elemento começou a compor essa equação: a genética. Não sem críticas, alguns cientistas têm associado variantes de genes — a maior parte implicada com o desenvolvimento neuronal — à inteligência e à escolaridade média da população. Um desses pesquisadores é Daniel Benjamin, da Universidade do Sudeste da Califórnia. Ele compõe um grupo de investigadores que tentam aproximar as ciências médicas das sociais e, desde 2010, têm conduzido estudos nessa linha.

Na edição de ontem da revista Nature, Benjamin apresentou os dados numericamente mais robustos até agora para sustentar que existe uma influência genética na educação. Ele fez parte de um consórcio internacional de 253 cientistas dos Estados Unidos, da Austrália, da Dinamarca, da Estônia, da Islândia, da Holanda e da Suécia que analisaram o sequenciamento de 293.723 europeus de 15 países, cujos registros incluíam quantos anos passaram nos bancos escolares. O resultado apontou 74 variações genéticas associadas à escolaridade média. Boa parte desses genes têm relação com o desenvolvimento do tecido neural, principalmente durante o período pré-natal.

O biólogo ressalta que não está falando de um conjunto de genes da inteligência. Embora as aptidões cognitivas tenham componentes hereditários, há um criticismo geral no meio científico quando se propõe que uma ou outra variante seja responsável pelo brilhantismo do intelecto. O mesmo vale para as associações entre genética e médias de anos de estudo. Até porque, de acordo com Benjamin, para um quadro mais claro da influência do DNA na educação, seria preciso avaliar ao menos 1 milhão de sequenciamentos. Ainda assim, ele destaca que o achado do trabalho pode ser importante para políticas educacionais.

“Temos consciência de que a influência dos 74 genes é muito pequena. Eles respondem por algo entre 0,43% e 1% da variação na escolaridade média”, observa Benjamin. A maior distância encontrada pelos pesquisadores foi de nove semanas a mais de estudos em indivíduos com duas cópias de uma determinada variante, comparado aos que não carregam a versão genética. “Mas esse pequeno efeito já nos diz muitas coisas, quando combinamos com nossos trabalhos anteriores”, diz. Uma delas, destaca, é que, ao contrário do que muitas pessoas ficaram tentadas a acreditar, não é possível atribuir a inteligência ou a persistência a um ou outro gene.

Motivação
Outra implicação importante, segundo os autores do estudo, é que alguns dos genes associados à escolarização média têm influência no desenvolvimento do cérebro, desde o período fetal. Entre eles, há uma variante relacionada com a motivação. “Essas pequenas diferenças genéticas que encontramos podem ajudar a entender por que algumas pessoas são mais suscetíveis que outras a um declínio cognitivo precoce”, disse, em nota, Peter Visscher, coautor do estudo e professor do Instituto do Cérebro de Queensland, na Austrália. “Nosso artigo é um rico material que, quando aplicado de forma responsável, acrescenta à nossa compreensão da condição humana.”

Daniel Benjamin insiste em afirmar que a equipe não descobriu o “gene da inteligência”. “Tampouco estamos dizendo que nossas descobertas implicam que o desempenho escolar de um indivíduo já está determinado pelo DNA no momento em que ele nasce”, ressalta. Mas, segundo o pesquisador, a genética aplicada à ciência é importante para entender como, juntos, fatores ambientais e biológicos se relacionam.

“Agora que identificamos algumas variantes específicas associadas à escolaridade média, temos um ponto de partida para explorar como seus efeitos são reduzidos ou amplificados por outros fatores, com políticas públicas, comportamento parental e status econômico. Essas pesquisas podem, no fim, lançar luz sobre quais políticas poderiam funcionar melhor para incrementar mais os resultados educacionais”, acredita.

Ainda é cedo para pensar em aplicar os achados da genética em sala de aula, acredita John Hardy, professor de neurociências da Universidade College London, que não participou do estudo. “Temos visto resultados interessantes, mas, de forma alguma, definitivos. E seria imprudente tomar decisões educacionais com base nesses dados”, diz.

Metabolismo cerebral

Se há dúvidas sobre a influência da genética na inteligência, é consenso de que um cérebro saudável é crucial para as habilidades cognitivas. Medir a saúde desse órgão, contudo, é uma tarefa complicada. Agora, um estudo da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, indica que um metabolismo cerebral adequado corresponde, em jovens adultos, à inteligência fluida - medida da habilidade de resolver problemas complexos ou insólitos. O resultado do trabalho foi publicado recentemente na revista Cerebral Cortex.


"A inteligência fluida é uma das medidas cognitivas disponíveis mais úteis", diz Aki Nikolaidis, que conduziu a pesquisa com Ryan Larsen, pesquisador do Instituto Beckman de Tecnologia e Ciências Avançadas. De acordo com ele, pessoas que se encaixam nesse perfil relatam mais satisfação no trabalho e maior remuneração, entre outras coisas.

Apesar de parecer um conceito abstrato, Larsen diz que ele pode ser medido no cérebro. No estudo, os cientistas avaliaram as concentrações da molécula N-acetil aspartato (NAA), um conhecido marcador da atividade metabólica no cérebro, usando espectrometria por ressonância magnética nuclear, um exame de imagem que explora as propriedades das moléculas. Investigou-se, então, a relação entre as concentrações de NAA em diferentes regiões do cérebro com a inteligência fluida. "Esse exame nos permite ir além da imagem das estruturas cerebrais e visualizar a capacidade do cérebro de produzir energia", afirma Larsen.

Mapa
Pesquisas anteriores associando a espectrometria por ressonância magnética com a cognição, contudo, têm sido inconsistentes. Uma das explicações pode ser o fato de que os pesquisadores falharam em considerar todos os fatores relevantes da cognição em suas análises, incluindo o tamanho do cérebro, diz Nikolaidis. Um dos objetivos do estudo de agora foi justamente se endereçar a essas contradições.

"Queríamos fazer um estudo mais definitivo com uma amostragem maior e com qualidade metodológica superior", afirma o cientista. Com a abordagem utilizada, eles conseguiram criar um mapa mais detalhado das concentrações de NAA no cérebro do que os divulgados anteriormente. O exame revelou que a quantidade dessa substância em uma área cerebral ligada a habilidades motoras nos córtices frontal e parietal associa-se diretamente à inteligência fluida, mas não a outros aspectos cognitivos. As regiões motoras do cérebro desempenham um papel no planejamento e na visualização dos movimentos, elementos chaves da medida cognitiva.

Segundo Nikolaidis, a conclusão é que essa habilidade depende do metabolismo e da saúde cerebral. Enquanto o tamanho do cérebro é geneticamente determinado e não pode ser alterado, os níveis de NAA e o metabolismo do órgão podem responder a intervenções de saúde, incluindo dieta, exercício ou treino cognitivo, destaca o pesquisador.

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