Estudos sugerem que alguns quadros de alteração do humor são causados por infecções virais

Pesquisadores voltam a procurar em infecções a explicação para, ao menos, parte das moléstias que afligem a mente

por Paloma Oliveto 10/05/2016 13:00

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Valdo Virgo / CB / D.A Press
"Especialistas de áreas diversas estudam os transtornos mentais sob diferentes aspectos, e sabemos que há diferentes causas. O que estamos dizendo é que as biológicas não podem ser deixadas de fora" - Michael Eriksen Benrós, psiquiatra e neurologista da Universidade de Copenhague (foto: Valdo Virgo / CB / D.A Press)
Um dos mais aterrorizantes capítulos da história da insanidade é protagonizado pelo psiquiatra norte-americano Henry Cotton. Enquanto Sigmund Freud creditava aos conflitos da alma a melancolia humana, e Francis Galton culpava a hereditariedade pelas atribulações da mente, Cotton apostava em vírus e bactérias. Era o início do século 20, e a experimentação desprovida de critérios éticos dominava as investigações científicas. A observação empírica de pacientes que, com febre alta, tinham crises de alucinação levou o diretor do Hospital Estadual de Nova Jérsei a concluir que a demência não estava no espírito nem nos genes, mas era fruto de uma infecção.

A cura das moléstias mentais, portanto, consistiria em exterminar o agente que, no organismo, teria desencadeado o processo inflamatório. O médico começava pelos dentes, sabidamente uma porta de entrada de micróbios. Como a estratégia não provocava qualquer alteração, ele continuava a cavoucar os já castigados corpos dos pacientes, muitos dos quais perderam testículo, parte do intestino, ovário e, por fim, a vida. Sem, jamais, se livrar de seus desvarios.

As atrocidades de Henry Cotton fizeram com que a comunidade científica enterrasse suas ideias. Contudo, a tese inicial do psiquiatra não estava totalmente errada. Viroses, como sífilis, que conseguem ultrapassar a barreira do cérebro, atingindo o sistema nervoso, sabidamente levaram à loucura milhares de pessoas — entre elas, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche e o escritor francês Guy de Maupassant. O protozoário Toxoplasma gondii, causador da toxoplasmose, também já foi associado a alterações comportamentais e cognitivas, embora, recentemente, um estudo publicado na revista Plos One não tenha constatado essa relação.

O fato é que, 110 anos após as experiências tenebrosas de Cotton, pesquisadores voltam a procurar em infecções a explicação para, ao menos, parte das moléstias que afligem a mente. “Já há provas claras de que o sistema imunológico pode afetar funções psicológicas e cognitivas. Os mecanismos por trás disso é que permaneciam sem explicação até agora”, observa Thomas Blank, da Universidade de Freiburg, na Alemanha, que acaba de publicar um artigo na revista Immunity descrevendo a forma como a resposta do organismo a uma infecção pode alterar a atividade do cérebro.

Proteína
Blank, cuja área de pesquisa no Grupo de Neuroimunologia Molecular e Celular da instituição é a complexa interação entre os sistemas imune e nervoso, sustenta que, para funcionar corretamente durante o desenvolvimento humano e a fase adulta, os neurônios precisam do suporte imunológico. “As evidências estão apontando que, de outra forma, podem surgir distúrbios como depressão, ansiedade, esquizofrenia, transtorno obsessivo-compulsivo ou problemas cognitivos”, diz. De acordo com ele, nem é preciso ir tão longe. “Quando temos dor de cabeça ou gripe, ficamos mal-humorados”, observa.

O cientista explica que, quando um agente externo provoca uma infecção no organismo, células cerebrais que revestem os vasos sanguíneos produzem a proteína CXCL10, substância que acaba danificando o disparo dos neurônios do hipocampo, a região do cérebro que tem profundas implicações com humor, memória e aprendizado. O resultado disso é que, embora o mecanismo vise proteger o órgão contra o ataque de agentes infecciosos, ele acaba induzindo mudanças de comportamento. Longe de sugerir barbáries como as propostas no passado pelo psiquiatra Henry Cotton, Blank aposta em um novo alvo para o tratamento dessas alterações, baseado no controle da resposta imunológica dos pacientes.

No laboratório da universidade alemã, o pesquisador e o cientista Marco Prinz infectaram ratos com o vírus da estomatite vesicular (VES) que, em humanos, provoca sintomas semelhantes aos da gripe. Em testes para checar o comportamento depressivo nos animais, que consistia em forçá-los a nadar, aqueles que foram contaminados ficaram imóveis, um sinal, em roedores, de desespero. Já os do grupo de controle comportaram-se normalmente. O estudo do tecido cerebral das cobaias com VES revelou a presença da proteína CXCL10, lançada pelas células epiteliais dos neurônios.

