Neurocientistas se debruçam sobre como a fé afeta o cérebro e mostram resultados

Estudos recentes sinalizam que crentes tendem a ser menos racionais e mais sociáveis, além de possuírem maior autocontrole

por Vilhena Soares 22/04/2016 10:00

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EM / D.A Press
Pessoas ligadas a atividades espirituais mostram maior ativação de regiões cerebrais ligadas à empatia (foto: EM / D.A Press)
“A ciência sem a religião é manca; a religião sem a ciência é cega.” Com essa frase, Albert Einstein tentou mostrar que a busca por conhecimento e a espiritualidade não devem ser campos antagônicos. Nos últimos anos, neurocientistas têm levado a proposta do gênio da física bastante a sério. Diferentes estudos recentes buscam, com análises do cérebro, compreender melhor como a religião afeta o comportamento e o organismo humano.

Um dos trabalhos mais recentes mostrou que pessoas ligadas a atividades espirituais mostram maior ativação de regiões cerebrais ligadas à empatia (capacidade de se colocar no lugar do outro) e sociabilidade do que agnósticos (sem religião), cujas mentes se mostram mais ativas em áreas relacionadas à razão. Para chegar a essa conclusão, os autores realizaram alguns experimentos, como observar, com o auxílio de um aparelho de ressonância magnética funcional, o cérebro dos participantes enquanto eles realizavam atividades de raciocínio lógico e tarefas de cunho social.

Grupos de neurônios acionados na hora de resolver um problema matemático, por exemplo, eram mais ativados nos não religiosos do que nos crentes. Ao mesmo tempo, as pessoas com uma religião tinham maior atividade nas áreas acionadas quando falavam de temas ligados à ética social. “Pensamos que, talvez, a concorrência entre essas redes cerebrais possa explicar, em parte, a crença religiosa”, diz ao Correio Jared Friedman, professor de filosofia da Case Western Reserve University e um dos autores do estudo, publicado na revista PLOS ONE.

Sem preconceito

Em outra parte do estudo, os pesquisadores conduziram oito experimentos com 527 adultos, mais uma vez divididos entre religiosos e agnósticos. Por meio de questionários, avaliaram a tendência dos participantes de se preocuparem com outras pessoas, mesmo quando eles não as conheciam, e também a inclinação de cada voluntário para o pensamento analítico.

Em um resultado parecido com o da fase anterior, os participantes que relataram rezar e meditar com frequência se saíram pior nos problemas de lógica e apresentaram índices mais altos de empatia e a desenvoltura social. “Religiosos se preocupam mais com outras pessoas porque pensam que há algo mais do que apenas o físico. Podemos dizer também que eles se preocupam com as almas dos outros”, analisa Anthony Jack, também responsável pelo trabalho.

Para a médica Helena Moura, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), o trabalho reforça a conclusão de pesquisas anteriores que também investigaram a espiritualidade humana. “Estudos passados mostraram que a religião pode ajudar as pessoas a lidar melhor com problemas emocionais, como o tratamento de doenças”, afirma a especialista, que não participou do estudo.

Moura, contudo, ressalva que dados desse tipo sempre devem ser vistos com cuidado e que muitos estudos ainda precisam ser feitos para aprofundar o conhecimento sobre o tema. “Um ponto importante a ser mais explorado é o conceito de religiosidade, pois temos pessoas que só se consideram mais espirituais, mas não seguem um grupo”, lembra. Outro cuidado deve ser o de não gerar preconceitos. Assim como religiosos, que apresentam menos atividade em áreas analíticas, não podem ser considerados menos inteligentes, agnósticos não podem ser considerados pouco empáticos. “Algo importante a se destacar é que a expressão maior de uma área não exclui a outra totalmente. Pessoas mais analíticas não são frias e totalmente indiferentes”, acrescenta.

Objetivos

As chances de conquistar um objetivo na vida são influenciadas pelo autocontrole, uma característica que parecer ser mais alta em pessoas religiosas, de acordo com um estudo científico norte-americano. Durante oito décadas de avaliações em voluntários, que envolveram a análise de atividades na área de neurociência, economia, psicologia e sociologia, os pesquisadores concluíram que comportamentos religiosos podem estimular essa habilidade.

Um dos achados do estudo foi a constatação de que rituais religiosos, como a oração e a meditação, afetam partes cerebrais importantes para a autorregulação e o autocontrole. Dados condizentes com as observações neurais também foram vistos nas análises de comportamento. De acordo com os autores, quando as pessoas veem seus objetivos como algo “sagrado”, elas colocam mais energia e esforço para persegui-los, e por isso, podem se tornar mais eficientes na busca.

“A importância do autocontrole e da autorregulação para a compreensão do comportamento humano é bem conhecida pelos cientistas sociais, mas a possibilidade de a religiosidade influenciar esse aspecto ainda não tinha recebido muita atenção”, disse, à época do lançamento da pesquisa, Michael McCullough, professor da Universidade de Miami. O artigo foi publicado em 2010 na revista Psychological Bulletin.

Descanso
Outra constatação da ciência é a de que a religiosidade parece funcionar como uma espécie de “alívio para o cérebro”. É o que defendem o antropólogo Lionel Tiger e o neurocientista Michael McGuire no livro God´s brain (O cérebro de Deus, em tradução livre, sem edição no Brasil). A partir de um grande apanhado de estudos, os pesquisadores americanos destacam que os seres humanos e outros primatas são afligidos por fontes inevitáveis de estresse, descritas por eles como brain pain (dor do cérebro). Para lidar com essa aflição, as pessoas procuram diferentes tipos de descanso, entre os quais, a religião.

Para Sander Fridman, psiquiatra do Hospital Adventista Silvestre, no Rio de Janeiro, o estudo da religião a partir do cérebro é um assunto que merece ser estudado, pois já se sabe que as crenças podem influenciar a forma como o sistema neurológico funciona. “A forma como a pessoa e seu cérebro são exigidos, seja pelo contexto de vida, seja por compromissos e valores, determina a forma como se constrói e se reconstrói o cérebro e suas subestruturas”, afirma o médico. Para Fridman, os resultados obtidos nesse tipo de investigação podem ser muito úteis não só para a compreensão do comportamento humano, mas também para áreas como a das terapias cognitivas, a psiquiatria e a psicoterapia.

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