Pesquisadores apresentam exame portátil que detecta zika em poucas horas

O dispositivo, com eficácia maior que a de técnicas atuais, poderá agilizar a triagem de pacientes e prevenir epidemias

por Vilhena Soares 16/05/2016 15:00

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Elson Almeida / AFP
Pesquisador observa mosquitos transmissores do zika: corrida global para frear epidemia (foto: Elson Almeida / AFP )
A luta contra o vírus zika não passa apenas pela busca de uma vacina ou de remédios que ajudem a combater a infecção. Enquanto esse tipo de solução não chega, é fundamental para o controle da epidemia um exame que detecte a doença rapidamente e a um custo baixo. Em um artigo publicado ontem na revista Cell, pesquisadores americanos apresentam uma ferramenta moderna que, segundo eles, cumpre bem essa função.

Os cientistas desenvolveram um teste portátil, barato e de fácil utilização que, apenas com uma pequena amostra de sangue ou saliva, aponta em poucas horas se uma pessoa está infectada com o zika. Dessa forma, pode ser especialmente útil para equipes de saúde que trabalham em áreas remotas, sem grande infraestrutura disponível. Outra vantagem é que a tecnologia permite a detecção até mesmo de cargas virais muito baixas.

O dispositivo tem como base um teste anterior feito para identificar o vírus ebola. “Nós daríamos continuidade a esse trabalho, publicado em 2014, mas quando o surto de zika surgiu, sentimos que havia a necessidade de um método de análise de baixo custo nessa área. Vimos que nossa abordagem poderia ter um impacto maior”, justifica ao Correio Keith Pardee, um dos autores do estudo e pesquisador da Universidade de Harvard.

Para a análise, o sangue ou a saliva são misturados com soro e colocados em pequenos furos na plataforma de teste, uma espécie de cartucho preto com uma folha em seu interior. Nesse equipamento, há alguns sensores. Um deles detecta moléculas de RNA, que fazem a intermediação entre o DNA e as proteínas, apontando com cores se há infecção (o papel se torna roxo) ou não (cor amarela). Após a identificação do vírus, outro tipo de sensor, com a tecnologia de edição de genoma CRISPR, aponta de qual linhagem é o micro-organismo.

“Nosso diagnóstico pode discriminar com confiabilidade o zika de outras infecções, como a dengue. E, após um diagnóstico positivo do zika, um módulo de base do CRISPR também fornece informação sobre a genotipagem, ou seja, sobre qual é o tipo de linhagem presentes no paciente, se é uma estirpe americana ou asiática, por exemplo”, detalha Pardee.

Testes
Os autores realizaram testes com macacos que obtiveram taxas de sucesso e de precisão acima das esperadas. “Nossa abordagem agora pode detectar amostras em concentrações clinicamente relevantes (100 mil vezes menor do que antes) em poucas horas”, ressaltou Pardee. Outra vantagem destacada por ele é o custo reduzido — cada teste sai por menos de US$ 1. “Baixo custo e um equipamento pequeno fazem com que ele possa ser usado para monitorar a propagação de doenças em grandes populações, o que nos permite acompanhar o patógeno e saber como o surto está ocorrendo. Entidades como a Organização Mundial da Saúde (OMS) podem usar essa informação para prever uma epidemia, contê-la e salvar vidas”, afirma James Collins, coautor da pesquisa e também pesquisador de Harvard. “Imaginamos que os médicos poderiam usar nosso equipamento portátil como um método para a triagem inicial de pacientes potencialmente infectados, uma ação que pode ser feita em nível mundial. A natureza rápida e acessível do diagnóstico permite resultados em tempo útil e a oportunidade de um reteste em pacientes durante todo o período de incubação do vírus”, acrescenta Pardee.

Para Anelise Fonseca, epidemiologista do Hospital Adventista Silvestre, no Rio de Janeiro, o método é uma boa notícia na luta contra o zika. “Os testes mais usados hoje possuem uma baixa eficiência. Os de triagem genética, que são mais eficazes, têm um custo elevado e, consequentemente, são de baixo acesso à população. A perspectiva de termos um diagnóstico de fácil manejo e com um custo baixo pode ser de grande ajuda, principalmente se, futuramente, ele puder ser usado em larga escala”, avalia a especialista, que não participou do estudo.

A médica frisa que a análise por linhagem também é um grande ganho. “Esse teste, pelo que é mostrado no artigo, tem uma capacidade muito maior de acerto e consegue diferenciar o vírus zika do da dengue, além demostrar o tipo de zika, que possui várias estirpes. Isso é muito importante para definir o tratamento, já que existe a suspeita de que apenas um tipo desse vírus cause a microcefalia”, ressalta.

Futuro

Os autores creem que, caso o teste continue a render resultados positivos em novos estudos, é possível que sirva também para detectar outros tipos de enfermidade. “Agora que podemos demonstrar uma prototipagem rápida, acreditamos que esse sensor pode ser aplicado a outros patógenos emergentes, que podem provocar mais crises de saúde”, diz Collins.

O próximo passo, contudo, é fazer com que o teste possa ser conservado em uma temperatura que facilite o uso e o transporte. “Temos de preparar a transição para o desenvolvimento do produto, que precisa passar por técnicas de ampliação de fabricação e distribuição. Como um esforço paralelo, estamos desenvolvendo um dispositivo capaz de se manter em incubações entre 37°C e 41°C, o que permitirá uma ampla distribuição”, adianta Pardee.

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