De acordo com Blink, esse é mais um sinal importante de que os sistemas imunológico e nervoso estão intimamente ligados. “Embora necessitemos de estudos mais aprofundados, esses resultados abrem caminho para terapias que bloqueiem os receptores da substância ou evitem que ela seja lançada quando há uma infecção. Provavelmente, isso, no estágio inicial do processo infeccioso, poderia eliminar as alterações comportamentais e de humor”, acredita.

Epidemiologia
Psiquiatra e neurologista da Universidade de Copenhague, onde investiga a associação entre infecções e distúrbios mentais, Michael Eriksen Benrós afirma que, além das evidências biológicas, dados epidemiológicos sustentam essa correlação. Há três anos, ele conduziu o maior estudo do tipo já realizado, utilizando dados de 3,56 milhões de dinamarqueses nascidos entre 1945 e 1996, cujos registros médicos ao longo desse tempo estão bem documentados. Entre 1977 e 2010, mais de 91 mil pessoas do universo pesquisado estiveram em um hospital para tratamento de algum distúrbio de humor. Dessas, 32% haviam sido admitidas anteriormente com uma doença infecciosa, e 5% devido a algum mal autoimune.

“Uma em cada três pessoas com diagnóstico inicial de transtorno de humor teve alguma infecção antes disso”, observa Benrós. “Nosso estudo mostra que o risco de desenvolver um distúrbio do tipo aumenta 62% quando já se teve uma infecção séria. Ou seja, nos parece bastante provável que o sistema imunológico esteja em conexão, de alguma maneira, com o desenvolvimento de transtornos comportamentais”, diz o médico.

Ele ressalta que isso não significa dizer que todo e qualquer problema mental é causado por infecções. “Especialistas de áreas diversas estudam os transtornos mentais sob diferentes aspectos, e sabemos que há diferentes causas. O que estamos dizendo é que as biológicas não podem ser deixadas de fora. Em alguns casos, é possível que patologias da mente sejam desencadeadas por agentes infecciosos.”

O médico explica que a chave para a compreensão dessa relação é a barreira hematoencefálica (ou barreira sangue cérebro). Como o sangue é repleto de substâncias químicas, elas poderiam facilmente entrar no órgão, prejudicando-o seriamente. Para que isso não aconteça, existe uma camada de células epiteliais revestindo os vasos sanguíneos e evitando o contágio.

Foram essas as células investigadas no trabalho de Thomas Blank, da Universidade de Freiburg. “No caso de infecções e inflamações, é possível que a barreira fique mais permeável, permitindo a entrada de substâncias tóxicas”, diz Benrós. Segundo o médico, a compreensão mais aprofundada da relação entre o sistema imunológico e o nervoso levará, no futuro, a tratamentos preventivos e curativos.

Ansiedade e estresse
O
utra evidência da interação das defesas do corpo e com os transtornos mentais veio de um estudo da Universidade Estadual de Ohio, nos Estados Unidos, que investigou o papel dos monócitos — importantes células do sistema imunológico — na ansiedade. Segundo John Sheridan, professor de biologia do Instituto de Pesquisa em Medicina Comportamental da instituição, diferentemente do que ocorre durante infecções, quando os monócitos são requisitados pelo organismo frente a um ataque externo, nesse caso, a resposta ocorre por outro motivo, o estresse.

Em um experimento com ratos, o pesquisador constatou que, quando expostos continuamente a situações desgastantes, a medula óssea dos animais produz grandes quantidades de monócitos, que viajam pela corrente sanguínea e migram para o cérebro. Elas conseguem quebrar a barreira hematoencefálica e se instalam em diversas áreas associadas ao medo e à ansiedade, como o córtex pré-frontal, a amígdala e o hipocampo. A presença dessas células nos tecidos cerebrais desencadeou comportamentos associados à ansiedade nos animais.

“Nós já sabíamos que o estresse causa uma resposta no cérebro, de ativação de células especializadas chamadas micróglias, que são a linha de frente do sistema de defesa do órgão. Agora, porém, conseguimos demonstrar que situações estressantes também são capazes de estimular a produção de células imunes fora do cérebro. E isso vai influenciar no comportamento do animal”, observa. “A neurobiologia dos distúrbios de humor e de comportamento tem chamado muito a atenção da ciência porque pode significar uma nova janela de tratamentos para alguns casos que não têm resposta com a terapêutica tradicional”, diz.

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE SAÚDE PLENA