Conheça a dieta do hipotálomo

Método sugere que a desinflamação da estrutura cerebral pode ajudar no tratamento da obesidade. Médicos e especialistas endossam a tese, mas alertam: trata-se de um processo lento e gradual

por Gláucia Chaves 19/05/2016 12:00

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Perder peso é o desejo de muita gente. Não faltam receitas, dietas e fórmulas milagrosas para ajudar no processo. Atualmente, um método conhecido como 5S promete não só eliminar o peso extra, mas garantir que o tal efeito sanfona (quando se emagrece e engorda, repetidamente) não aconteça mais. A premissa principal do programa é desinflamar o hipotálamo, área do cérebro responsável pelo controle de diversas funções, entre elas controlar a saciedade. Há algum tempo, de fato, pesquisadores têm estudado a relação entre a lesão na região e os quilos a mais (veja quadro).

CB/D.A Press
Clique na imagem para ampliá-la e saiba mais (foto: CB/D.A Press)


Responsável pelos hormônios leptina e grelina, encarregados de regular o apetite e a fome, o hipotálamo desregulado não emite a mensagem de satisfação para o organismo. A esteticista e cosmetóloga Ana Carolina Candia explica que o método recebe o nome 5S em alusão aos “cinco segredos do emagrecimento rápido, saudável e duradouro”. Ela conta que o tratamento foi idealizado pela fisioterapeuta capixaba Edvana Poltronieri, há 14 anos. Os cinco mistérios são, na verdade, orientações alimentares que prometem desinflamar o hipotálamo e, por consequência, reverter a obesidade. Um dos segredos (o único revelado à reportagem) seria um nutracêutico natural, para “ajudar a reprogramar o corpo”. Tratamentos estéticos voltados para a redução de gordura, como manta térmica de infravermelho e massagens com nanotecnologia, também estão incluídos no pacote.

Em três meses, o programa promete desinflamar completamente o hipotálamo. O público ideal são pessoas com Índice de Massa Corporal (IMC) a partir de 25, ou seja, já com sobrepeso, mas Ana Carolina diz que o método também apresenta bons resultados para quem precisa eliminar pouca coisa. “Quem quer perder de 3kg a 5kg, por exemplo, entra no método adaptado”, completa. Antes de o tratamento começar, é realizado um exame de bioimpedância. O teste analisa aspectos do corpo como peso, quantidade de massa magra, água e gordura corporal. O programa se divide em três fases — perda, reeducação e manutenção — e custa, em média, R$ 6 mil.

A primeira fase é a única flexível, já que depende da capacidade de o indivíduo seguir à risca a custosa e extremamente restritiva dieta. As outras duas têm duração de um mês cada uma. Durante todo o processo, é preciso praticar atividade física (determinada pela equipe de profissionais) ao menos duas vezes na semana. A média de perda de peso, segundo Ana Carolina, é de 10kg a 15kg ainda no primeiro mês (para pessoas com o IMC a partir de 25). “Quem tem um IMC mais baixo vai perder de acordo com a necessidade, porque o organismo não está tão debilitado”, diz a especialista. Terminadas as três etapas, quando o hipotálamo estaria completamente desinflamado, os pacientes recebem “alta”.

Atentos à modernidade, os adeptos do método se valem de aplicativos de conversa para trocar informações, dicas, reclamações e orientações sobre a sofrência de viver com carboidratos restritos (o equivalente a apenas uma torrada por dia). Pela manhã e em jejum, os participantes encaram limão com água para evitar picos de insulina, alcalinizar o sangue e manter o pH em níveis normais. Todos os dias, os participantes enviam, inclusive, fotos com os pratos de cada refeição (e da balança) para os profissionais do programa. Depois do tratamento, Ana Paula diz que é feita uma tomografia, em que seria possível ver uma “cicatriz” no hipotálamo, provando a cura da inflamação.

As causas da obesidade
De acordo com a endocrinologista Alessandra Aires Pacheco, a obesidade é complexa e multifatorial. Envolve genes, ambiente, estilo de vida e fatores ambientais. “O acúmulo de gordura é causado por um desequilíbrio entre a ingestão alimentar e o gasto de energia”, detalha. Segundo a médica, existem evidências recentes que indicam que o balanço entre a ingestão e o gasto de energia é controlado por um complexo sistema comandado pelo sistema nervoso central. O controle do balanço energético é realizado por neurônios situados no hipotálamo.

A visão da medicina
Segundo Durval Ribas Filho, médico nutrólogo e presidente da Associação Brasileira de Nutrologia, estudos científicos recentes mostram que as denominadas “dietas de guidelines” (feitas com base em orientações clínicas específicas) são eficazes no combate aos radicais livres, reduzindo os processos oxidativos. “Portanto, dietas do gênero podem promover uma melhora do quadro clínico do paciente relacionado à redução de peso corporal”, reforça. Segundo o médico, já há estudos experimentais em laboratório que tentam encontrar uma forma de diminuir os processos inflamatórios hipotalâmicos. “Possivelmente, em um futuro próximo, poderá ser observado também em seres humanos.”

A relação entre a inflamação do hipotálamo e obesidade já é conhecida pela medicina há pelo menos 10 anos. O professor José Donato Júnior, pesquisador do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, explica que, antigamente, estar acima do peso era associado a falta de disciplina e preguiça. “Hoje, já sabemos que obesidade é uma doença, um problema somático. Se é uma doença, tem que ter uma causa.” Pesquisas com cobaias animais, inclusive, já provaram que alterações farmacológicas ou mesmo genéticas do hipotálamo se mostraram eficazes na diminuição do peso corporal e até na prevenção da obesidade.

O que causa a inflamação do hipotálamo ainda não está definido. Algumas linhas de pesquisa, de acordo com José Donato, apontam que o simples fato de comer mais poderia causar a inflamação. Outras afirmam que é a ingestão de alimentos específicos, como ácidos graxos saturados, presente em alimentos industrializados e de origem animal. “O ácido graxo consegue ativar receptores que causam uma resposta inflamatória nos tecidos, inclusive no sistema nervoso”, explica.

Desinflamar o hipotálamo é que são elas. Segundo o biomédico, é possível em alguns casos, mas não acontece de uma hora para outra. “São processos longos e gradativos. Isso explica por que é difícil tratar a obesidade: as pessoas engordam por anos e, depois, querem emagrecer em meses.”

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