Desequilíbrio doméstico segue inabalado nas famílias brasileiras

Manter uma casa funcionando envolve 65 tarefas diárias, como fazer o café, arrumar a cama e retirar o lixo. Por isso, a divisão precisa ser balanceada e começa no diálogo entre o casal

por Carolina Cotta 19/04/2016 10:50

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Jair Amaral/EM/D.A Press
Rodrigo Magalhães acha justo dividir as tarefas com a esposa, Camila Tavares (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
Muitos deles já se orgulham em dizer que colaboram com as tarefas domésticas. Há uma mudança comportamental em curso, resultado de uma geração mais crítica e política. Mas trata-se de um movimento tímido. O pai, o irmão, o amigo que ajuda em casa pode ser cada vez mais frequente aos nossos olhos, mas não a ponto de transformar as estatísticas. E, principalmente, não a ponto de tomarem para si a responsabilidade pela casa, o que permanece com as mulheres. Os afazeres domésticos ainda são uma tarefa feminina no Brasil e a participação masculina nesses serviços não evoluiu muito nos últimos anos.

A constatação é da pesquisa Mulheres e trabalho: breve análise do período 2004-2014, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), apresentada pelo Ministério do Trabalho e Previdência em função do Dia Internacional da Mulher. O percentual de homens que assume tarefas não remuneradas em casa cresceu pouco – de 46% para 51% em uma década. O das mulheres segue inalterado: em 2014, era de 90%. O tempo gasto com tais afazeres também retrata a desigualdade entre os gêneros. Nos 10 anos analisados, as mulheres aumentaram a presença no mercado de trabalho, mas reduziram pouco o tempo gasto com a casa, que passou de 27,1 horas semanais para 25,3 horas. Para os homens, o número se manteve inalterado: 10,9 horas semanais, menos da metade da dedicação delas.

E a divisão de tarefas independe da raça e da classe social. Ao contrário do que ocorre quando são analisados os dados de precarização, em que as mulheres negras e pobres sofrem mais do que as brancas de classe média, dentro de casa o único fator de desigualdade é o fato de ser homem ou mulher. “Quando tratamos de diferenças entre homens e mulheres, precisamos considerar não apenas o mercado de trabalho, mas o mundo do trabalho, que envolve o mercado, a casa e os filhos. São nesses últimos itens que a diferença é mais gritante”, analisa Rosane da Silva, coordenadora do Núcleo de Gênero do Ministério do Trabalho e Previdência Social.

O abismo é tão grande que as mulheres ativas no mercado de trabalho – aquelas que exercem alguma atividade remunerada – chegam a dedicar quase o dobro do tempo aos afazeres domésticos, na comparação com os homens inativos, aqueles que estão fora do mercado de trabalho remunerado. A diferença é de 21,7 horas semanais para elas contra 13,7 horas semanais para eles. E quanto maior o número de filhos, maior é o tempo que as mulheres se dedicam, e menor é a participação dos homens. Em famílias com cinco filhos ou mais, elas gastam 32,5 horas semanais com a casa, enquanto eles usam apenas 9,7 horas semanais.

A pesquisa mostra, ainda, que cuidar da casa não está diretamente ligado a poder ou a dinheiro. Nas moradias onde o homem é o chefe da família, as mulheres dedicam 28,7 horas semanais ao lar contra 11,5 horas do cônjuge. Quando a situação se inverte e a mulher vira chefe, o trabalho dela continua maior. Passa para 25,3 horas semanais, enquanto as do homem caem para 10,1 horas. Tal realidade é cultural, resistente, antiga e precisa ser alterada. Segundo Marlise Matos, professora do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher, essa opressão é uma das bases sobre as quais se estrutura o patriarcado.

