Solidão aumenta risco de derrame em 32%

Cientistas britânicos chegaram à conclusão após estudo que revisou dados de 181 mil adultos. Para especialistas, assim como a obesidade, a falta de convívio social potencializa a depressão e outros fatores de complicações cardíacas

por Carmen Souza 02/05/2016 15:00

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CB / D.A Press
O isolamento está ligado à depressão, que aumenta a pressão arterial (foto: CB / D.A Press)
Placas de gordura vão se acumulando nas artérias até o entupimento, e o consequente infarto. Não por uma alimentação excessivamente calórica ou uma rotina corrida e desregrada. Por solidão. Segundo estudo do Departamento de Ciências da Saúde da Universidade de Iorque, no Reino Unido, a falta de convívio social faz tão mal para o coração quanto inimigos já conhecidos, como a ansiedade, o excesso de peso e uma carreira estressante.

Para chegar à conclusão, a equipe consultou 16 bases de dados de estudos publicados até maio do ano passado envolvendo informações clínicas sobre 181 mil adultos que moravam sozinhos ou se sentiam sozinhos. Os monitoramentos duraram de três a 21 anos e, no total, foram registradas 4.628 ocorrências de complicações coronarianas (ataques cardíacos, angina e morte) e 3.002 de acidente vascular cerebral (AVC), também chamado de derrame. A análise aprofundada mostrou que o isolamento social foi associado a um aumento de 29% no risco de problemas cardíacos e de 32% no de AVC.

No estudo, divulgado hoje na versão on-line da publicação Heart Journal, os autores explicam que se trata de uma meta-análise observacional. Por isso, “nenhuma conclusão pode ser tirada sobre causa e efeito” do aumento da vulnerabilidade. “Nosso trabalho sugere que a abordagem contra a solidão e o isolamento social pode ter um papel importante na prevenção de duas das principais causas de morbidade”, defendem.

Segundo Lázaro Miranda, coordenador do Serviço de Cardiologia do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, quando autoimpostos, a solidão e o isolamento social estão ligados à depressão, que é um considerável fator de risco para as doenças cardíacas. “É um mal tão significativo quanto a ansiedade e todos os tipos de estresse, no trabalho, em casa e nos outros tipos de relações”, ressalta. “Além disso, a depressão altera o sistema imunológico, interferindo no bom funcionamento do coração e do cérebro.”

Também conselheiro da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Miranda explica que o sistema de defesa debilitado provoca mais inflamações e infecções, quadro que, em adultos, favorece o surgimento da doença arterial coronariana — a formação de placas de tecido fibroso e colesterol que se acumulam nas paredes dos vasos sanguíneos. Seguindo a mesma linha das causas fisiológicas, o especialista diz que o estresse e a ansiedade liberam adrenalina e noradrenalina. “São substâncias que podem ser cáusticas para os vasos sanguíneos do coração e do cérebro, além de aumentarem a pressão arterial. E a depressão também favorece o aparecimento da hipertensão”, detalha.

Tecnologias
Fausto Stauffer, coordenador de Cardiologia do Hospital Prontonorte, em Brasília, e diretor científico da Sociedade Brasileira de Cardiologia, ressalta que o vínculo entre a solidão e as complicações cardíacas vem sendo estudado há muito tempo pelos pesquisadores. “O que chama a atenção nesse estudo britânico é que ele nos faz pensar sobre a vida atual. Com as novas mídias, as pessoas acham que têm contato com um monte de gente quando, na verdade, estão sozinhas”, avalia.

O médico cita um grande estudo feito na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, com 45 mil pessoas mostrando que aquelas que moravam sozinhas e tinham entre 45 e 65 anos apresentavam um risco aumentado para a morte precoce. “Curiosamente, ter mais de 80 anos e estar na mesma condição é um sinal de independência e, portanto, causa um efeito contrário”, completa Stauffer. “Todos esses estudos sinalizam a importância de políticas públicas que estimulem mais a interação social. Na Espanha, o governo incentiva idosos que moram sozinhos a terem animais de estimação, o que os força a irem mais para a rua”, exemplifica.

Em um editorial pulicado com o estudo britânico no Heart Journal, Julianne Holt-Lunstad e Timothy Smith, da Universidade Brigham Young, nos EUA, também falam da importância de abordagens políticas, ressaltando que fatores sociais devem ser incluídos na educação médica, na avaliação de risco individual do paciente e em diretrizes e políticas aplicadas à prestação de serviços. “Semelhante à forma como cardiologistas e outros profissionais de saúde tiveram fortes posições públicas sobre outros fatores que exacerbam (o risco de doença cardiovascular), por exemplo, o tabagismo e as dietas ricas em gorduras saturadas, é necessária maior atenção às conexões sociais em pesquisa e vigilância em saúde pública, em prevenção e em intervenção de esforços”, defendem.

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