AUTONOMIA
“Na vida moderna, um contrato sexual precede o contrato social. Nesse pacto, as mulheres não entram como sujeitas contratantes, mas sim como objeto contratado. Um exemplo é o matrimônio. Depois de anos subordinadas aos pais, elas passam à tutela do marido. Tiram da mulher a autonomia e a capacidade de ela ser ela própria, proprietária de si mesma. Elas, então, são desubjetivadas”, explica a estudiosa. Isso ocorre porque na entrada da modernidade os homens ficaram com a esfera do público, o mundo do contrato, da política, do mercado, e as mulheres ficaram com a esfera privada. “Como se isso fosse uma benção por se reproduzirem. Vem daí o conjunto de estereótipos associados às mulheres”, ressalta.

Beto Magalhães / EM / D.A Press
Marlise Matos, professora do Departamento de Ciência Política da UFMG e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher (foto: Beto Magalhães / EM / D.A Press)
Mas quando elas se escolarizam e vão para o mercado, ou seja, para o espaço publico, elas não voltam mais ao estatus anterior. “O privado virou dimensão associada ao mundo da mulher, um espaço socialmente legítimo. E é impressionante como nos processos mais primários continuamos reproduzindo esse modelo. A construção social das relações de gênero reforça isso. Compramos bonecas para as meninas brincarem dentro de casa, e damos bola aos meninos, para que brinquem na rua. O próprio brinquedo do menino o leva para o espaço público, enquanto o da menina a preserva em casa. As consequências disso são parte do ódio que vemos hoje, quando as mulheres fazem o caminho na direção do público, da escolarização, do mercado de trabalho”, critica Marlise.

Deixar de sentir culpa
Hoje, 48% da população ocupada no Brasil é de mulheres. Mas elas ainda precisam ser multitarefas, cuidando da casa e dos filhos, e, muitas vezes, até dos maridos. O problema é que quando as esferas do público e do privado se cindiram, ocorreu uma hierarquização e o trabalho na esfera privada ficou inferiorizado. Ele não é reconhecido como trabalho. Tanto que as desigualdades em casa existem porque homens e mulheres participam igualmente no sustento da família, mas não compartilham as responsabilidades com os afazeres domésticos e os filhos. Há, inclusive, projetos para que essas atividades sejam incluídas nos cálculos para aposentadoria.

Mas há transformações em curso. Quando as mulheres começaram a questionar esse lugar naturalizado, no qual, além do desequilíbrio, elas vivenciam a sobrecarga, isso resultou em um desequilíbrio também dos relacionamentos. Como discutir sobre isso hoje? Antigamente, era algo sequer questionado. Mas hoje, essa já é uma conversa entre os casais. Mas pesquisas do IBGE sobre o uso do tempo mostram que o trabalho doméstico familiar continua sendo uma atribuição estritamente feminina. O que, então, mudou, efetivamente? Para Marlise, há uma certa fachada. “Muitos homens defendem que dividem as tarefas, mas ainda é a mulher que cuida da criança quando ela adoece e falta ao trabalho ou que sai mais cedo para a reunião na escola.”

Já existe sim, divisão de tarefas em algumas famílias, “mas é ainda algo tão periférico, que sequer aparece nas pesquisas sobre o tema. Do ponto de vista da demografia, ainda não é algo sociologicamente relevante. As mulheres continuam em situação de desequilíbrio”.

Para Marlise, parte da mudança vai ocorrer quando a cabeça das mulheres mudar, quando elas deixarem de sentir culpa. “Porque essa estrutura do patriarcado é muito perversa. Ela também afeta a experiência de vida das próximas mulheres. Há um pânico moral de não ser boa em tudo e isso acaba reproduzindo o modelo que hoje temos em mãos. O potencial de mudança está nas novas gerações. Os homens começam a enxergar, a ter a percepção desse desequilíbrio, mas ainda é pouco. Há um custo para mudar isso de maneira radical. É mais fácil repetir que ficar reinventando”, defende.

Casados desde 2013 e com planos de filhos para os próximos dois anos, os publicitários Rodrigo Magalhães, de 42 anos, e Camila Tavares, de 26, trabalham fora e sempre até bem tarde. Como moram em um apartamento bem pequeno, optaram por terceirizar os cuidados com roupas, o que já alivia nas tarefas. O resto é acordado e dividido. Basicamente, Camila cuida das atividades relacionadas à limpeza nos intervalos da ida da faxineira (a cada 15 dias), cozinha e organiza as coisas da casa. “Ela sabe onde tudo está guardado e administra o que é de uso diário, o que deve e onde ficar guardado. Na hora de receber uma visita, por exemplo, em que precisamos de vasilhames e talheres para ocasiões mais especiais, não tenho a menor ideia de onde ficam essas coisas”, confessa Rodrigo, que é responsável pelas tarefas mais diárias: lavar vasilhas, arrumar a cama de manhã e à noite, recolher o lixo e fazer o café.

Para ele, a divisão é equilibrada, pois não há imposição de tarefas. Antigamente, os cuidados domésticos eram exclusividade das mulheres, o que tem mudado a passos lentos. Os pais de Rodrigo, nesse sentido, já eram uma exceção em uma geração que cabia à mulher cuidar de tudo. Isso influenciou Rodrigo, mas também sua percepção de como mulheres com carreiras consolidadas no mercado de trabalho acabavam sacrificando suas carreiras, nunca os homens. “Desde sempre, meus pais trabalharam fora. Então, cresci vendo uma vida muito ativa dos dois, executando trabalhos de responsabilidade fora de casa, sempre dando muita atenção aos filhos quando estavam em casa. No entanto, aos fins de semana, quem assumia o fogão era meu pai. Isso pra mim foi um exemplo de que determinadas tarefas tradicionalmente desempenhadas pela mãe podem ser desempenhadas pelo pai”, lembra.

BOM EXEMPLO
Além do exemplo do seu pai, ele viveu algumas experiências que lhe fizeram refletir sobre o papel dos pais e maridos dentro de uma casa. Com cargos de coordenação no trabalho, ele viu muitas vezes, nos departamentos vizinhos e principalmente nas agências de publicidade, profissionais dedicadas, competentes, engajadas no trabalho e conduzindo projetos de maneira motivada e que dependiam delas para correr perfeitamente, se ausentarem em um dia importante para o projeto, porque "tive que acompanhar meu filho em uma consulta" ou "a empregada atrasou e tive que ficar em casa aguardando" ou ainda "quebrou o cano da cozinha e tive que esperar o bombeiro chegar em casa". “Em um dia comum até dá pra entender, mas hoje era um dia fundamental nesse projeto que essa profissional toca e um dia importante pra ela. Por que não foi o marido que acompanhou a criança na consulta? Ou por que não foi ele que ficou esperando o bombeiro? Sempre me intrigou esse comportamento que os homens fazem não por má fé, mas por costume”, diz.

Idealizadora do curso como gerenciar minha casa, a administradora Olivia Cicci vê esse comportamento na prática, ou melhor, na turma. Criado com o objetivo de ensinar a conciliar os fazeres pessoal, profissional e doméstico pautados na organização e planejamento do tempo, no curso, os homens nunca são mais que 5% do público. “E são homens solteiros ou divorciados”, pontua a administradora de empresas. A ideia do curso surgiu quando Cicci trabalhava fora e era admirada por saber conciliar a vida profissional, doméstica e familiar. Foi um homem, um antigo chefe, que pediu que ela montasse um treinamento na empresa para ensinar aquilo a outros funcionários. “A ideia é conseguirmos equilíbrio para conciliar afazeres da vida profissional e pessoal”, explica. Em mais de 25 anos ensinando, Cicci lembra de ter tido um único aluno homem casado. E mesmo assim porque a mulher, por algum motivo, não podia ir ao curso. “Ele faria por ela. Quando chegava em casa repassava tudo o que tinha aprendido”, explica.

Mãe de um casal, o fato incomoda a administradora, que acredita que os homens deveriam colaborar mais, que algo precisa ser feito para mudar essa cultura e que isso começa na educação que os pais dão para seus filhos. Cicci explica, por exemplo, que manter uma casa funcionando envolve 65 tarefas, como fazer o café, arrumar a cama, retirar o lixo etc. “As pessoas não têm ideia desse volume. Os maridos não imaginam que é tanta coisa. Essa divisão precisa ser equilibrada e ela começa no dialogo entre o casal”, defende.

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